É o fim de uma era histórica. Esta terça-feira, o imperador japonês Akihito, de 85 anos, abdicou do trono por motivos de saúde e dado a sua idade avançada, sendo a primeira vez em 200 anos que um monarca japonês decide abdicar do trono em vida — a última vez foi em 1817. No seu lugar, ficará o seu filho mais velho, o príncipe herdeiro Naruhito, de 59 anos, que se tornará no 126.º soberano da mais antiga monarquia reinante do mundo. No último discurso, Akihito pediu paz em todo o mundo.

[A mudança inédita que deu um novo imperador ao Japão]

As cerimónias que marcam a saída tiveram início esta manhã, com a realização de alguns rituais privados, onde o imperador surgiu com um manto tradicional a entrar no principal santuário de Kashikodokoro para comunicar a sua abdicação aos deuses. Por volta das 17 horas locais (9h em Portugal), no “Matsu no Ma” do Palácio Real, em Tóquio, realizou-se a breve cerimónia principal da abdicação, onde Akihito, acompanhado da sua mulher, a imperatriz Michiko, fez o seu último discurso como imperador japonês.

A cerimónia de 10 minutos teve como um dos momentos mais importantes o regresso dos “três tesouros sagrados” — uma espada, um espelho e uma joia — que foram trazidos para a sala por camareiros imperiais. Akihito sublinhou os seus 30 anos no trono com um “profundo respeito e amor pelas pessoas”. “Foi uma bênção”, assegurou, agradecendo ainda à população japonesa que o aceitou “como símbolo do Estado” e lhe “manifestou sempre o seu apoio”.

No futuro, Akihito tem apenas um pedido: “Espero, de coração, que a era ‘Reiwa’ seja pacífica e frutífera e vou rezar pelo bem-estar e felicidade do nosso país e das pessoas de todo o mundo”. Tecnicamente, o imperador continua no trono até às 00h00 locais, quando o Japão entrar no ano 1 da nova era imperial “Reiwa” (“Bela harmonia”). Será apenas na manhã desta quarta-feira que Naruhito começa o caminho da ascensão ao Trono do Crisântemo.

[O El País está a fazer uma transmissão em direto do local, que pode ver no vídeo abaixo]

Em maio de 2017, e depois de um desejo expressado em 2016 pelo próprio imperador, o governo japonês aprovou um decreto-lei que permitia que Akihito pudesse abdicar do trono através de uma autorização exclusiva e especial, uma vez que o imperador japonês tinha mostrado receio em ficar debilitado devido à sua idade e saúde e que isso que o pudesse deixar incapaz de exercer as suas tarefas oficiais.

Akihito foi nomeado imperador em 1989, após a morte do pai, e teve uma educação bem mais tradicional que a do filho, uma vez que viveu momentos como a fuga da II Guerra Mundial pelas montanhas de Nikko, quando ainda era criança. Recusou sempre ser tratado como um “ser divino”, ignorou protocolos e fez questão em lutar sempre pela imagem do Japão como um país pacífico, tendo mostrado remorso pelos ataques do exército imperial japonês, durante a II Guerra Mundial.

Em dezembro, quando fez 85 anos, Akihito voltou a não esquecer os acontecimentos da Guerra e saudou uma era “livre de guerras no Japão”, uma vez que o seu reinado de 30 anos foi a única época sem guerra na história moderna do Japão. “É um profundo consolo que a era Heisei esteja a chegar ao fim e que haja uma era livre de guerras no Japão”, disse Akihito, com a voz trémula de emoção.

Ao longo dos 30 anos no trono, Akihito teve alguns problemas de saúde que o levaram a renunciar ao trono: cancro da próstata, em 2002, e uma operação ao coração em 2012. O ainda imperador casou com uma plebeia, a imperatriz Michiko, que conheceu quando praticava ténis, um dos seus desportos favoritos. Ao filho, Naruhito, incutiu o gosto pelas viagens, convenceu-o a estudar em Oxford, em Inglaterra, e sempre acarinhou o perfil mais heterodoxo do herdeiro que agora assume o lugar de imperador.

A biografia de Naruhito, o futuro imperador, não é a mais ortodoxa para o padrão dos príncipes herdeiros do Japão, tendo sido criado pela mãe, Michiko, e não pelo pessoal do Palácio Imperial, e tendo estudado no estrangeiro, em vez de ficar pelos estabelecimentos de ensino japoneses, como era tradição.

E apesar de chegar agora ao trono, os japoneses já estão preocupados com a sucessão da família imperial, uma vez que Naruhito e a sua mulher Masako têm apenas uma filha, Aiko, de 17 anos, que pela sua condição feminina não poderá aceder ao trono, deixando o lugar para o próximo na linha de sucessão, Akishino, irmão mais novo de Naruhito, e o seu filho, Hisaito, de 12 anos, único neto de Akihito.