Sem grande surpresa, Bloco de Esquerda e PCP anunciaram esta sexta-feira que vão votar contra a moção de censura ao Governo apresentada pelo CDS. Com poucas horas de vida, o documento dos centristas já tem chumbo garantido. Os líderes parlamentares do BE e dos PCP usaram os mesmos argumentos para justificar o voto contra: esta moção trata-se de uma jogada política para disputar o eleitorado de direita.

Não foi uma declaração conjunta dos dois partidos mas podia ter sido. As razões para não apoiarem a iniciativa do CDS são as mesmas. O líder da bancada comunista foi o primeiro a reagir no Parlamento. João Oliveira falou numa “encenação” e não encontra razão nos argumentos utilizados esta tarde por Assunção Cristas para justificar a apresentação de uma moção de censura. “É uma iniciativa que não pode ser levada a sério”, disse. “Há certamente opções do Governo e do PS que são merecedoras de crítica e de censura, que são as opções de convergência com o PSD e com o CDS. Essas opções sim deviam ser censuradas. Mas não é a isso que se destina a moção de censura do CDS e, por isso, o PCP votará contra“, explicou.

Embora reconheça que existem motivos para criticar o Governo, João Oliveira entende que, “com eleições legislativas marcadas para 6 de outubro” e com os motivos apresentados, a iniciativa não merece consideração. E lembra ainda que foram “PSD e CDS que deram a mão ao Governo” em casos como o da intervenção no Banif, na legislação laboral ou, ainda sexta-feira, no chumbo do “fim das propinas no ensino superior”.

Os exemplos utilizados pelo deputado comunista voltariam a ser ouvidos nos Passos Perdidos do Parlamento mas pela voz de Pedro Filipe Soares, que reagiu em nome do Bloco de Esquerda menos de um minuto depois de João Oliveira. “Percebemos que esta moção de censura tem mais a ver com o estado da direita do que com a realidade do país. O CDS utiliza a moção de censura para a campanha eleitoral. Não nos merece qualquer tipo de acompanhamento”, justificou o líder da bancada bloquista. “Sem surpresa, votaremos contra”, anunciou.

Pedro Filipe Soares apontou ainda uma “grande confusão de ideias” nos argumentos apresentados na tarde desta sexta-feira por Assunção Cristas.

PS ao ataque. “Esta moção de censura é um déjà vu”

O presidente do PS reagiu mais tarde e, em declarações aos jornalistas, trouxe para o debate fortes críticas ao CDS. “Esta moção de censura é um déjà vu nos trabalhos parlamentares. O CDS não diz nada que já não tenha dito e não está a fazer nada que já não tenha feito”, entende Carlos César. Salientou o facto de tanto o PCP como o Bloco de Esquerda já terem anunciado o voto contra e de, por esse motivo, “esta moção, praticamente antes de nascer, já não contar para o trabalho político”.

O PS vê nesta intenção centrista os mesmos objetivos identificados minutos antes quer pelo Bloco de Esquerda quer pelo PCP. “O CDS parece ter uma única preocupação: que é a de disputar as próximas eleições em condições privilegiadas face aos restantes partidos da direita”, considerou o presidente do partido. “Esta iniciativa não olha de frente o país, olha para o lado, para o PSD, já que procura sobretudo embaraçar o PSD e barrar caminho a outros partidos considerados emergentes como o Chega ou o Aliança”.

Mas o líder da bancada socialista não deixou escapar a oportunidade para atacar fortemente o CDS. “Na verdade, o CDS tem sido um partido que ao longo deste último período se tem radicalizado de forma muito impressiva. É hoje um partido mais extremista, que se exclui do diálogo político”, catalogou Carlos César.

O socialista recordou ainda que o partido de Assunção Cristas não devia utilizar o argumento das greves como arma de arremesso. É que para o líder parlamentar do PS existe uma grande diferença entre as paralisações atuais e as que ocorreram no governo anterior, de que o CDS fazia parte: “No tempo do CDS e do PSD tínhamos greves porque tiravam tudo aos portugueses, mas hoje em dia temos greves porque ainda não melhorámos tudo quanto alguns setores profissionais acham que é possível melhorar.

PSD responde por escrito e não revela como vai votar

O PSD optou por reagir à moção de censura ao Governo apresentada pelo CDS por escrito. Através de uma curta declaração assinada pelo líder parlamentar dos sociais-democratas, Fernando Negrão, o partido respondeu de forma contida ao desafio lançado por Assunção Cristas. No texto, o PSD nada diz sobre qual será o seu sentido. Mas deixa uma garantia: “participará no debate e continuará a denunciar a má governação de que o país e os portugueses têm sido vítimas”. De que forma? Negrão também não esclarece.

O líder da bancada laranja diz que “existem muitos motivos para criticar o governo. Os que foram anunciados e muitos outros. Este governo está a desfazer os serviços públicos, pondo em causa a coesão social”, entende.

Fernando Negrão escreve ainda que o PSD não faltará à chamada e garante que vai participar no debate colocando-se ao lado dos que criticam o Governo. Isto, apesar do timing – “a meses de eleições”, lembra – desta iniciativa do CDS. A incógnita sobre o sentido de voto do PSD mantém-se mesmo depois da primeira reação oficial.

O CDS anunciou esta sexta-feira que vai apresentar uma moção de censura ao Governo do PS. Os centristas justificam a decisão com a degradação dos serviços públicos, designadamente do SNS, e denunciam “uma deriva ideológica de esquerda”. “O ilusionismo socialista chegou ao fim”, resumiu Assunção Cristas. Na conferência de imprensa em que apresentou os motivos para levar avante a segunda moção de censura desta legislatura, a líder do CDS lembrou ainda o elevado número de greves e acusou António Costa de ter colocado “o partido à frente do país”.