Aquela hora não era normal tanto trânsito. Mesmo sendo segunda-feira. Eram 7h20 e o agente principal Carvalho seguia a caminho da Divisão de Trânsito da PSP, na Alta de Lisboa, quando se deparou com o aparato na Segunda Circular. Perto da saída para o aeroporto um camião circulava em contramão e vinha em direção a ele. Tinha já abalroado vários carros e o caso podia agravar-se.

Avaliando o grau de risco, o agente da PSP não se limitou a afastar-se do caminho. Vestiu o colete da PSP que trazia, abandonou o seu carro e abordou o camião que, à medida que se aproximava e ia embatendo noutros carros, perdia velocidade. O agente principal Carvalho abriu a porta, identificou-se e deu ordem ao camionista para que saísse. Ele não ofereceu qualquer resistência e o polícia, que ainda nem estava de serviço, tirou a chave da ignição do carro. E deteve o homem até chegarem os seus colegas.

Esta tarde, em conferência de imprensa, a PSP — através dos porta-vozes da Direção Nacional da PSP, do Comando de Lisboa e um chefe da Divisão de Trânsito — fez o balanço do caso: o condutor bateu em oito carros e dois ocupantes ficaram gravemente feridos. Houve mais quem sofresse ferimentos ligeiros, mas que não necessitou de tratamento hospitalar.

Segunda Circular já foi reaberta. Camião em contramão foi travado por um polícia à civil

Um tipo “com cabedal”, mas sempre “muito correto” e com “sangue frio”

O gesto corajoso não espanta aqueles que conhecem o agente — um homem na casa dos 40 anos e polícia com 18 anos de experiência. “O agente Carvalho é muito experiente e um excelente profissional de polícia”, resume um colega que trabalha com ele há já alguns anos. “É um tipo com cabedal e às vezes as pessoas quando o vêm aproximar pensam ‘É pá…’”, diz o mesmo colega, referindo-se ao físico do agente. “Mas não há razão para isso, é um excelente profissional.”

É sempre muito correto com as pessoas e tem sempre sangue frio”, acrescentou a mesma fonte.

O sangue frio, esse, é necessário para quem trabalha numa área como a do agente Carvalho. Na Divisão de Trânsito, este polícia trabalha numa brigada à civil, ou seja, “à paisana”, que tem como objetivo recuperar carros roubados. O trabalho, por vezes em bairros considerados “complicados”, não é fácil e alguns colegas já tiveram mesmo aquilo que alguns definem como “problemas”. Bruno Carvalho, fruto da sua postura, não.

Depois de serem conhecidos os primeiros contornos do incidente na Segunda Circular da manhã desta segunda-feira, não tardou até surgirem os primeiros elogios à ação do agente, apelidado por alguns de “herói”.

Bruno Carvalho, garante o colega que falou com o Observador, não ficará demasiado afetado por isso, nem reagirá mal. “Vai continuar a ser a pessoa que é”, diz a mesma fonte.”Uma pessoa normal, para quem trabalho é trabalho, diversão é diversão. No trabalho é super profissional, fora dele também participa nos convívios que nós às vezes organizamos. Mas, no serviço, sempre o considerei muito profissional.”

Condutor não se lembra de nada, mas pode ser acusado

A informação de que teria sido um agente à civil a travar o camião foi avançada ainda no local do acidente pelo chefe da Divisão de Trânsito, Madail dos Santos: “Um elemento da Divisão de Trânsito da PSP que circulava à civil imobilizou a viatura pesada. Felizmente não foi abalroado e conseguiu imobilizar a viatura, senão continuaria a circular na Segunda Circular”, declarou.

Ao Observador, um dos colegas do agente Carvalho explicou como aconteceu: “Ele tentou, dentro das possibilidades dele e sempre em segurança, imobilizar o camião — que já estava quase parado, porque tinha entretanto batido em vários carros e já tinha a velocidade reduzida”, resume uma das fontes ouvidas.

As ações para travar o camião foram facilitadas pelo facto de o condutor não ter oferecido qualquer resistência. Ao que tudo indica, o camionista também estaria a começar o seu dia de trabalho e, submetido a exames ao álcool e droga no sangue, nada acusou. Mesmo depois de prestar declarações à polícia, apurou o Observador, o condutor não conseguiu explicar o que aconteceu. Disse que faz aquele percurso diariamente e que não sabe como entrou na Segunda Circular em sentido contrário. Nem tão pouco conseguiu reagir quando percebeu que estava a atingir vários carros. “Não me lembro de nada”, terá dito.

Segundo a PSP, o homem de 42 anos terá entrado na Segunda Circular em sentido contrário na zona da Alta de Lisboa, uma vez que naquele acesso havia já indícios de estragos. E circulou ao longo de três quilómetros em sentido contrário sem se ter apercebido. Pelo caminho bateu em oito carros, até ser imobilizado pela PSP.

A PSP descarta que tenham existido “intenções de natureza extremista ou terrorista” no caso, ainda assim deteve o homem por condução perigosa. O condutor será presente ao Ministério Público, que pode imputar-lhe ainda os crimes de ofensa à integridade física e crimes contra o património.

A PSP enaltece o facto de ter recebido várias chamadas de cidadãos a dar conta para o caso, via 112. E refere que a PSP chegou ao local 5 minutos após o primeiro alerta. Mas, quando chegou, já o agente principal Bruno Carvalho tinha detido o homem.