Foi no Twitter que Luaty Beirão decidiu reagir às notícias que ligam João Lourenço ao escândalo da dívida oculta de Moçambique. De acordo com uma auditoria da consultora EXX Africa, Angola pode enfrentar riscos reputacionais por o Ministério da Defesa angolano, chefiado pelo agora presidente de Angola, ter feito um negócio de 495 milhões de euros com as empresas envolvidas na dívida oculta em Moçambique. Na primeira reação, o ativista e rapper luso-angolano lamentou que a falta de transparência continue. Enquanto assim for, “manter-se-à nebulosa a aura de quem pretende ser promotor de transformações significativas. O espaço para a fé começa a tornar-se exíguo”, escreveu nas redes sociais.

A aparente desilusão de Luaty Beirão está relacionada com o facto de ter visto com bons olhos o início de mandato do sucessor de José Eduardo dos Santos. Numa entrevista à TSF, o músico reagiu à exoneração de Isabel dos Santos com entusiasmo. “Estou surpreendido. As medidas, para já, são populares, podiam ser consideradas populistas, mas não são”, afirmou, numa análise precoce às primeiras atitudes de João Lourenço como Presidente.

No entanto, já nessa altura o ativista, que foi um dos principais críticos de José Eduardo dos Santos e esteve detido sob o seu mandato por rebelião, tinha deixado no ar a possibilidade de nem tudo vir a ser um mar de rosas com o seu sucessor. “O que é que vem a seguir? Estas coisas só vamos saber com tempo, mas devemos-lhe o benefício da dúvida“, acrescentou.

Este exercício de observação atenta do novo Presidente permitiu pôr de lado alguns receios e teve o seu auge no encontro que ocorreu entre ambos em dezembro passado. Numa espécie de operação de charme, o Chefe de Estado de Angola decidiu ouvir a sociedade civil. Entre as figuras que escutou estavam vários ativistas, como Luaty Beirão ou Rafael Marques. Agora, com a possibilidade de o Ministério da Defesa estar comprometido com o escândalo da dívida oculta moçambicana, o estado de graça de João Lourenço parece estar a acabar e o ativista fez questão de espelhar essa desilusão.

Também no Twitter, e instantes depois de terem sido publicadas as primeiras notícias relativas ao caso, Luaty Beirão não deixou passar em claro a coincidência de, na mesma semana em que rebentou a polémica, a consultora EXX Africa ter colocado Angola numa lista dos 5 melhores países africanos para investir.

“Há indicações cada vez maiores de envolvimento de líderes políticos angolanos no escândalo moçambicano que ainda não foram totalmente divulgadas”, escreveu a consultora EXX Africa num Relatório Especial sobre a ligação entre a empresa Privinvest e o Governo de Angola. Até ao momento, nem o o executivo angolano nem o próprio João Lourenço reagiram à polémica.