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Banda Desenhada

Hellboy. O demónio com coração de ouro faz 25 anos e deixa a banda desenhada

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Filho de uma bruxa e de um demónio, herdeiro do Rei Artur e invocado pelos nazis. Hellboy é um marco em banda desenhada, cinema e videojogos. 25 anos depois, a história está a chegar ao fim.

Hellboy, nascido em 1944 por invocação de um místico nazi

Os super-heróis não envelhecem. O Super Homem nasceu em 1938, o Batman no ano seguinte. Mas os dois octogenários continuam tão aventureiros como sempre, por força de reboots, prequelas, sequelas e trocas de autor e de artista. Hellboy também não muda de idade, mas neste caso é porque tem sangue demoníaco.

o escritor e artista principal de “Hellboy” é o mesmo há 25 anos: Mike Mignola. Primeiro publicou a sua obra-prima na Dark Horse Comics em 1993. Depois ajudou a transformar Hellboy em jogo por três vezes (“Dogs of the Night” em 2000, “The Science of Evil”, de 2004, e “Injustice 2” em 2017), em animação duas vezes, sempre com Guillermo del Toro (“Sword of Storms”, em 2006, e “Blood and Iron” no ano seguinte) e em filme outras duas (“Hellboy” e “Hellboy II: The Golden Army” também com Guillermo del Toro, em 2004 e 2008).

O mundo celebra o “Dia do Hellboy” a 23 de março. Em Portugal, os 25 anos são celebrados pela Kingpin Books com uma reedição exclusiva da primeira aparição de Hellboy, preparada pela Dark Horse Comics. Um mês depois é lançada a nova versão de Hellboy nos cinemas, agora sob a direção de Neil Marshall (e repetindo o título “Hellboy”).

E em direção contrária, em abril é lançado o número final da série em banda desenhada. Ao fim de 25 anos, Mike Mignola anunciou que vai acabar com a história de Hellboy, o demónio com um coração de ouro. A personagem pode não estar velha, mas a história de Hellboy não é imortal.

Hellboy, ou Eça de Queirós em banda desenhada

A personagem titular, Hellboy, é filho de um demónio e de uma bruxa. Nasceu por invocação de um místico Nazi em 1944, foi capturado pelo exército americano e acabou criado como um humano e reconhecido como pessoa honorária pelas Nações Unidas em 1952. A carreira de Hellboy, como é conhecido o semi-demónio Anung Un Rama, fez-se em duas frentes: a combater as forças que o trouxeram ao mundo, e a colaborar com o Bureau for Paranormal Research and Defense na defesa da humanidade.

Hellboy veio ao mundo para iniciar o Apocalipse. A mão direita do demónio, feita de pedra, é (literalmente) a chave para libertar as forças do final dos tempos. É a Coroa do Apocalipse usada por Hellboy, que contrasta com a Coroa de Inglaterra de que é o legítimo herdeiro — de forma complicada (como só uma história escrita ao longo de décadas pode ser), Hellboy é também descendente do Rei Artur, possui a lendária Excalibur e lidera uma legião de nobres mortos.

Ambos os destinos são permanentemente adiados pelo protagonista ao longo da história. O objetivo maior de Hellboy torna-se uma necessidade pouco racional de proteger a humanidade dele mesmo, de evitar que se apoderem da sua mão apocalíptica e de defender o mundo dos constantes ataques paranormais que sofre.

Porquê? O caráter e as motivações de Hellboy são precisamente os pilares de dúvidas que alimentam a história. É um demónio com um coração de ouro, um rebelde que quer desafiar as maiores forças do universo, ou só alguém de tal forma ligado emocionalmente às pessoas que o criaram que se recusa a trai-las. Hellboy é a segunda ronda d’Os Maias: educação contra herança genética.

Um final sem mais ressurreições

O último número de “B.P.R.D.: The Devil You Know”, o ciclo de banda desenhada iniciado em 2017, sai a 25 de abril. Promete ser a segunda parte de uma conclusão iniciado com os números finais de “Hellboy in Hell”, em 2016. “Concordamos todos que não queríamos que este livro durasse mais dez anos“, admitiu Mike Mignola à CBR.

Ao longo de 25 anos Hellboy combateu centenas de monstros paranormais e foi a figura central em muito mais história do que se pode recapitular (para os mais curiosos, a Dark Horse Comics está a lançar a série completa em seis livros de compilação). Numa das suas últimas aventuras (“The Fury”, em 2011) Hellboy foi morto. Começava aqui um final que levou 8 anos a montar.

Em “Hellboy in Hell”, a personagem titular não renasce. Mas ao longo de nove livros, Hellboy faz exatamente o que fazia em vida, só que no Inferno. Luta pela humanidade, arruína planos maléficos e mata monstros. E depois há o livro final: um relato na terceira pessoa da luta entre Hellboy e o próprio Satanás, a que se segue uma caminhada silenciosa de Hellboy pelo inferno, esvaziado pela chacina heroica, até o demónio encontrar uma casa abandonada. Hellboy senta-se, para e descansa, resignado a passar a eternidade num inferno vazio onde ninguém o poderá usar para atacar a Terra. Está encerrada a primeira parte do final.

Em “B.P.R.D.: The Devil You Know” Hellboy volta à Terra, meio vivo, meio morto, para atar pontas soltas. “Há uma tristeza latente neste homem [o Hellboy] que sabe que até o seu descanso final é temporário. Ele tem m***** para fazer na Terra. E agora vai voltar e fazê-las”, explicou Mignola na mesma entrevista. Mas este regresso é o último: “Sem querer ser demasiado Católico, tinha de haver o Hellboy vivo, o Hellboy morto e agora… o que quer que isto seja, o herói amaldiçoado que nuca pode parar“.

O livro final vai atar as pontas soltas e encerrar permanentemente a história de Hellboy. O que não implica o fim do mundo criado por Mike Mignola. Há filmes, romances e adaptações planeadas. Mesmo na banda desenhada estão prometidas sequelas e contos breves inseridos na narrativa já existente. Mas a grande história de Hellboy tem data de fim marcada, e ao criador não apetece começar tudo de novo: “Não me parece que vá escrever outro livro. […] Às vezes começo a escrever uma história, mas pergunto-me ‘Quero mesmo voltar a ser sugado por isto, ou apetece-me mais desenhar um prédios velhos?’ e depois vou desenhar seis portas decrépitas sem qualquer uso comercial, só porque quero desenhar aquilo“.

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