Enviado especial ao Vaticano

A reunião de líderes católicos que decorre esta semana no Vaticano para debater a responsabilidade da Igreja nos abusos sexuais de menores arrancou esta quinta-feira com os 190 bispos e superiores religiosos a ouvirem cinco testemunhos de vítimas. As vítimas, oriundas de vários pontos do mundo, gravaram os testemunhos com antecedência e as suas identidades foram mantidas em segredo pelo Vaticano, que, ainda assim, divulgou o conteúdo.

“O que ia achar Maria dos pastores que traem as suas pequenas ovelhas?”

O homem chileno a quem a Igreja chamou mentiroso

Uma das vítimas que o Papa Francisco e os líderes católicos de todo o mundo ouviram foi um homem chileno — país onde o problema dos abusos sexuais na Igreja tem sido mais acentuado —, que lembrou a reação da estrutura da Igreja Católica quando falou pela primeira vez dos abusos que tinha sofrido. “A primeira coisa que pensei foi: vou contar tudo à Santa Mãe Igreja, onde eles me vão ouvir e respeitar. Mas a primeira coisa que eles fizeram foi tratar-me como um mentiroso, viraram-me as costas e disseram-me que eu e outros éramos inimigos da Igreja”, disse o homem.

Dirigindo-se diretamente aos participantes da reunião, o homem, que se assume como católico, disse que “o falso perdão não funciona”. “Tem de se acreditar nas vítimas, elas têm de ser respeitadas, cuidadas e curadas. Têm de reparar o que foi feito às vítimas, de estar perto delas, acreditar nelas e acompanhá-las. São os físicos da alma e, ainda assim, em alguns casos, transformaram-se em assassinos da alma e da fé”, acusou a vítima.

“Que contradição terrível. Pergunto-me: o que ia achar Jesus? O que iria achar Maria quando visse que são os seus próprios pastores que traem as suas pequenas ovelhas? Peço-lhes, por favor colaborem com a justiça”, disse ainda.

“De cada vez que recusava ter sexo com ele, ele batia-me. Não queria usar preservativos ou contracetivos”

A mulher que teve 13 anos de relação, três gravidezes e três abortos

A segunda vítima ouvida foi uma mulher africana, cujo país não foi identificado, e que contou ao Papa e aos bispos como tinha 15 anos quando teve sexo pela primeira vez com um padre, numa relação que viria a durar 13 anos. “Engravidei três vezes e ele obrigou-me a abortar três vezes, simplesmente porque ele não queria usar preservativos ou contracetivos”, recordou a mulher. “De início, confiei tanto nele que não sabia que ele podia abusar de mim. Tinha medo dele, e de cada vez que recusava ter sexo com ele, ele batia-me”, continuou a mulher.

“Como eu dependia completamente dele em termos económicos, sofria as humilhações que ele me fazia passar. Tínhamos relações tanto na casa dele, na aldeia, como no centro diocesano. Eu não tinha direito a ter namorados. Sempre que tinha um namorado e ele descobria, batia-me. Era a condição para me ajudar economicamente. Dava-me tudo o que eu queria quando eu aceitava ter sexo”, testemunhou. Hoje, continuou, tem a “vida destruída”. “Sofri tantas humilhações nesta relação que não sei o que é que o futuro me reserva.”

“Passaram oito anos e ele [o bispo] ainda não me respondeu”

O padre da Europa de Leste abusado na adolescência

Os participantes da reunião escutaram ainda o testemunho de um padre da Europa de leste, cujo país de origem também não foi identificado, e que celebra este ano o 25.º ano da sua ordenação sacerdotal. “Estou grato a Deus. O que me magoou? Um encontro com um padre magoou-me. Quando era adolescente, depois da minha conversão, foi ter com o padre para ele me ajudar a ler as escrituras, e ele tocou-me nas partes privadas. Passei uma noite na cama dele. Isto magoou-me profundamente”, disse o padre.

“A outra coisa que me magoou foi o bispo a quem muitos anos mais tarde, enquanto adulto, contei o que tinha acontecido. Fui ter com ele juntamente com o meu provincial”, lembrou o sacerdote, que escreveu uma carta ao bispo à qual nunca teve uma resposta. O encontro que teve com aquele bispo serviu apenas para este o atacar. “Passaram oito anos e ele ainda não me respondeu.”

“Ainda há dor nas relações da minha família. Ainda há dor nos meus irmãos. Eu ainda carrego dor”

O americano que perdeu “a inocência e a juventude”

A quarta vítima cujo testemunho foi escutado pelos líderes da Igreja Católica foi um homem americano que falou da sua “total perda da inocência da juventude”. “Ainda há dor nas relações da minha família. Ainda há dor nos meus irmãos. Eu ainda carrego dor. Os meus pais carregam a dor da disfunção, da traição, da manipulação que este homem mau, que era o nosso padre católico da altura, trouxe sobre a minha família e sobre mim próprio”, disse o homem.

“Estou melhor agora porque encontrei a esperança ao contar a minha história”, conclui.

“Fui molestado sexualmente durante muito tempo, mais de cem vezes”

O asiático que fala de uma bomba-relógio na Igreja da Ásia

Um homem natural de um país asiático foi o último testemunho apresentado na reunião. “Fui molestado sexualmente durante muito tempo, mais de cem vezes, e em toda a minha vida. É difícil viver a vida, é difícil estar com pessoas, ligar-me às pessoas”, disse o homem, que não detalhou a sua experiência, mas garantiu que o problema dos abusos sexuais é “uma das bombas-relógio a acontecer na Igreja na Ásia”.

A inédita reunião dos presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, juntamente com uma série de outros líderes de estruturas da Igreja Católica, decorre até ao próximo domingo e foi convocada pelo Papa Francisco para debater a responsabilidade da Igreja na proteção das crianças e jovens, após um ano particularmente difícil para a Igreja com a divulgação de novos escândalos nos Estados Unidos e no Chile.