When I Get Home é uma espécie de reality-show de Solange Knowles. Calma, nada de gratuito ou produto de televisão rasca. Assim uma versão mais sofisticada da coisa. Ao quarto disco, a cantora de 32 anos apresenta esta capacidade de viajar pelo espaço e o tempo daquilo que são as suas influências e pela história da canção negra norte-americana até aqui. Faz tudo isto rodeada de alguns dos nomes mais interessantes da produção do hip hop atual e cria estes registos de uma neo-soul cheia de ambientes eletrónicos e com uma sonoridade tão eficaz que parece ser feita em casa entre amigos e harmonia. Mas não pode ser assim tão fácil, por isso When I Get Home tende a apelar a um certo voyeurismo do “como é que ela chegou aqui, mesmo?”.

[“Almeda”:]

https://www.youtube.com/watch?v=hAyxEMo5JVE

Este é um trabalho com algumas missões a cumprir. Surge num momento em que Knowles se debate com um diagnóstico de disfunção no sistema nervoso autónomo que, segundo a própria, trouxe uma vertente incrivelmente física à sua criação. Sucede também ao amplamente elogiado A Seat at the Table, que não sendo o seu primeiro registo, acaba por contar como a sua obra-revelação. Foi considerado por muitos como um dos melhores álbuns de 2016 e continua a ser uma explosão de comentário social embrulhado em afirmação artística. Uma declaração de intenções e ideias que, entre muitas outras coisas, certamente iria fazer do seu sucessor algo mais do que “o novo da irmã de Beyoncé”.

Afastada que está então essa redundância, chega-nos When I Get Home e a confirmação que muito do que de bom havia a dizer sobre o registo anterior não foi por acaso e que esta criatividade não vai ficar por aqui. E se A Seat At The Table era mais linear e vocal na sua mensagem, o seu sucessor é uma carta de amor às raízes de Solange mais contida, feita de maiores subtilezas e ambientes mais calmos. Conta com contribuições de nomes como Earl Sweatshirt, Tyler the Creator, Panda Bear ou Scarface e nenhum deles sobressai particularmente porque todos acabam por servir a atmosfera de um registo que tem esta capacidade de fluir como um único tema de 39 minutos.

[“Way to the Show”:]

https://www.youtube.com/watch?v=TdNAGzzK8vg

Uma tendência que é bem notada no momento alto que é “Almeda”, em que Playboi Carti, responsável por um dos melhores momentos do trap de 2018 com “Die Lit”, aqui acaba por surgir numa versão algo desconstruída de si mesmo. A busca de Solange nunca parece ser pelo single orelhudo ou a grande exaltação pop esporádica. O interesse passa mais por uma quase obsessão pelos instrumentais que servem o ambiente do que nos quer cantar. E se isso resulta, em grande parte do tempo, num incrível exercício de bom gosto ao qual se pode sempre voltar, também pode acabar em momentos mais monocórdicos e fáceis de ignorar como “Time (is)”.

É na imagem de uma sala pequena e cheia de amigos e momentos de fragilidade que When I Get Home mais brilha. Está cheio de momentos cantados em repetição, quase em forma de pequenos mantras sempre com Houston em pano de fundo. Como se Solange quisesse sempre voltar a um tempo mais simples mas sem saudosismos patetas. Em “Sound of Rain” há um momento maravilhoso em que tudo se transforma em harmonioso jam onde nos canta ‘swangin’ on them days’. “My Skin My Logo” é um incrível bate-bola de admiração mútua de quem já passou por muito com Gucci Mane (‘Gucci, he go hard in the paint’). Em “Dreams”, com produção do já mencionado Earl Sweatshirt, temos a reflexão de crescer com sonhos e no que eles acabam por se transformar. E em “Down With The Clique”, que poderá ser o ponto alto aqui, temos essa meditação sobre o passar do tempo na sua forma mais honesta.

[“Down With the Clique”:]

Solange lista Steve Reich, Alice Coltrane, Stevie Wonder e Sun Ra como algumas das influências neste processo. São nomes que ajudam a explicar a quantidade de ecletismo e qualidade inventiva que estas 19 faixas nos dão, num disco que raramente pára de soar a um espaço maravilhoso de expressão e criatividade para todos os envolvidos. Às vezes, quando isso acontece, o produto final acaba por ser uma mescla de ideias sem grande coesão. Pois que aqui não é nada disso. Geralmente, quando o todo funciona mesmo como um todo, assim desta forma, isso é sinal de discaço. Confirma-se.