A generalidade dos pilotos que voavam com o anterior modelo 737 da Boeing e começaram a voar com este novo modelo 737 Max 8 — com o qual se registaram dois grandes acidentes em cinco meses, o último este domingo na Etiópia — teve de fazer apenas um “breve curso de diferenças” para se adaptar ao novo modelo da empresa. Quem o refere é o site especializado na indústria da aviação FlightlGlobal, numa longa análise publicada no último mês de janeiro que cita especialistas e pilotos.

Na análise da FlightGlobal é referido que os pilotos das companhias aéreas Southwest Airlines e American Airlines, por exemplo, fizeram os seus cursos de adaptação a este novo modelo “inteiramente online”. “Não há experiência prática de simulação de voos” nas formações destas companhias, constata o artigo. A Southwest Airlines tem mesmo como previsão de data receber o seu primeiro simulador de voo para este modelo apenas em “março do próximo ano”, lê-se, ou seja, em 2020.

Empregados da Boeing em Renton, Washington, com o novo modelo Boeing 737 Max 8 da companhia Southwest Airlines. (@ Stephen Brashear/Getty Images)

Já a Ryanair, uma das companhias aéreas que faz vários voos de e para Portugal, conta por sua vez voar com os primeiros Boeing 737 Max 8 “da sua base no aeroporto de Stansted, em Londres”, já no próximo mês de abril, lê-se. Não se sabe, por ora, se os planos se mantêm. O que se sabe é que os cursos de formação da Ryanair para adaptação dos pilotos que já voavam com o anterior Boeing 737 eram também de curta duração e pouco abrangentes: esse “curso de diferenças” estava planeado como uma formação dada “com base em computadores”.

Estas não foram as primeiras críticas aos cursos de formação e adaptação de pilotos ao novo modelo da Boeing, que começou a ser utilizado mais regularmente em 2018. Após o primeiro grande acidente ocorrido com este modelo de avião, em outubro do ano passado — com uma aeronave semelhante da companhia da Indonésia Lion Air, que caiu e causou 189 mortes –, a APA, associação que representa cerca de 15 mil pilotos norte-americanos, garantiu que o funcionamento do sistema tecnológico MCAS — Maneuvering Characteristics Augmentation System, presente neste modelo e não nos anteriores, não foi explicado aos pilotos que a associação representa “durante o treino ou em quaisquer outros manuais ou materiais”. Este sistema esteve na origem do acidente que aconteceu em outubro.

Mike Michaelis, porta-voz da associação de pilotos norte-americanos, chegou mesmo a afirmar: “É bastante idiota que eles [Boeing] introduzam um sistema e não o expliquem aos pilotos que estão a operar o avião, especialmente quando esse sistema está relacionado com o controlo de voo”.

A Boeing e os fabricantes deste novo modelo da empresa estão agora a avaliar se as causas para o acidente deste domingo foram as mesmas que provocaram um acidente em outubro passado ou se foram outras.

Já na sequência do acidente deste domingo, um outro porta-voz da associação de pilotos norte-americano, Dennis Tajer, corroborou a versão de Mike Michaelis em declarações à canadiana CBC News: “Há um sistema chamado MCAS que não estava nos nossos manuais antes da tragédia da Lion Air. Na altura, a Boeing não optou por divulgar essa informação”. Hoje, apontou, os pilotos já sabem como lidar com o sistema e como reagir aos problemas que ele possa ter. Dennis Tajer sublinhou ainda que é “especulação” traçar paralelismos entre os dois acidentes e disse estar “vigorosamente confiante na segurança” deste modelo de aeronave. “Se não tivéssemos confiança neste avião, não voávamos com ele”, disse ainda.

O mesmo disse um porta-voz da companhia aérea Air Canada, à mesma estação: “Estas aeronaves têm tido desempenhos excelentes em segurança, confiança e perspetiva de satisfação do utilizador”, referiu esta fonte. O fundador do site Aviation Safety Newtwork, que recolhe informações sobre acidentes de aviação em todo o mundo, também se pronunciou. lembrou. Harro Ranter lembrou que, ao contrário do acidente de outubro passado, nesta vez “não se registaram quaisquer defeitos [no avião] antes do voo”, pelo que é “prematuro” fazer comparações.

É preciso preparar melhor os pilotos, diz Jaime Prieto

Este domingo de manhã, um avião da Ethiopian Airlines que transportava 157 pessoas caiu após 6 minutos de voo, quando se deslocava para o Quénia. Não houve sobreviventes. É assim o segundo avião do novo modelo Boeing 737 Max 8 a cair e provocar mais de uma centena de mortos, depois de um modelo semelhante da companhia aérea da Indonésia Lion Air ter caído há cerca de cinco meses provocando a morte de 189 pessoas.

Jaime Prieto, piloto de linha aérea contactado pelo Observador, sublinha que “não há para já garantias que seja o mesmo tipo de acidente” — isto é, que os dois tenham a mesma causa — mas confirma que, não havendo certezas, “as características em que o acidente se dá são em tudo muito semelhantes aos de outubro”.

Jaime Prieto refere ainda que a Ethiopian Airlines “já saberá o que aconteceu” mas “ainda não pode divulgar” — e alerta, também, para a necessidade de se preparar melhor os pilotos para lidar com os avanços tecnológicos introduzidos em novos modelos de aviação.

Este modelo é uma inovação do modelo antigo. Estas inovações baseiam-se muito na estrutura do avião inicial, mas alteram muitos motores e automatismos do avião. A discussão que agora prolifera é se estas alterações não são demasiado importantes e grandes para cursos de [formação de] duração reduzida. Quem estava a voar com o 737 antigo faz muito menos aulas e há associações que dizem que com estes avanços todos de automatismos e tecnologia deveria aprofundar-se e dar-se mais atenção à formação e instrução”, aponta o piloto.

Reiterando desconhecer se este modelo tem sido utilizado em voos a partir de e para Portugal, porque “o avião é muito recente mesmo” e “há companhias que o encomendaram” mas “podem ou não estar a voar com ele na Europa” — a Ryanair, por exemplo, conta fazer os primeiros voos na Europa em abril deste ano –, Jaime Prieto sublinha que o modelo de que este novo Boeing descende é “talvez o avião mais vendido da Boeing, o mais eficiente e com mais provas dadas em voos de médio curso”.

O piloto de linha aérea recorda ainda que, na sequência do acidente anterior (de outubro), “algumas associações de pilotos nos Estados Unidos manifestaram preocupação com o aligeiramento dos cursos” que preparam os pilotos para novos modelos de aviação. Este modelo, em específico, é “um dos modelos com ritmo de vendas mais rápido” da história da Boeing anos, aponta a estação canadiana CBC.

Para Jaime Prieto, “o automatismo e a evolução tecnológica têm aumentado os níveis de segurança” das viagens de aviação mas é altura de “começar a analisar a fronteira entre a aceleração de desenvolvimento tecnológica e a forma como os pilotos são preparados para lidar com mais tecnologia. Talvez [seja recomendável] mais preparação, mais informação, mais horas de experiência em simulador para determinado sistema. É preciso expor mais a relação entre a tecnologia e o piloto”.

A convicção: companhia aérea já sabe o que aconteceu

O piloto de linha aérea que falou com o Observador tem a convicção de que a Ethopian Airlines “já sabe” o que se passou este domingo, porque “tem um sistema que permite estar sempre em contacto com” o sistema do avião. O exemplo dado é o da fórmula 1: tal como neste desporto, na aviação as companhias aéreas já têm um acesso detalhado à informação do que se passa nos seus veículos, mesmo à distância. “Os aviões já têm este tipo de funcionalidade, que torna quase obsoletas — não ainda inteiramente — as caixas negras. Porém, não podem ainda disponibilizar a informação, têm de a avaliar“.

A Ethiopian Airlines, recorda o piloto português, já anunciou o envio para o local de uma equipa de peritos. Jaime Prieto quis vincar também que já ouviu comentários de desvalorização do piloto que transportava o Boeing 737 Max 8 e da companhia aérea em questão, a Ethiopian Airlines, mas sublinhou que aquela companhia é “de referência internacional” e tem por norma “formação profissional ao mais alto nível”, a ponto de “a Boeing escolher algumas vezes a Ethiopian Airlines para lançar os seus modelos novos”. “Não aconteceu com este modelo, mas aconteceu com outros”, sublinha.

Por ora, sugerir que este modelo da Boeing é perigoso ou que a falha que provocou o acidente deste domingo é a mesma que provocou o acidente da Lion Air em outubro “é especulação”, alerta Jaime Prieto. Se for, porém, a mesma falha “num intervalo de tempo de quatro a cinco meses”, então “a Boeing vai ter um arranque muito mau desta aeronave”.

Primeiro acidente motivou queixas de falta de formação

O acidente de outubro da Lion Air motivou uma investigação que foi divulgada no site Aviation Safety Network. O relatório pode ser lido na íntegra aqui. Parte do problema que resultou no acidente esteve relacionado com um sistema chamado MCAS – Maneuvering Characteristics Augmentation System. O sistema, que é ativado de forma automática sem ordem e decisão do piloto, aplica um estabilizador horizontal quando a aeronave entra em situação de queda ou perda de sustentação — o termo técnico é estol, em inglês stall. A ativação do sistema depende da informação enviada por sensores e outros sistemas tecnológicos do avião. No caso do acidente de outubro com um Boeing 737 Max 8, os sensores enviaram informação errada.

Nesses casos há uma sonda que envia informação ao sistema que age tentando recuperar o avião da situação anómala em que se encontra. Mas pode acontecer o computador receber informação de uma sonda avariada que sugere que o avião está em situação anómala. Quando vai tentar resolver uma situação fictícia, o piloto não percebe o que está a acontecer”, aponta Jaime Prieto.

O piloto português refere que relativamente ao acidente de outubro passado “a Boeing remete o que se passou para um problema de estabilizador horizontal. Sem dúvida que é. A questão é que quando há uma fonte errada o computador começa a reagir e o piloto tem de ir buscar uma solução técnica alternativa, digamos assim, para contornar o sistema e desligar a ligação ao computador. O computador está a dar uma resposta ao avião para uma situação em que ele verdadeiramente não está. Há inputs eletrónicos e tecnológicos a falar entre si e por vezes o piloto fica posto de parte”. À dificuldade acrescem as queixas de falta de formação sobre como lidar com estes imprevistos decorrentes dos novos avanços tecnológicos introduzidos no modelo da Boeing.