Benfica

Quem é Francisco Ferreira, ou Ferro, o primeiro estreante do Benfica de Bruno Lage?

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Francisco Ferreira estreou-se esta quarta-feira pelo Benfica e logo no dérbi eterno. Da origem do nome, passando por Chiellini e acabando no Seixal, o perfil do central e primeiro estreante de Lage.

Ferro substituiu o lesionado Jardel ainda antes do intervalo, fazendo dupla com o antigo companheiro da formação Rúben Dias

Gustavo Bom / Global Imagens

O dérbi eterno desta quarta-feira não teve na vitória do Benfica o único ponto marcante do jogo. Para além dos minutos em que a bola entrou, houve outro importante e que também está relacionado com uma entrada. Ao minuto 37, Jardel, capitão dos encarnados, teve de sair devido a lesão muscular. Na linha lateral, pronto para substituí-lo, poderia estar um futuro capitão: Francisco Ferreira, ou Ferro, como é conhecido, estreou-se com a camisola do Benfica na equipa principal.

O percurso já vai longo, mas devagar se vai ao longe. Ferro não é um menino com 18 ou 19 anos, como é o caso de João Félix. Faz 22 anos daqui a quase um mês, o que lhe dá uma maturidade e segurança que muitos dos recém promovidos a uma equipa sénior não têm. Maturidade essa que foi sendo construída em algumas etapas, mas sempre com o mesmo foco: chegar ao Benfica.

Tudo começou em 2005, quando ingressou nas escolinhas da Oliveirense, clube da sua terra natal, Oliveira do Azeméis. E logo aí, na sua primeira experiência, o pequeno “Kiko” mostrava ser diferente dos demais. Tanto que apareceu logo o Benfica, que fez questão de garantir que o jogador não fugia. E não fugiu, mas… também não seguiu para Lisboa: por ser muito novo e não poder ficar afastado dos pais, foi cedido a dois clubes da zona através de um protocolo.

Primeiro esteve no Estarreja. Depois foi mais para sul e chegou ao Taboeira. Na estreia, venceu o Beira-Mar, onde jogava Buta, futuro colega de equipa, por… 8-1. Era o início de uma bonita e curta história, naquele que foi o último clube de Ferro antes de rumar, em definitivo, a Lisboa. Situada na pequena freguesia da Esgueira, em Aveiro, a Tabueira é conhecida por dar espaço ao Estádio Muncipal de Aveiro. Um local dado ao futebol e que Ferro não esquece: quem por lá ficou diz que Francisco (re)visita a zona sempre que pode, tendo sido até padrinho de um dos torneios de futebol infantil realizado pelo clube.

Ferro (primeiro a contar da esquerda), na altura “Kiko”, alinhado com a sua equipa antes da partida frente ao SC Beira-Mar. Foi o primeiro jogo com a camisola do Taboeira, que venceu por… 8-1

O sentimento é recíproco por quem viu “Kiko” crescer. Sérgio Ferreira foi seu treinador nos iniciados do Taboeira, mesmo antes de o defesa seguir para o Seixal. De tudo o que relembra dele, não tem dúvidas sobre o que mais importa: a personalidade de Francisco. “Em termos humanos, o ‘Kiko’ é fantástico. É um jovem muito trabalhador e com uma humildade incrível, muito também pelos pais fantásticos que tem, que foram importantíssimos. Não esqueceu quem ficou por cá. Ainda hoje fala com muita frequência com amigos da altura que conheceu há anos”.

Ferro, com o número 64 e assinalado a azul, com a equipa que venceu o Campeonato Distrital de Infantis. Sempre com André ao seu lado, o número 3

Os amigos confirmam, pelo menos um deles: André Gonçalves jogou com Ferro no Taboeira. A amizade cresceu muito facilmente, mantendo-se até aos dias de hoje. Os caminhos profissionais acabaram por divergir, mas das festas de aniversário em crianças até às SMS regulares nos dias de hoje, André reforça novamente a atitude do amigo: “Quando ele chegou já era do Benfica e podia ser mais arrogante ou sentir-se superior por causa disso. Mas nunca aconteceu, pelo contrário. Era sempre dos primeiros a chegar aos treinos e começava logo a treinar. E até tinha a agravante de vir todos os dias de Oliveira de Azeméis!”, contou-nos.

Enquanto jogou no Taboeira, Ferro fez este percurso duas vezes por dia: de casa para os treinos

As qualidades não se ficavam pelo lado humano de Francisco. A qualidade técnica, obviamente, foi importantíssima. E apesar de ter estado lá sempre, teve de ser muito bem trabalhada, diz Sérgio: “Era uma das maiores dificuldades dele na altura. O ‘Kiko’ não era um jogador super evoluído, mas ele tinha essa noção. A diferença é que tinha mais vontade do que os outros, mais foco, trabalhava mais”.

Foi mesmo esse trabalho que acabou por rebatizá-lo. No Taboeira, Francisco não era o único “Kiko”. Partilhava o nome com Kiko Rodrigues, atual jogador do Estoril, emprestado pelo Vitória Sport Clube. Na altura da mudança, olhou-se para a sua determinação: “Ele passava imenso tempo no ginásio. Como se costuma dizer em calão, ‘puxava muito ferro’, e foi essa capacidade de trabalho que deu origem ao nome”.

Uma dedicação que teve sempre uma meta muito bem definida. “Ele sempre foi do Benfica, tinha uma paixão muito grande pelo clube. O sonho dele era chegar à equipa principal e acho que agora, mais do que pensar no próximo salto, é aproveitar tudo isto”, diz o amigo André. Aproveitar algo que, segundo Sérgio, o treinador, já estava planeado há muito tempo: “Ele ser capitão no Benfica seria uma situação mais do que normal. Mais do que normal. As caraterísticas e a paixão dele pelo clube são inatas a isso. Eles pensaram sempre nele para ser um patrão”.

Com Bruno Lage, Ferro conseguiu realizar o sonho de criança de se estrear pelos séniores do SL Benfica

Um patrão à semelhança de dois que por aí já andam. Para Sérgio, Ferro é como Chiellini, capitão da Juventus: um líder inato, amigo, com muita segurança e agressividade. Ainda mais depois de ter colmatado algumas lacunas técnicas no Benfica, sendo atualmente “acima da média na precisão do passe longo, na antecipação e no jogo aéreo”. Já André vê semelhanças com Hummels, do Bayern de Munique: “Ele tem uma qualidade técnica muito apurada. Tem visão, sabe ler o jogo e sair com bola controlada muito bem. É muito forte no jogo aéreo e acho que há poucos centrais em Portugal que aliem tão bem este equilíbrio entre força e técnica”.

Por enquanto Ferro manter-se-á no plantel principal das “águias”. Foi um de quatro jogadores promovidos à equipa sénior depois do mercado de inverno. Com 21 jogos já disputados esta época entre Benfica, Benfica B e seleções das camadas mais novas, o jovem natural de Oliveira de Azeméis vive agora a realização de um sonho, mas, como disse hoje o seu agente à comunicação social, com muita cautela e trabalho.

Ferro: o primeiro de Lage, mais um do Seixal

Com a estreia de Ferro na equipa principal do Benfica, os encarnados promovem mais uma estreia na equipa sénior de um jogador proveniente da formação. O desenvolvimento da Caixa Futebol Campus tem sido uma das prioridades do clube da Luz nos últimos anos e os resultados estão à vista: com a estreia de Ferro, já se estrearam na equipa sénior dos encarnados, só este ano, cinco jogadores. São eles Gedson Fernandes, João Félix, Jota, Alfa Semedo – que entretanto foi emprestado – e agora Ferro, o primeiro “menino” da formação lançado por Bruno Lage.

Ferro e Rúben Dias poderão formar uma dupla de centrais totalmente made in Seixal

Desta forma, e apenas nesta temporada, o Benfica já alinhou na equipa principal com sete jogadores formados no Seixal. Aos cinco mencionados anteriormente juntam-se Rúben Dias e Yuri Ribeiro. São já, no total desta temporada, 8.136 minutos jogados por futebolistas da formação, o que equivale a cerca de 18 jogos realizados por cada um. Se compararmos com os dois principais rivais, o Sporting e o FC Porto, já são notórias as diferenças.

Os leões também já alinharam com sete jogadores provenientes da Academia – Tiago Ilori, Miguel Luís, Nani, Jovane Cabral, Bruno Paz, Pedro Marques e Thierry Correia – e até já estrearam quatro jogadores na equipa sénior (Miguel Luís, Bruno Paz, Pedro Marques e Thierry Correia), mas os números de utilização são mais baixos. No total, os jogadores da formação estiveram em campo durante 4.048 minutos, uma média de seis jogos por cada jogador. Do lado do FC Porto, o registo é ainda mais baixo: dos cinco jogadores de formação que jogaram este ano pela equipa sénior – Diogo Leite, Sérgio Oliveira, Bruno Costa, Chidozie e André Pereira –, apenas um se estreou na presente temporada, o primeiro. Para além disso, o número de minutos é mais baixo: 2.382, com uma média de jogos por cada um a ser de cinco partidas.

A aposta com sucesso na formação é, de resto, visível também nos resultados desportivos: na equipa B, os encarnados ocupam a terceira posição com 35 pontos, apenas atrás de P. Ferreira e Famalicão, nesta fase os grandes candidatos à subida; nos Sub-23, asseguraram passagem à fase seguinte da Liga Revelação, prova em ano de estreia no calendário nacional que está a justificar a sua criação; nos juniores (Sub-19), garantiram a passagem à fase final com 21 pontos de avanço em relação ao Sporting na Zona Sul; nos juvenis (Sub-17), lideram a Série Sul da segunda fase do Nacional, que apura os conjuntos para a fase final; nos iniciados (Sub-15), estão no segundo lugar da Série Sul que vai apurar também para a fase final.

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