É tido como uma das grandes promessas do ténis internacional há vários anos. Alexander Zverev adiantou-se na conquista de um grande título e deixou-o para trás, algo esquecido entre o mediatismo à volta do alemão, o domínio de Djokovic, o brilhantismo de Federer e a persistência de Nadal. É muitas vezes descrito como o tenista para quem o ténis é cruel e tem assistido sentado ao rótulo nem sempre simpático de low profile que lhe dão. Este domingo, quando se deitou no chão e deu um suspiro de alívio depois de bater Roger Federer na final de Indian Wells e vencer o primeiro Masters 1000 da carreira, Dominic Thiem esqueceu as crueldades da modalidade e a ideia de que é demasiado tímido e bem educado para ser atleta profissional. Este domingo, nos Estados Unidos, Thiem voltou a ser apenas uma das grandes promessas do ténis internacional.

Depois de perder a final do Open de Madrid em maio de 2018, contra Zverev, e a final de Roland Garros um mês depois para Rafa Nadal, Dominic Thiem conseguiu finalmente conquistar um dos principais títulos do circuito internacional de ténis e aponta agora à primeira vitória da carreira num Grand Slam já este verão: a confirmar-se, será apenas o segundo austríaco a consegui-lo e o primeiro desde que Thomas Muster venceu em Roland Garros em 1995. A vitória perante Federer valeu ainda o regresso ao 4.º lugar do ranking ATP, superando precisamente o suíço, apenas atrás de Zverev, Nadal e Djokovic. Com 25 anos, o rapaz tímido dos arredores de Viena parece estar finalmente a justificar todos os elogios, destinos e previsões que lhe foram apontados nos últimos anos.

Dominic Thiem com Rafa Nadal: príncipe e rei da terra batida

Filho de dois professores de ténis, Wolfgang e Karin, dificilmente passaria ao lado de uma carreira profissional na modalidade. Em entrevistas, já referiu que foi “amor à primeira vista” quando entrou num court pela primeira vez, com apenas um ano, e com oito já praticava duas a três vezes por semana. Foi nessa altura que Dominic Thiem começou a treinar com Günter Bresnik, antigo treinador de Patrick McEnroe e Henri Leconte: a ligação da família Thiem com Bresnik, aliás, precisa de ser contada desde 1997, ano em que o pai de Dominic bateu à porta da academia do treinador austríaco a pedir para dar aulas de ténis ali. Depois de insistir, quase implorar e aceitar receber menos do que a maioria dos outros instrutores que lá trabalhavam — com a explicação de que tudo o que queria era aprender com os métodos de Bresnik –, conseguiu o emprego. Quatro ou cinco anos depois, convencido que o filho mais velho tinha um talento acima da média, pediu ao patrão para realizar um treino de teste e para, se assim entendesse, o treinar de forma permanente.

Mas Günter não concordou com Wolfgang. Achou que Dominic era um rapaz banal igual a tantos outros e sem um talento especial que o diferenciasse. Não era o mais rápido, o mais forte, o mais técnico. Mas tinha algo que cativou o treinador logo à partida e que o tornou o projeto principal de Bresnik: a paixão. Dominic era o mais dedicado, o mais esforçado, o que passava mais horas dentro do court a bater bolas sem opositor do outro lado da rede. Desde esse dia e até hoje, Günter Bresnik é o treinador de Dominic Thiem e o principal responsável por tudo aquilo que o tenista austríaco começa a alcançar. Os métodos, quase sempre questionáveis, do técnico, motivaram até um livro. “O método Dominic Thiem”, escrito por Bresnik, descreve as medidas implementadas pelo treinador para tornar o tenista mais forte, mais resistente e até mais mal comportado. Thiem foi levado ao limite para ser menos educado e controlado e despertar a competitividade que lhe faltava.

“Quando entrava em algum lado, cumprimentava toda a gente. Dizia ‘por favor’ e ‘obrigado’, olhava nos olhos de outra pessoa quando estendia a mão. Notavelmente simpático e amigável. Mas era muito dócil e educado para ser um atleta de alta competição. Era muito futuro genro e não suficientemente Horst Skoff ou Stefan Koubek [ex-tenistas austríacos]”, explicou Günter Bresnik em entrevista ao Globoesporte. Para tornar Thiem mais resistente e retirar-lhe o medo de confrontar os demais, as experiências foram muitas. “Disse-lhe para ir cortar madeira em vez do treino físico, atormentei-o com exercícios arbitrários no court. Provocava-o e exigia aos pais que o obrigassem a pôr a mesa em casa e a lavar as próprias roupas. Queria mandá-lo para treinos de boxe mas ele resistiu e protestou, o que foi um bom sinal”, acrescentou o treinador. Resistiu ao boxe mas não conseguiu evitar o hóquei no gelo, que praticou durante um ano e que já revelou ter “odiado” por ser “muito brutal”. Mas, para Günter Bresnik, tudo girava à volta da disciplina e da obediência.

Apesar de estar à vontade em todas as superfícies, Dominic Thiem tem uma especial predileção pela terra batida e foi mesmo o primeiro no espaço de dois anos a vencer Rafa Nadal no piso que o espanhol domina, nos quartos de final do Open de Madrid. A particularidade valeu-lhe a alcunha de “príncipe da terra batida” — já que Nadal é inequivocamente o “rei” –, mas os gostos e as áreas de eleição de Thiem estendem-se bem para lá do ténis. Confesso adepto do Chelsea, o austríaco é um fã incondicional do brasileiro Willian, que conheceu em novembro do ano passado durante um evento da Adidas. Além disso, o jovem tenista, amigo próximo do português João Sousa, é ainda altamente preocupado com as alterações climáticas e colabora de forma regular com a organização 4ocean, cujo objetivo é preservar os oceanos a criar ecossistemas sustentáveis para a vida marinha.

Depois de no verão de 2014 ter provado que a timidez já lá vai — teve de cumprir o serviço militar obrigatório e referiu-se a esses quatro meses como “uma chatice do caraças” –, Dominic Thiem tenta agora perder a conotação de tenista low profile e dar-se a conhecer, já que criou um canal de YouTube no passado mês de dezembro e ter partilhado vídeos das habituais rotinas. O herói da cidade austríaca de Lichtenwörth, onde existem quatro placas gigantescas com a inscrição “Cidade Natal de Dominic Thiem”, tenta aos poucos deixar de ser promessa e tornar-se uma certeza. O primeiro passo está dado e foi este domingo, em Indian Wells.