Rádio Observador

Japão

“Foi uma bênção”. Ao fim de 30 anos, imperador Akihito abdica do trono japonês

397

Akihito recusou ser tratado como "ser divino" e esteve à frente do país nos 30 anos da era moderna em que não esteve em guerra. Esta terça-feira, abdicou do trono japonês e pediu a paz mundial.

É o fim de uma era histórica. Esta terça-feira, o imperador japonês Akihito, de 85 anos, abdicou do trono por motivos de saúde e dado a sua idade avançada, sendo a primeira vez em 200 anos que um monarca japonês decide abdicar do trono em vida — a última vez foi em 1817. No seu lugar, ficará o seu filho mais velho, o príncipe herdeiro Naruhito, de 59 anos, que se tornará no 126.º soberano da mais antiga monarquia reinante do mundo. No último discurso, Akihito pediu paz em todo o mundo.

[A mudança inédita que deu um novo imperador ao Japão]

As cerimónias que marcam a saída tiveram início esta manhã, com a realização de alguns rituais privados, onde o imperador surgiu com um manto tradicional a entrar no principal santuário de Kashikodokoro para comunicar a sua abdicação aos deuses. Por volta das 17 horas locais (9h em Portugal), no “Matsu no Ma” do Palácio Real, em Tóquio, realizou-se a breve cerimónia principal da abdicação, onde Akihito, acompanhado da sua mulher, a imperatriz Michiko, fez o seu último discurso como imperador japonês.

A cerimónia de 10 minutos teve como um dos momentos mais importantes o regresso dos “três tesouros sagrados” — uma espada, um espelho e uma joia — que foram trazidos para a sala por camareiros imperiais. Akihito sublinhou os seus 30 anos no trono com um “profundo respeito e amor pelas pessoas”. “Foi uma bênção”, assegurou, agradecendo ainda à população japonesa que o aceitou “como símbolo do Estado” e lhe “manifestou sempre o seu apoio”.

No futuro, Akihito tem apenas um pedido: “Espero, de coração, que a era ‘Reiwa’ seja pacífica e frutífera e vou rezar pelo bem-estar e felicidade do nosso país e das pessoas de todo o mundo”. Tecnicamente, o imperador continua no trono até às 00h00 locais, quando o Japão entrar no ano 1 da nova era imperial “Reiwa” (“Bela harmonia”). Será apenas na manhã desta quarta-feira que Naruhito começa o caminho da ascensão ao Trono do Crisântemo.

[O El País está a fazer uma transmissão em direto do local, que pode ver no vídeo abaixo]

Em maio de 2017, e depois de um desejo expressado em 2016 pelo próprio imperador, o governo japonês aprovou um decreto-lei que permitia que Akihito pudesse abdicar do trono através de uma autorização exclusiva e especial, uma vez que o imperador japonês tinha mostrado receio em ficar debilitado devido à sua idade e saúde e que isso que o pudesse deixar incapaz de exercer as suas tarefas oficiais.

Akihito foi nomeado imperador em 1989, após a morte do pai, e teve uma educação bem mais tradicional que a do filho, uma vez que viveu momentos como a fuga da II Guerra Mundial pelas montanhas de Nikko, quando ainda era criança. Recusou sempre ser tratado como um “ser divino”, ignorou protocolos e fez questão em lutar sempre pela imagem do Japão como um país pacífico, tendo mostrado remorso pelos ataques do exército imperial japonês, durante a II Guerra Mundial.

Em dezembro, quando fez 85 anos, Akihito voltou a não esquecer os acontecimentos da Guerra e saudou uma era “livre de guerras no Japão”, uma vez que o seu reinado de 30 anos foi a única época sem guerra na história moderna do Japão. “É um profundo consolo que a era Heisei esteja a chegar ao fim e que haja uma era livre de guerras no Japão”, disse Akihito, com a voz trémula de emoção.

Ao longo dos 30 anos no trono, Akihito teve alguns problemas de saúde que o levaram a renunciar ao trono: cancro da próstata, em 2002, e uma operação ao coração em 2012. O ainda imperador casou com uma plebeia, a imperatriz Michiko, que conheceu quando praticava ténis, um dos seus desportos favoritos. Ao filho, Naruhito, incutiu o gosto pelas viagens, convenceu-o a estudar em Oxford, em Inglaterra, e sempre acarinhou o perfil mais heterodoxo do herdeiro que agora assume o lugar de imperador.

A biografia de Naruhito, o futuro imperador, não é a mais ortodoxa para o padrão dos príncipes herdeiros do Japão, tendo sido criado pela mãe, Michiko, e não pelo pessoal do Palácio Imperial, e tendo estudado no estrangeiro, em vez de ficar pelos estabelecimentos de ensino japoneses, como era tradição.

E apesar de chegar agora ao trono, os japoneses já estão preocupados com a sucessão da família imperial, uma vez que Naruhito e a sua mulher Masako têm apenas uma filha, Aiko, de 17 anos, que pela sua condição feminina não poderá aceder ao trono, deixando o lugar para o próximo na linha de sucessão, Akishino, irmão mais novo de Naruhito, e o seu filho, Hisaito, de 12 anos, único neto de Akihito.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: cpeixoto@observador.pt
Trabalho

Ficção coletiva, diz Nadim /premium

Laurinda Alves

Começar reuniões a horas e aprender a dizer mais coisas em menos minutos é uma estratégia que permite inverter a tendência atual para ficarmos mais tempo do que é preciso no local de trabalho.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)