Rádio Observador

25 de Abril

25 de Abril entre ética, familygate e jovens. O que eles disseram (e o que queriam dizer)

654

Direita não esqueceu casos do familygate, mas Ferro pediu mais "ética e transparência" para os "casos" não denegrirem a política. Jovens foram o centro das preocupações. Populismo é o perigo à solta.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Em ano de três eleições, o 25 de Abril de 1974 foi celebrado na Assembleia da República com os olhos no futuro (e nos jovens que vão ser o futuro). Com a esquerda (e alguns deputados do PSD também) a ostentar os habituais cravos na lapela, da esquerda à direita houve alertas contra os populismos que culminaram com um forte — e muito aplaudido — elogio de Ferro Rodrigues a Marcelo Rebelo de Sousa, a “muralha simbólica contra o crescimento do populismo”. Os jovens, contudo, foram o denominador comum a todas as intervenções, começando com o deputado do PAN, passando pelo BE e pelo PS, que elogiaram o movimento de luta juvenil contra as alterações climáticas, e terminando no discurso do Presidente da República, que falou, de cravo na mão, no jovem que foi em 1974 e no que os políticos têm de saber responder aos jovens de hoje, em 2019.

O ano de 2019, contudo, é ano de eleições e, apesar de tanto PSD como PS terem sublinhado a importância da “diversidade política”, tempo houve para apontar o dedo ao Governo. PSD e CDS não esqueceram, por isso, os casos do familygate, com os centristas a exigir um “pedido de desculpas” ao Governo pelo “compadrio político”. Ética, transparência, escrutínio, tudo foi defendido por todos. Mas com a certeza de que, não é só hoje, 25 de Abril, que se deve apregoar estas bandeiras. Como disse Ferro Rodrigues, “a democracia é a ação contínua do cidadão”.

Os casos familiares do Governo e o dever da ética

Pedro Roque (PSD): “Rejeitamos que critérios ‘clubístico-partidários’ ou de nepotismo familiar se sobreponham ao mérito e interesse coletivo”.

Filipe Anacoreta Correia (CDS): “O que precisamos de ver ainda para ouvir um pedido de desculpas por parte de um governo, partido ou regime, pelo escândalo do que foi tirado aos portugueses em compadrios políticos e económicos que destruíram riqueza e atiraram empresas nacionais como a CGD, o BES ou a PT para perdas que todos suportámos?”. “A deferência diante das instituições em que se tem a honra de servir o país aconselha prudência e repúdio de banalizada familiaridade. A promiscuidade com o poder, seja de âmbito económico, partidário ou familiar, é incompatível com a dignidade democrática”.

Ferro Rodrigues (Presidente da Assembleia da República): “A política de casos é a arma dos fracos, daqueles que não têm ideias nem alternativas. Só serve para minar a democracia e envenenar a vida pública”.

Foi um dos temas presentes nas entrelinhas dos discursos políticos. PSD e CDS não deixaram esquecer a polémica recente das nomeações de familiares de governantes na máquina do Estado e referiram como esse tipo de casos é “incompatível com a dignidade democrática“. Filipe Anacoreta Correia, do CDS, foi mais ao detalhe no ataque ao Governo, falando não só nos “compadrios políticos e económicos que destruíram riqueza e atiraram empresas nacionais como a CGD, o BES ou a PT para perdas que todos suportámos”, como também referiu as tragédias dos fogos, do assalto a Tancos, ou da rejeição do governo pela presença de privados no setor da saúde. Também Pedro Roque referiu a ideia de que o PSD rejeita que critérios familiares ou “clubísticos” se sobreponham ao critério do mérito e tudo para pedirem mais ética na política. Uma  “ética exigente e um escrutínio constante” que deve ser mais amplo do que “o mero ciclo eleitoral ou mediático”, disse o deputado centrista.

O tema voltaria à baila com o discurso do Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, um dos mais aplaudidos da sessão, que pediu “mais e maior escrutínio” para o Parlamento — já que esse é “o melhor antídoto contra o crescimento da cultura antiparlamentar”. Isso, por um lado. Por outro, contudo, Ferro não quis deixar de dar uma reprimenda aos partidos políticos que se dedicam à intriga uns contra os outros e que, juntos, contribuem para o descrédito da classe política e, consequentemente, da democracia. “Não é com desinformação nem alvitando o papel do Parlamento e dos deputados que se avança. É com responsabilidade, respeito e dedicação à causa pública”. Mais: “A política de casos é a arma dos fracos, daqueles que não têm ideias nem alternativas“. Esta, sim, foi a frase mais aplaudida.

O ataque e o elogio a Marcelo

Jorge Falcato (BE): “O Serviço Nacional de Saúde pode voltar a andar de cravo ao peito, como António Arnaut o sonhou, ou manterá a porta aberta para o negócio dos privados em cedência à pressão presidencial?”

Ferro Rodrigues (Presidente da Assembleia da República): “Vossa Excelência [Presidente da República] tem sido uma muralha simbólica contra o crescimento do populismo, pelo papel decisivo e essencial que tem assumido durante a sua Presidência”.

Marcelo Rebelo de Sousa é sempre uma figura central na sessão solene do 25 de Abril, na medida em que é a única vez em que discursa no Parlamento. E esta sua terceira vez não foi exceção, para o bem e para o mal. Enquanto o Presidente da Assembleia da República lhe tinha reservado um rasgado elogio, a bancada bloquista escolheu uma alfinetada. Primeiro, o elogio: Ferro reservou a parte final do seu discurso para elogiar o mandato de Marcelo (que estava sentado ao seu lado), e para lhe dizer que nos últimos anos tem agido como uma “muralha simbólica contra o crescimento do populismo“. Antes, em entrevista ao Público, até já tinha admitido que votaria nele se as presidenciais fossem amanhã.

Depois, a alfinetada. O deputado bloquista, Jorge Falcato, passou ao de leve num dos temas do dia: a lei de bases da saúde, que começou por ser negociada à esquerda (com o BE a anunciar mesmo ter chegado a acordo com o Governo), prevendo-se a exclusão dos privados do setor e o fim das PPP, e que agora, num aparente recuo do PS em relação à possibilidade de entrada dos privados, poder vir a ser negociada ao centro (com a mão do PSD). Falcato chamou-lhe “pressão presidencial“, e a verdade é que Marcelo chegou a ameaçar com veto uma lei de bases que fechasse portas em vez de abrir.

Os jovens, a ambição dos jovens e a luta contra as alterações climáticas

Carlos César (PS): “As novas gerações, moldadas nas sociedades conectadas e no mercado digital, confrontadas com a sobre-exploração e esgotamento dos recursos naturais, com as disparidades demográficas e as dificuldades dos sistemas de saúde e segurança social, com a desregulação e terrorismo, e com alterações imensas nas funções profissionais e nas relações de trabalho, têm, assim, outras ansiedades e procuram outras soluções. Os nossos cuidados devem estar, pois, centrados na procura dessas soluções”.

André Silva (PAN): “Em Portugal precisamos de dois planetas para suportar o atual modelo de consumo. Estamos a viver acima das possibilidades do planeta, com bancarrota antecipada. Os jovens têm-se manifestado na rua e à rua vão voltar”.

Jorge Falcato (BE): “Os estudantes que saíram à rua pela urgência climática são cravos semeados por abril que se transformam em agentes principais de uma mudança inadiável”.

Os jovens que têm saído à rua para defender a luta contra as alterações climáticas (e interromperam mesmo o discurso de António Costa no 46.º aniversário para contestar o aeroporto do Montijo) foram referidos em muitas das intervenções. É neles que a classe política deposita esperança, mas também é a eles que a classe política tem de dar resposta.

Foi essa a mensagem de Marcelo Rebelo de Sousa em toda a sua intervenção, onde pediu mais “ambição” aos políticos para acompanharem as novas exigências e os desafios do mundo global que são hoje diferentes dos que eram os dos jovens de 1974. A revolução digital, que vai mudar a forma como se olha para o emprego, foi uma das mais referidas como um desafio para o futuro.

Também Carlos César a referiu: “As novas gerações, moldadas nas sociedades conectadas e no mercado digital, têm outras ansiedades e procuram outras soluções. Os nossos cuidados devem estar, pois, centrados na procura dessas soluções”.

A lembrança do 25 de Novembro

Pedro Roque (PSD): “O processo de democratização conducente a um Portugal progressista inaugura-se nesse momento fundador e também com o 25 de Novembro de 1975. Torna-se imperativo que, ano após ano, possamos honrar aqueles que nos conduziram nesse caminho”.

Filipe Anacoreta Correia (CDS): “Neste 25 de Abril cumprem-se 45 anos do início do processo democrático que viria a consolidar-se no dia 25 de Novembro de 1975”.

Já é uma referência habitual nos discursos do 25 de Abril: PSD e CDS fazem questão de evocar o 25 de Novembro de 1975 nesta sessão solene, por entenderem que só aí se conseguiu dar por bem sucedido o processo de democratização da sociedade. Foi nessa data que se pôs fim ao Processo Revolucionário em Curso, abrindo portas, no seu entender, à democracia como hoje a conhecemos.

A esquerda, contudo, não vê da mesma maneira e a data não é celebrada.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: rdinis@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)