A Galiza está a contratar médicos de família e pediatras portugueses de forma a reforçar o Sistema Galego de Saúde (Sergas). A notícia, divulgada na edição desta quinta-feira pelo Jornal de Notícias, adianta que o salário oferecido aos profissionais de saúde vai corresponder a mais do dobro do que é oferecido a um médico em início de carreiro em Portugal. Em números, está em causa uma retribuição anual de 61 500 euros em contraste com os 28 mil euros atribuídos em Portugal.

Esta é uma decisão que está a preocupar a Ordem dos Médicos, uma vez que a emigração de médicos para Espanha pode contribuir para atrasar ainda mais o processo de redução do número de utentes sem médico de família. O anúncio já começou a atrair a atenção dos profissionais da área em Portugal e fonte do Sergas adiantou ao JN que a iniciativa não se vai ficar por Portugal e que “o Governo Galego pretende abrir portas a profissionais de saúde de outras comunidades autónomas de Espanha e de Portugal”.

Quanto aos contratos, o que já se sabe é que o Sergas pretende realizar contratos de um a três anos no máximo e que os médicos de família e pediatras contratados vão ter exatamente as mesmas condições que os médicos espanhóis, desde o salário, ao direito a um mês de férias, folgas e jornada laboral. O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, considera que este recrutamento pode ser uma ameaça ao Serviço Nacional de Saúde, contribuindo para agravar “a capacidade de responder a todos os portugueses”. Além do contraste da oferta salarial e das férias, está em causa também o apoio tecnológico e acesso a dispositivos e materiais.

Do lado dos pediatras esta também é uma notícia que preocupa: o presidente do Colégio de Especialidade de Pediatria, Jorge Almim, diz ao JN que esta situação irá fomentar um cenário de “sangria contínua” dos serviços públicos devido à insatisfação dos pediatras portugueses. Dados recentes mostram que em 10% das unidades de saúde, há mais de 30% de utentes sem médico de família atribuído. São cerca de 686 mil portugueses, sendo que 24 898 não têm médico atribuído por opção, de acordo com os dados de janeiro da Comissão de Reforma dos Cuidados de Saúde Primários revelados pelo Jornal de Notícias.