Açores

Festival Tremor reúne associação de surdos, Ondamarela e Escola de Música de Rabo de Peixe

O Festival Tremor começa esta terça-feira nos Açores. Além da música e da palavra, a língua gestual também assume um papel fundamental no evento.

A poesia entra na atuação com "uma mensagem forte" como forma de "tentar passar a ideia de que o Tremor é um grito, uma mensagem, que a ilha deixa numa garrafa e atira ao Atlântico

EDUARDO COSTA/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

O Festival Tremor arranca esta terça-feira com um espetáculo que junta a Ondamarela com a Escola de Música de Rabo de Peixe, a Associação de Surdos da Ilha de São Miguel e músicos locais.

“O que nós criamos é um espetáculo que tem por base a música. É um ponto de partida, porque é universal, mesmo para surdos, e depois cada pessoa, cada grupo, cada comunidade, dá o seu ‘input'”, avançou Ricardo Baptista, músico e co-fundador do projeto de intervenção artística Ondamarela.

O coletivo de Guimarães já tinha, na edição anterior do festival, trabalhado com a associação de surdos, mas a descoberta da ESMúsica.RP foi “muito interessante”, disse o músico à Lusa, acrescentando que o material para esta performance é novo e “foi todo construído colaborativamente com os alunos e professores da Escola de Música de Rabo de Peixe, e com os utentes e as intérpretes da Associação de Surdos da Ilha de São Miguel”.

A todos estes intérpretes junta-se “uma espécie de um terceiro grupo de trabalho, que é um conjunto de músicos convidados de Ponta Delgada, incríveis, super generosos, (…) que estão a ajudar a montar este concerto”.

Em palco estarão, ainda, “alguns convidados da palavra, pessoas que vão ajudar com a parte mais poética e de palavra, em torno do imaginário” criado para a abertura do festival.

Além da música, criada em colaboração, e da palavra, a língua gestual também assume um papel fundamental.

“É evidente que os surdos comunicam muito com a língua gestual, e isso é muito interessante, do ponto de vista performativo, do movimento, e usamos isso. Mas também é muito interessante a forma gramatical como a língua gestual põe as coisas (…), a forma como divide as palavras, como mima as palavras, a forma como diz e não diz coisas”, considerou.

Os Ondamarela, coletivo fundado e gerido por Ricardo Baptista e Ana Bragança, desenvolvem, “essencialmente, projetos de comunidade que se ligam a lugares concretos, através de mediação artística”, em diferentes áreas.

Para este espetáculo, voltam a trabalhar com a comunidade de surdos de São Miguel, um projeto “muito importante para dar o exemplo na igualdade entre os surdos e os ouvintes”, considera Rodrigo Furtado, utente da ASISM.

Nós não somos pessoas com deficiência, com incapacidades, nós somos iguais a todos os outros. (…) As pessoas acham que é estranho, e depois veem que nós somos pessoas, temos capacidades, temos os mesmos direitos, podemos tocar, podemos sentir a música”, afirmou o jovem Rodrigo Furtado, que já tinha participado no concerto do ano anterior.

Também Maria de Jesus Lima é repetente, e diz ter ficado surpreendida por ser capaz de sentir a vibração da música, considerando um “orgulho” participar num projeto como este.

Esta é, também, uma experiência valiosa para os alunos da Escola de Música de Rabo de Peixe.

Aníbal tem 13 anos e toca trombone há cinco. A curiosidade levou-o até à escola onde começou por tocar saxofone, passou pela melódica e agora é com o trombone que chega ao Tremor. Já pisou o palco do Teatro Ribeiragrandense e prepara-se para subir ao do Teatro Micaelense “com confiança”.

Colega no trombone, instrumento que toca desde os cinco anos de idade, também o Martim, de sete anos, se sente “tranquilo” com a ideia de enfrentar o grande público.

Mas, se todos demonstram entusiasmo, a confiança está reservada só para alguns.

Na semana que antecedeu a chegada da Ondamarela, Leandro, de 13 anos, regressava à escola, depois de a morte do seu irmão o ter afastado da música. Tocava saxofone, mas, naquele dia, foi-lhe dada uma melódica. Aquele sábado era, também, a primeira experiência que tinha a ensaiar em orquestra, com outros alunos da escola, e mostrou-se intimidado com a atenção que recebeu.

“Não gosto, eu fico envergonhado. No primeiro dia que eu toquei [a melódica e aquela música], soube tocar a música toda do princípio ao fim e estava tudo a rir-se para mim. Não gostei”, considerou o jovem de Rabo de Peixe.

Leandro atua, esta terça-feira, no Teatro Micaelense. Com ele estarão também Aníbal e Martim e todos os outros colegas que compõem a orquestra, bem como Maria de Jesus e Rodrigo, e vários outros utentes da associação de surdos, a Ondamarela, músicos locais e todos aqueles que quiserem assistir ao espetáculo, que acontece às 19:00 e tem entrada livre.

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