Esta segunda-feira, Nuno Magalhães tinha dado a entender que o CDS apoiava a iniciativa de convocar nova comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos, perante os novos dados da auditoria entretanto tornada pública. Disse que o CDS iria “recorrer a todo e qualquer instrumento regimental” para fiscalizar os “abusos manifestados”, mas esta terça-feira Assunção Cristas mudou ligeiramente o ónus: o CDS não obstaculiza nenhuma forma de apurar a verdade, mas lembra que, há dois anos, foram os partidos da esquerda que “fecharam a comissão de inquérito” e “impediram que os deputados tivessem acesso à lista dos grandes devedores da Caixa”.

Ou seja, não venham agora pedir uma nova comissão de inquérito para fazerem o mesmo da outra vez. “O Parlamento já podia ter tido conhecimento, há dois anos, dessa lista dos grandes devedores que agora foi conhecida”, insistiu Assunção Cristas, criticando o facto de agora esses mesmos partidos virem pedir uma nova comissão, que seria já a terceira sobre o mesmo tema, a seis meses do fim da legislatura.

Depois do PSD de Rui Rio ter admitido fazê-lo, esta terça-feira foi a vez de o PS, que estipulou como requisitos para um novo inquérito a entrega do relatório da auditoria realizado pela EY à Assembleia da República e a promulgação, por parte do Presidente da República, do diploma que permite às comissões de inquérito ter acesso a todas as informações que solicitem aos bancos. Só nessas condições é que os socialistas dizem que faz sentido constituir aquele que seria já o terceiro inquérito parlamentar ao banco público.

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Sobre isso, contudo, Cristas tem dúvidas de que haja tempo. “Ainda há tempo, a seis meses do fim da legislatura (e com europeias pelo meio?), não sei se há tempo, mas há sempre tempo para descobrir a verdade”, disse no discurso de encerramento das jornadas parlamentares do CDS em Braga. E explicou que, no seu entender, a verdade pode-se descobrir de várias maneiras: “pode ser agora, podemos esperar que a auditoria da EY chegue ao Parlamento, ou podemos esperar mais algum tempinho, a verdade é que por nós já devia ter sido há dois anos”.

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Recuperando o que Nuno Magalhães já tinha dito no discurso de abertura das jornadas, Assunção Cristas reforçou que o CDS não vai desperdiçar as propostas para a Justiça que entregou no Parlamento e que estão há quase um ano em banho-maria à espera das propostas dos restantes partidos. Não se referindo diretamente ao PSD — nunca o fez no decorrer destes dois dias de jornadas, embora tenha feito várias críticas veladas –, a líder centrista recusou-se a esperar que os “outros” partidos convertam as suas ideias em propostas e vai convocar um debate para irem todos a jogo. O PSD chegou a desenhar um pacote para a Justiça, mas no âmbito do Conselho estratégico, não o tendo convertido em propostas legislativas, nem o tendo sequer entregue aos deputados sociais-democratas (o que motivou muitas queixas internas).

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Sair da “cepa torta” e com uma receita à la CDS (não à la PSD/CDS)

Piscando o olho ao eleitorado mais jovem, e fazendo questão de sublinhar que não é só o eleitorado mais velho que vota no CDS, mas “todos aqueles que querem uma alternativa para o país”, Assunção Cristas mostrou nestes dois dias em Braga que já está em modo de campanha.

Disse que o CDS está “um passo à frente em todas as áreas”, que é “a alternativa” e que está “preparado para o futuro”. Mas disse mais: que o CDS quer “sair da cepa torta”, e que isso não se faz nem com a receita do PS, nem com a receita que “infelizmente foi aplicada durante os anos da troika”. Ou seja, o CDS quer poder governar com a sua própria receita, não com a receita do anterior governo PSD/CDS. Uma receita que, nota, nunca foi testada.

“Sabemos que o que o CDS defende não pôde ser, até agora, aplicado no nosso país, nunca tivemos essa possibilidade, mas não desistimos de trabalhar para isso”, disse. E falou do PSD a toda a hora, implicitamente e sempre sem nomear o adversário (que continua a ser o partido com quem eventualmente teria de se juntar no day after).