Seis horas e meia de audição, sem contar com as perguntas respondidas com porta fechada. O ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos, Carlos Santos Ferreira, reconheceu que no último ano do seu mandato — 2007 — foram decididas as operações que mais perdas geraram no banco do Estado. Teria sido “impossível” que assim não fosse, defendeu logo na sua intervenção inicial, apontando as culpas aquilo que ninguém quer lembrar que existiu: a crise financeira de 2008.

Mas ao longo da audição, e sob pressão dos deputados, Carlos Santos Ferreira foi reconhecendo que a crise não explica tudo e que foram cometidos erros na gestão da qual fez parte. Apesar de ter insistido várias vezes no apelo aos deputados que fizessem justiça aos resultados da sua gestão. Se houve créditos ruinosos, e o antigo gestor reconhece que a maioria das operações no TOP das maiores perdas foi decidida no último ano do seu mandado, também “houve lucros fabulosos”.

Estas são as contas apresentadas por Santos Ferreira: entre 2006 e 2007, a Caixa apresentou resultados antes de impostos de 2.064 milhões de euros, diz Santos Ferreira, “que são, aliás, os mais altos da história da Caixa”. “Se quiserem deduzir a estes resultados todas as imparidades dos créditos concedidos em 2006 e 2007 e que constam do top 25, mesmo assim, o resultado positivo da Caixa seria de 1.300 milhões. Se quiserem deduzir a isto as imparidades de todos os créditos concedidos nesse mesmo período os resultados da Caixa rondariam os 900 milhões”, diz o ex-banqueiro — quase deixando no ar a ideia de que se foi pedida uma auditoria aos 25 créditos mais ruinosos da Caixa, porque não pedir uma auditoria aos negócios mais rentáveis, aqueles que geraram os “lucros fabulosos” que Carlos Santos Ferreira diz ter produzido no banco público?

Um dos casos onde essa assunção de responsabilidades foi mais evidente foi no caso do financiamento e investimento no capital da sociedade gestora de Vale do Lobo. Apesar de lembrar que a Caixa investiu numa sociedade para desenvolver parcerias com privados — e que num caso até teve lucro — Santos Ferreira acabou por afirmar que Vale do Lobo foi “uma má operação” com mais resultados e que a forma como o dossiê chegou à direção comercial da Caixa, enviada por mail pelo ex-administrador, Armando Vara, não foi a mais correta. Mas quando questionado porque aprovou a delegação de competências em Vara para decir sozinho algumas condições do crédito, não conseguiu responder.

Também não soube dizer quem propôs o financiamento à Fundação Berardo, destacando várias vezes que veio com o selo da direção comercial das grandes empresas. Foi Cecília Meireles quem o informou de que o ex-diretor desta divisão, Cabral dos Santos, revelou na sua audição que só apresentou a proposta de crédito porque recebeu instruções de um administrador para o fazer. Quem? Maldonado Gonelha. “Achava que ia dizer o meu nome”, respondeu à deputada centrista.

Ainda caso dos créditos concedidos a Joe Berardo — em particular o financiamento até 350 milhões para a compra de ações do BCP — o comendador terá usado cerca de 260 milhões e é o incumprimento deste crédito que suscitou o processo de execução em curso — Santos Ferreira defendeu o racional financeiro da operação ao comendador ao qual se referiu sempre como aquela “pessoa”, sem o identificar. Lembrou os ativos e participações que estavam consolidados nas empresas Metalgeste e Fundação Berardo e que serviriam também como colateral. Apesar de algumas vendas, como a Bragatel, uma lógica que foi desmentida pela realidade, como notou a deputada do Bloco, Mariana Mortágua.

Mas deixou a garantia de que o crédito a Berardo não foi de “favor”. Sobre Sócrates, Santos Ferreira fez uma afirmação singular: “Não quero dizer nada que piore a situação delicada em que ele se encontra”, acrescentando que o ex-primeiro-ministro “nunca foi minha visita de casa”

Também empréstimo dado a Manuel Fino tinha garantias suficientes, apoiadas em ativos valiosos como a Cimpor. O problema que “ninguém previu, nem os responsáveis do risco”, foi a crise de subprime de 2008, seguida de uma recessão global e de uma ajuda internacional no caso português.

Santos Ferreira admitiu ainda contactos com o Governo sobre o apoio financeiro dado ao grupo catalão La Seda, mas remetendo responsabilidades sobre o tema para a Caixa BI, então liderada por Jorge Tomé.

Santos Ferreira não aceitou as críticas e reservas dos deputados sobre a solidez das garantias obtidas para conceder estes financiamentos — nem a tese de que os créditos foram aprovados contra as condições definidas pelos pareceres do risco. E aproveitou para atacar as conclusões da auditoria da EY. “É um relatório factual, mas é um relatório factualmente infeliz. Tem dados errados, dados apresentados de forma pouco cuidada e pouco profissional”. E garante que as regras então em vigor na Caixa foram cumpridas.

O Estado teve de injetar mais de quatro mil milhões de euros na Caixa Geral de Depósitos? Também os acionistas do BCP tiveram de injetar muito capital no banco, também os acionistas do BPI perderam valor por causa da crise (até porque rejeitaram os 7 euros por ação oferecidos na OPA do BCP) — “isso quer dizer que a administração do BPI era incompetente? Não, era tinha uma “excelente” equipa de gestão”. Os acionistas da generalidade dos bancos ibéricos e europeus sofreram perdas — foi a maior crise das nossas vidas, foi “inesperada”. E, por isso, a Caixa não podia ficar imune, defende o ex-banqueiro. Nem aos lucros que marcaram os anos até 2007 nem às perdas que se seguiram. A diferença, diz Carlos Santos Ferreira, é que os bancos privados avançaram mais rapidamente para o registo de imparidades (de um modo geral), ao passo que a Caixa retardou esse efeito, reconhecendo poucas perdas quando bancos como o BCP já estavam a limpar o balanço de forma agressiva.

Ou seja, diz Carlos Santos Ferreira “sem querer ofender ninguém”, o facto de o Estado ter injetado mais de quatro mil milhões de euros no banco público, após a recente imparização, apenas aconteceu porque não se tinham registado imparidades suficientes nos anos anteriores. Isto é, houve uma espécie de “adiantamento por dividendos”, porque naqueles anos em que a Caixa não reconhecia tantas imparidades quanto devia, isso significava que os lucros eram maiores e, assim, o Estado foi recebendo dividendos.

Carlos Santos Ferreira jurou nunca se ter guiado por outros interesses que não gerir a Caixa seguindo a velha máxima de que se deve gerir um banco “como um bom pai de família”. E isso inclui, por vezes, tomar certas decisões de crédito que se baseiam numa esperança de manter as empresas à tona, sobretudo numa crise dura como a que se viveu, e “salvaguardar postos de trabalho”. Isso aconteceu na Caixa, diz o ex-banqueiro, em alguns casos em que a decisão do conselho de administração foi no sentido de aprovar créditos ou reestruturações de créditos quando o parecer do departamento de risco mostrava reservas ou era frontalmente contra.