Dois acidentes, o mesmo modelo de avião, separados por apenas cinco meses. Nos últimos dias, a Boeing tem estado no centro de um debate sobre a segurança de um dos seus modelos de avião mais populares, o 737 MAX 8, depois de um aparelho adquirido pela Ethiopian Airlines se ter despenhado este domingo perto da cidade de Bishoftu, na Etiópia, matando 157 pessoas.

Em outubro do ano passado, o mesmo modelo de avião utilizado pela companhia Lion Air caiu na Indonésia e provocou 189 vítimas mortais. Além do modelo e do facto de serem os dois aviões bastante recentes, há outro ponto em comum: ambos caíram poucos minutos depois da descolagem (12 minutos no primeiro caso e seis no último).

Apesar de ainda não serem conhecidas as causas do acidente deste domingo e de ser ainda cedo para se fazerem comparações com o que aconteceu na Indonésia, as coincidências entre as duas situações chamaram a atenção de passageiros, pilotos, engenheiros, investigadores e as próprias companhias aéreas. Muitas destas decidiram suspender os voos com o Boeing 737 MAX 8.

Sabe-se, até agora, que o comandante do voo estava em dificuldades e quis regressar a Adis Abeba, tendo recebido autorização para o fazer. Terá sido nesse momento que o avião caiu, confirmou o presidente da Ethiopian Airlines, Tewolde Gebremariam, numa conferência de imprensa. O aparelho chegou na manhã de domingo da África do Sul, esteve durante mais de três horas parado no aeroporto e foi autorizado a partir sem nenhuma indicação de falhas técnicas. As causas do acidente só serão conhecidas depois de se analisar a caixa negra do avião, que já foi encontrada.

Os especialistas são prudentes quanto à especulação sobre o que terá falhado naquele momento e rejeitam fazer comparações com o caso anterior, apesar de assumirem as semelhanças. Thomas Anthony, diretor de segurança de aviação da Universidade do Sul da Califórnia, fala numa “combinação de múltiplos fatores” que levaram a um desastre como este. “Nunca é apenas uma só coisa”, explicou ao El País.

Um engenho tão complexo como um avião pode ter inúmeras complicações nas milhares de peças que o compõem, sendo impossível prever sem qualquer pista que tipo de falhas terá tido o aparelho ou se terá sido um erro dos pilotos. Só a caixa negra vai permitir desvendar o que aconteceu no Boeing 737 MAX 8. Mas que avião é este? O que veio trazer o novo modelo em relação aos anteriores? E que problemas já foram detetados no passado?

Um modelo com dois anos de vida

O Boeing 737 foi aos céus pela primeira vez em 1967, tornando-se no avião mais vendido do mundo, tendo já alcançado as 10 mil vendas. Em maio de 2017, e para dar resposta à atualização da concorrente Airbus (a gigante empresa europeia de aviões que lançou o seu popular A320), a Boeing decidiu avançar com o 737 MAX 8, considerado um dos modelos mais avançados de sempre. O primeiro voo com este avião foi feito entre Kuala Lumpur e Singapura. Com ele, prometia-se maior sustentabilidade, eficiência e conforto.

Em menos de dois anos, são mais de 300 aviões deste modelo que estão ao serviço em todo o mundo e 5.000 que estão encomendados e a serem produzidos. Cada Boeing 737 MAX 8 custa 120 milhões de dólares (cerca de 106,19 milhões de euros), tem capacidade para 210 passageiros e um alcance de voo de 6.570 quilómetros. Juntamente com a Airbus, a Boeing é a empresa líder global na produção e venda de aviões.

No seu interior, o avião está também equipado com o Sky Interior, que inclui iluminação LED programável e música ambiente para embarque e desembarque. Também os assentos são ajustáveis e mais confortáveis para os clientes. Na parte superior do avião, os compartimentos das bagagens giram para cima, permitindo realçar a amplitude da cabine e oferecendo espaço para guardar os passageiros poderem guardar a bagagem de mão mais perto de si.

Além disso, há também altifalantes integrados nas cadeiras dos passageiros em cada fila, para permitir um maior entendimento dos anúncios que são feitos pela tripulação, bem como a colocação de novas saídas de ar seladas para aumentar a segurança.

O motor LEAP-1B

Quando o Boeing 737 MAX surgiu, uma das maiores diferenças que foram detetadas em relação ao simples 737 foram os motores maiores e mais silenciosos. É a partir do motor LEAP-1B da CFM International que o 737 MAX, incluindo o MAX 8, permite economizar combustível e reduzir as emissões de Co2 até menos 350 toneladas face a versões anteriores. Esta redução pode chegar aos 13% quando comparado com outros aviões de corredor único que atualmente sobrevoam os céus.

Com uma maior eficiência em termos de combustível, o modelo do avião prometeu poupar mais de 289 milhões de euros por ano, além de oferecer um maior conforto dos próprios passageiros, uma vez que possui uma cobertura de motor serrilhada que tem como objetivo reduzir o ruído produzido pelo avião, incluindo na descolagem e na aterragem. Segundo a Boeing, o novo motor permitiu reduzir até 40% a pegada de ruído.

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Além do motor, a empresa refere ainda que “as atualizações recentes no design da aeronave, inclusive o winglet [uma projeção vertical na ponta de uma asa de avião] desenvolvido com moderna tecnologia”, reduzem o arrasto e realçam “ainda mais o desempenho do 737 MAX, principalmente em rotas de longa distância”.

A empresa atualizou o winglet, uma projeção vertical na ponta de uma asa de avião, uma tecnologia mais moderna para reduzir o arrasto e melhorar o desempenho do avião

O sistema automático para estabilizar o avião

Foi aqui que teve origem a queda do avião da Lion Air na Indonésia. Por outras palavras, quando o Boeing 737 MAX chegou ao mercado, trouxe uma atualização de software do sistema de controlo de voo consigo. Nesta atualização estava o MCAS (Maneuvering Characteristics Augmentation System), um sistema que é ativado de forma automática e aplica um estabilizador horizontal quando a aeronave entra em situação de queda ou perda de sustentação — o termo técnico é estol, em inglês stall. A ativação deste sistema depende dos valores que são enviados pelos sensores do avião.

Só que em 2017, quando o modelo surgiu, havia um problema: a Boeing não informou os pilotos sobre esta nova atualização do sistema, considerando que tudo estava incluído no manual de voo. No caso do avião que se despenhou na Indonésia, o aparelho subia e descia constantemente porque o MCAS tinha recebido leituras incorretas do sensor e os pilotos não estavam a conseguir controlá-lo manualmente. O nariz do avião foi baixando cada vez mais até o aparelho cair no oceano.

Depois deste acidente, tanto a Boeing como as agências regulatórias atualizaram os pilotos sobre este novo sistema, fornecendo mais informação. Os especialistas consideram prematuro associar já o acidente deste domingo ao mesmo que aconteceu na Indonésia, uma vez que hoje os pilotos já sabem lidar com o sistema e dizem manter a confiança neste avião. Mas há quem desconfie, tendo em conta que também este aparelho teve várias oscilações antes de cair.

Há também quem considere que a formação recebida pelos pilotos para lidar com os avanços tecnológicos introduzidos em novos modelos de aviação não é tão longa como deveria ser. “A discussão que agora prolifera é se estas alterações não são demasiado importantes e grandes para cursos de [formação de] duração reduzida. Quem estava a voar com o 737 antigo faz muito menos aulas e há associações que dizem que com estes avanços todos de automatismos e tecnologia deveria aprofundar-se e dar-se mais atenção à formação e instrução”, apontou Jaime Prieto, piloto de linha aérea, ao Observador.

A Boeing e o problema das baterias

Esta não é a primeira vez que a Boeing vê a segurança dos seus aviões colocada em causa. Em 2013, a empresa teve de manter aterrados todos os Boeing 787 Dreamliner (um modelo diferente do 737 MAX) devido a um problema com as baterias, pois estas estavam a queimar a um ritmo superior ao normal. Em janeiro desse ano, chegou a haver um incêndio a bordo de um avião no aeroporto Logan, em Boston, e um problema no voo de um avião do mesmo modelo no Japão.

Como resultado, e até o problema ser identificado e resolvido, a Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) obrigou a Boeing a suspender todos os voos dos 50 aparelhos 787 que estavam em funcionamento. A empresa concordou ainda em pagar o custo de não ter esses aviões em funcionamento, não tendo reportado quedas significativas das vendas. Cerca de quatro meses depois, o Boeing 787 voltou aos céus sem mais problemas.

Este tipo de proibição (em inglês chama-se grounding) ocorre quando um regulador — como a FAA ou a Agência Europeia de Segurança Aérea (EASA) — retira o certificado de aeronavegabilidade de um determinado modelo de avião até que este seja alvo de uma revisão completa e até que sejam resolvidos os problemas técnicos. Foi o que aconteceu em 2013 e o que voltou a acontecer esta terça-feira, quando a EASA anunciou que fechou todo o seu espaço aéreo a voos do Boeing 737 MAX 8.

(Artigo atualizado Às 12h07 com mais informações)