Uma população desproporcionalmente branca, segregada e dividida por tensões raciais. É este o retrato de Christchurch que o investigador Paul Spoonley deu à Associated Press. Depois de um terrorista de extrema-direita ter matado 50 pessoas em duas mesquitas da cidade na sexta-feira, 16 de março de 2019, o especialista diz que o atacante terá recebido apoio tácito ou prático dos movimentos de extrema-direita que se centram nesta cidade da Nova Zelândia.

“Andam mais calados nos últimos tempos, mas não desapareceram”, considera Spoonley, que estima que existem 200 a 250 defensores extremos da supremacia branca neozelandeses. “Ficaria muito surpreendido se não tivessem estado em contacto [na preparação do ataque]”, continua o investigador, que garante que os crimes de ódio existe na Nova Zelândia, apesar de com uma frequência menor do que noutros pontos do mundo.

Incidentes anteriores na cidade mostram a organização de grupos de extrema direita abertamente hostis às mesquitas de Churchland. Em 2016 a cabeça de um porco foi deixada à porta da mesquita de Al Noor, onde foram mortas 42 pessoas no ataque. Um negócio de mudanças local usa como logótipo o “sol negro”, um símbolo neo-nazi utilizado originalmente pelos paramilitares nazis da Schutzstaffel, e que estava desenhada nas armas do atacante. Na terça-feira anterior ao massacre a polícia local prendeu um homem de 44 anos por “distribuir panfletos com propaganda racista”.

A pesquisa de Spoonley econtrou 70 grupos neo-nazis organizados na Nova Zelândia, a maioria dos quais em Christchurch. O investigador atribuiu a estes grupos o assassinato de um turista coreano em 2003 e de um sem-abrigo homossexual em 1999. O governo neozelandês não mantém qualquer base de dados oficial de crimes de ódio.

A porta-voz da Federação de Organizações Islâmicas da Nova Zelândia, Anwar Ghani, garante que o perigo para a comunidade muçulmana era visível: “Tem havido um tendência crescente [de ódio racial] sobre a qual avisámos várias vazes as autoridades durante os últimos três ou quatro anos, mas nunca fomos levados a sério”.

Ghani pede, precisamente, ação: “Se não se lidar com o assunto de forma cuidada e séria o problema vai continuar a aumentar. Eles [os militantes de extrema-direita] estão a ficar cada vez mais ousados”. A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, já garantiu um inquérito oficial à forma como o atirador conseguiu escapar à deteção das autoridades.