De pasta verde na mão e um envelope ao lado, o major Vasco Brazão chegou esta manhã ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) para o segundo interrogatório desde que foi detido na chegada a Lisboa, no início de outubro, quando regressava de uma missão na República Centro Africana e já depois de o diretor da PJ Militar e de outros sete pessoas serem detidas. O interrogatório acabou sete horas mais tarde, com o advogado Ricardo Sá Fernandes a deixar uma mensagem direta ao ex-chefe de gabinete do ex-ministro da Defesa: “Só há um memorando e, demonstrando-se que só há um memorando, isso honra o general Martins Pereira.”

A declaração de Sá Fernandes volta a reforçar a pressão sobre Azeredo Lopes em todo este caso. “Tanto quanto nos é dado perceber, o general Martins Pereira honrou a verdade”, assinalou o advogado. A meio da semana passada, o ex-chefe de gabinete do ministro fez chegar ao DCIAP um memorando que lhe teria sido entregue pelo ex-diretor da PJ Militar e por Vasco Brazão, em novembro, quando os três se encontraram no gabinete do general. Azeredo haveria de considerar que essa atitude decorria de um sentido de “dever” do militar, assegurando sempre que desconhecia qualquer tentativa de encobrimento dos autores do furto de Tancos por parte da PJ Militar.

O advogado disse esta terça-feira que o segundo interrogatório de Vasco Brazão, desta vez com elementos da PJ e com os procuradores do processo, foi um “aprofundamento” do primeiro depoimento prestado no Tribunal de Instrução Criminal e a continuação da linha seguida nesse momento. “Contar a verdade, toda a verdade, essa é a única estratégia da defesa possível num caso destes, é a única forma de o major Vasco Brazão sair deste processo com alguma dignidade, depois do erro que cometeu”, reconheceu Brazão — forjar a entrega de material de guerra e afastar a Judiciária civil dessa operação dos inspetores militares.

A pedido da sua defesa, o militar voltou a ser ouvido pelos procuradores responsáveis pela Operação Húbris, que investiga a forma como foram recuperadas as armas furtadas dos Paióis Nacionais de Tancos, em junho do ano passado. À entrada, acompanhado do seu advogado, Ricardo Sá Fernandes, o major do Exército tinha optado por não dizer uma única palavra. O cenário voltou a repetir-se às 13h30, quando Brazão saiu lado a lado com a sua equipa de defesa, liderada por Sá Fernandes.

Foi o advogado quem disse breves palavras nesse momento, deixando notar que o depoimento não tinha terminado e deveria ainda longo, depois de o major voltar ao DCIAP, às 15h. Já no primeiro interrogatório Vasco Brazão tinha estado em frente ao juiz de instrução criminal João Bártolo durante mais de oito horas a contar a sua versão sobre como foi conduzida a operação que resultou na entrega das armas à PJ Militar. “Farei uma declaração no final”, disse apenas Sá Fernandes, sem adiantar pormenores sobre o interrogatório.

Esperava-se que a audição do ex-porta-voz da PJ Militar servisse para acrescentar novos dados a um ponto central no desfecho da Operação Húbris: o ex-chefe de gabinete do agora ex-ministro da Defesa José Azeredo Lopes sabia ou não da operação de encobrimento de assaltantes dos paióis por parte da PJ Militar? E sabia ou não da decisão de deixar a PJ civil fora dessa operação, para que a Judiciária Militar ficasse com os louros dessa recuperação?

Num tom quase confessional, Sá Fernandes disse à saída que “ao contrário do que as pessoas às vezes pensam, o compromisso dos advogados não é só com os clientes, é também com a verdade e com a justiça”. E admitiu que “isso nem sempre é possível conciliar”. O “ideal”, acrescentou, é quando conseguimos fazer convergir o interesse do cliente com a realização da justiça e a procura da verdade e tenho a sensação de que, neste caso, essa estratégia está a dar bom fruto e que vamos apurar a verdade”.

Depois do primeiro interrogatório de Vasco Brazão, o general António Martins Pereira, enquanto ex-chefe de gabinete de Azeredo Lopes, entregou na última quarta-feira no DCIAP um memorando sobre a operação de recuperação das armas e que seria, nas palavras do próprio, a “documentação verdadeira” que Vasco Brazão e o ex-diretor da PJ Militar, coronel Luís Vieira, lhe teriam entregue numa reunião no seu gabinete, em novembro.

Vasco Brazão à chegada ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Horas depois, o Expresso e a Sábado publicavam notícias que revelavam que os dois documentos teriam a mesma versão e que, em ambos, seria possível perceber os contornos da operação de encobrimento dos assaltantes, embora essa intenção não fosse explicitada com todas as palavras. Pelo meio, Azeredo Lopes foi sempre negando “categoricamente” ter tido qualquer conhecimento de quaisquer ilegalidades ou irregularidades cometidas pela PJ Militar.

É essa a expectativa para a audição de Vasco Brazão, esta terça-feira (seguir-se-ão, mais à frente, uma segunda audição do ex-diretor da PJ Militar e uma audição do general Martins Pereira). O major poderá trazer novos dados que esclareçam que documentação foi, afinal, entregue ao ex-chefe de gabinete do então ministro da Defesa. Neste contexto, Azeredo Lopes apresentou na última sexta-feira a demissão.

Vasco Brazão à chegada ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)