Web Summit

Christopher Wylie: “O Facebook ameaçou processar-me a mim e ao The Guardian”

O ex-diretor de Investigação da Cambridge Analytica, que denunciou a utilização indevida de 87 milhões de contas de Facebook, foi um dos principais oradores do primeiro dia da Web Summit.

O canadiano de 29 anos demitiu-se da empresa ainda antes das eleições de 2016

ANDRE DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Chegou ao palco principal com uma camisola preta onde se lia:”Prendam o Presidente” a vermelho. Cristopher Wylie, o ex-diretor de Investigação da Cambridge Analytica que expôs a utilização indevida de 80 milhões de contas de Facebook para ajudar a eleger Donald Trump, era uma das intervenções mais esperadas da tarde desta terça-feira na Web Summit. Quase sem deixar falar Krishnan Guru Murthy,  jornalista do Channel 4 — um dos meios que noticiou o caso –, o denunciante contou tudo o que se passou durante o tempo em que trabalhava na empresa.

 “Quando comecei a trabalhar com o grupo SCL, a Cambridge Analytica ainda nem existia. O meu trabalho era tentar perceber como podíamos utilizar dados para direcionar conteúdos a pessoas em grandes eventos contra terroristas. Se se está a tentar interferir com redes de comunicação de extremistas, pode-se utilizar informação errada, porque eles querem magoar pessoas”, afirmou, acrescentando que um dos clientes da SCL estava sentado ao lado de Steve Bannon–  ex-conselheiro de Donald Trump – num avião, quando este viu o trabalho da empresa britânica pela primeira vez.

“O Steve [Bannon] estava a olhar para um projeto para conseguir começar uma guerra cultural. E ele queria mesmo dizer guerra. As armas era a desinformação e a munição eram dados. Estávamos numa situação em que estávamos a trabalhar num projeto para uma coisa, e depois mudou-se para o contrário”, contou Wylie. Sobre o envolvimento do Facebook, foi perentório: “Avisei a administração Obama sobre isto e que essa informação [os dados dos milhões de utilizadores] tinha ido parar à Rússia. O Facebook aprovou isto. Sempre soube disso e nunca fez nada. A administração de Obama disse-me para não me preocupar. Achavam que o Donald Trump era um parvo e que Hillary Clinton ia ganhar”, continuou Christopher Wylie.

Em março, o ex-diretor de Investigação da empresa de análise de dados revelou ao The Observer (The Guardian) e ao The New York Times que a Cambridge Analytica tinha usado indevidamente dados de 50 milhões de utilizadores para influenciar o eleitorado norte-americano indeciso a votar em Donald Trump. Soube-se mais tarde que foram utilizados dados de 87 milhões de contas. A propósito disto, o fundador e presidente da rede social, Mark Zuckerberg, foi ouvido durante 10 horas em duas audições no Congresso norte-americano e no Parlamento Europeu. Pediu várias vezes desculpa pelo sucedido.

Esta terça-feira, em Lisboa, Christopher Wylie explicou que a estratégia da Cambridge Analytica começava quando o algoritmo do Facebook motivava as pessoas a entrarem em determinadas páginas ou grupos para criar um movimento. A seguir, uma parte dessa comunidade era convidada a encontrar-se num café local para “falar sobre coisas que não veem nos jornais”. Quando reparou nisto tudo, Wylie começou a discordar e despediu-se, foi-se embora da empresa. No palco da Web Summit, contou que foi processado por um multimilionário e que o Facebook também o ameaçou com um processo judicial. “Isto foi quando a campanha presidencial de 2016 começou.

[Entre acusações e denúncias, veja no vídeo sete pontos-chave do que disse Christopher Wylie]

O Steve estava a tentar criar a sua NSA privada. Ele foi bem sucedido por utilizar as mesmas táticas que o exército estava a utilizar [com os dados da Cambridge Analytica]. Quando soube, fui falar com as autoridades. O Facebook ameaçou processar-me a mim e ao The Guardian. Achámos que ameaçar pessoas era uma tática de baixo nível”, afirmou, acrescentando que a rede social tinha criado “um clone digital da nossa sociedade”. “Quando se está a pôr toda a informação em sistemas de inteligência artificial começa-se a criar armas”, continuou a contar Wylie.

O jornalista perguntou ao antigo analista de dados: “Estamos a trabalhar em novos sistemas que recolhem informação e dados com inteligência artificial. Seis meses depois, o que é que se fez para responsabilizar estas pessoas?”. Resposta: “O meu caminho foi perceber o falhanço institucional. Como sociedade não compreendemos o que estamos a fazer. É como quando os europeus conheceram os índios. Achavam que os europeus eram deuses, mas eram conquistadores. O mesmo acontece com os presidentes e fundadores destas empresas tecnológicas. Não são deuses”, disse Wylie.

Num registo mais aceso, o antigo analista de dados pediu mais regulação para a indústria tecnológica: “Sentem-se seguros quando entram num avião ou quando vão ao médico? Sim, porque a regulação funciona. Se conseguimos legislar sobre a energia nuclear, porque é que não conseguimos regular a m**** da programação [da Internet/do código/da informática]. Se se utiliza dados de outras pessoas e se lida com eles, há responsabilidades éticas”, disse Wylie, acrescentando que é preciso haver regras para perceber o impacto das coisas que construimos. “Caso contrário, é brincar com fogo”, disse.

Sobre as eventuais consequências que o caso teve, Wylie não hesitou: não foram nenhumas. “O Facebook recusa-se a assumir responsabilidade. Não há regulação, não há autoridade. Quando vou à polícia, passo o primeiro dia a explicar como é que isto funciona. Não é engraçado que a nossa polícia não saiba lidar com crimes de dados”. A maior preocupação de Wylie é que este fenómeno tome outras proporções.

Utilizamos a Alexa ou a Google Home e a certa altura a casa pensa por ti. Depois, transfere isso para o carro, para as ruas, para o escritório. O problema é quando tudo isto começa a pensar por nós, a decidir o que queremos ver. Até estamos a ter dificuldade em falar sobre coisas que aconteceram há anos. Temos um ambiente inteiro a pensar por nós e a observar-nos. E isso é assustador”, disse.

Sobre se valeu a pena ou não ter denunciado o caso, a resposta foi positiva. “Porque agora as pessoas estão a falar sobre isso. Sinto que tenho o dever de falar. Eu estava ali sentado num dos maiores abusos de dados de sempre. Agora tenho de falar sobre isso”, acrescentando que daqui a 20 anos o mundo “vai ser só inteligência artificial. O que estou a tentar dizer é apenas: pensem sobre isto”. No final, o público aplaudiu.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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