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Literatura

Presidente da CPLP defende livre circulação entre países de língua portuguesa

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Jorge Carlos Fonseca esteve no Correntes d'Escritas para falar da importância da língua, "capaz de ultrapassar utopias, barreiras políticas, guerras". E apelou à livre circulação entre países da CPLP.

Jorge Carlos Fonseca é presidente de Cabo Verde e da CPLP. É também escritor e jurista

ESTELA SILVA/LUSA

Jorge Carlos Fonseca, presidente de Cabo Verde, que desde o ano passado presidente também à Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), defendeu a livre circulação entre os estados-membros, “uma necessidade” que classificou como “premente” e urgente. “Faz viver, fortifica, impulsiona e cria ideias. “Para a presidência desta comunidade, que Cabo Verde assumiu no ano passado, o principal desiderato é estimular, desenvolver e dar execução a esta mobilidade. É esta a nossa grande ambição”, afirmou o governante cabo-verdiano.

De acordo com o presidente cabo-verdiano, esta mobilidade entre países de língua portuguesa pode ser defendida através de “números”, “pois daria maior escala aos nossos países e alargaria os nossos mercados”, criando uma “sinergia e complementaridade entre as nossas sociedades”. “São razões fortes e válidas, mas neste espaço emblemático que são estas Correntes d’Escritas”, Jorge Carlos Fonseca preferiu apontar outras razões, “motivações ainda mais profundas, mais sentidas e mais verdadeiras: a nossa história comum, que gerou fortes traços culturais comuns”, como a língua, a religião ou os costumes. “São estes fatores que geram a nossa comunidade de afetos, de pessoas”, frisou.

Jorge Carlos Fonseca admite que existem “receios”. “Nesse mundo um pouco conturbado, é normal que nos sintamos mais seguros na nossa casa, com trancas a porta, espreitando pelas frinchas o visitante que nos bate à porta. A nossa casa e o nosso refugio.” Mas “uma comunidade” é um lugar onde o espaço “é partilhado e os muros abatidos”. Por essa razão, “os visitantes quando não são residentes não precisam de uma autorização especial para franquear a porta”. É essa a convicção da presidência da CPLP.

Nesse sentido, será apresentado até ao final deste trimestre “um estudo em matéria de mobilidade” para que se conheça “em detalhe de onde estamos a partir e que caminho efetivo já foi percorrido, identificando os constrangimentos”, revelou Jorge Carlos Fonseca ao início da tarde desta terça-feira. Depois disso, surgirá, até ao final de julho, “uma primeira proposta” do que o presidente descreveu como um “modelo de integração comunitária” e “uma linha de tempo da sua incorporação pelos estados-membros [da CPLP] permitindo o progresso progressivo de adesão de escolhas diferenciadas de níveis de segmentos”.

A presidência da comunidade de língua portuguesa espera que este modelo possa ser aprovado até ao primeiro trimestre de 2020, “permitindo aos estados depois manifestarem a sua adesão aos diferentes níveis, com um calendário combatível com as especificidades de cada um”. Deverá também ser por essa atura que os diferentes estados deverão aderir “ao menos aos primeiros níveis de integração comunitária”, explicou Jorge Carlos Fonseca, admitindo estar ciente das dificuldades técnicas e pedindo, para isso, a colaboração de todos.

A língua portuguesa “é a nossa geografia de sentimentos e emoções”

Jorge Carlos Fonseca estava no liceu quando visitou a Póvoa de Varzim pela primeira vez, há mais de 50 anos. Dessa viagem, ficaram-lhe na memória o nome do treinador e do guarda-redes cabo-verdiano do Varzim, então na primeira divisão. Talvez seja estranho que um homem que no mundo das letras se tem dedicado sobretudo à poesia tenha decorado os nomes dos jogadores de um pequeno clube regional, mas a verdade é que foi através do futebol que o atual presidente de Cabo Verde entrou na língua portuguesa. Quando tinha nove ou dez anos, a leitura favorita de Jorge Carlos Fonseca não era Eça de Queiroz, Machado de Assis ou Baltasar Lopes da Silva, mas o jornal A Bola, que lhe chegava muitas vezes com meses de atraso e onde devorava as crónicas de Vitor Santos ou Alfredo Farinha.

Só depois é que veio o resto. As revistas literárias “que fizeram história entre nós”, os primeiros poemas, romances, clássicos portugueses, brasileiros e também estrangeiros, que surgiram graças aos “empenhados decifradores de estados de alma que são os tradutores”. Os autores podiam variar, mas havia uma coisa que era transversal a todos eles — a língua em que chegavam mãos do presidente Jorge Carlos Fonseca e que esta terça-feira serviu de tema à conferência que apresentou no Correntes d’Escritas, intitulada “As Letras da Língua e a Mobilidade dos Criadores na CPLP”. Uma língua que é a quinta mais falada no mundo e que serve de ponto entre continentes, gentes e culturas, como o próprio governante apontou.

O português, um tema que Jorge Carlos Fonseca admitiu ser-lhe muito caro, sobretudo no exercício das suas funções como presidente de Cabo Verde, tem um “legado histórico cultural com mais de 800 anos capaz de ultrapassar utopias, barreiras políticas, guerras”. É através dele “que expressamos toda a nossa condição humana, compreendemos o passado e planeamos o futuro”, mas não só. “Nos nossos países africanos, onde a língua portuguesa vem coexistindo ao lado de outras línguas nacionais, ela vem funcionando como janela para outros mundos, que por sua vez nos vão absorvendo, entrando em nos, acabando por ser parte de nos, do nosso tecido intelectual”, afirmou o governante cabo-verdiano.

“[É] uma língua que, a partir do século XII, veio descendo dessas terras da Galiza, a norte da Póvoa, (…) autonomizando-se”. Depois dessa viagem, foi capaz de chegar ainda mais longe — “ate nós, moldando-nos e fazendo de nós inquilinos desta casa multissecular, [dessa] riquíssima literatura com sabor a mar, desertos, ilhas e planaltos, com uma variedade de sotaques e léxicos, com moradores ilustres como Camões, Machado de Assis, Mia Couto”, entre outros, afirmou o presidente cabo-verdiano, que apresentou depois da conferência de abertura o seu mais recente livro, A Sedutora Tinta das Minhas Noutes. “Esta é a nossa geografia de sentimentos e emoções.”

O Observador viajou até à Póvoa de Varzim a convite do Correntes d’Escritas

Artigo atualizado às 17h56

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