Joseph Blatter demitiu-se do cargo de presidente da FIFA em junho de 2015, há quase quatro anos, e foi suspenso por seis anos de todas as atividades ligadas ao futebol no final desse mesmo ano. O suíço, que deixou o cargo que ocupava desde 1998 e a organização que integrava desde 1981 devido a um escândalo de corrupção – que envolvia não só a realização de eleições fraudulentas como também as atribuições do Mundial 2018 à Rússia e do Mundial 2022 ao Qatar sob suborno –, tem desde aí lutado com a própria FIFA para obter a pensão a que considera ter direito a uma declaração do organismo a declarar que não teve responsabilidade nas ações criminosas. Esta terça-feira, porém, Blatter revelou que tem pendente uma outra luta com o órgão que regula o futebol a nível mundial.

https://observador.pt/videos/programa-comentarios/blatter-e-a-fifa-um-roteiro-dos-escandalos/

Em entrevista ao The New York Times, o suíço de 83 anos contou que deixou várias dezenas de relógios topo de gama no escritório que tinha na sede da FIFA e que estes ainda não lhe foram devolvidos. De acordo com Joseph Blatter, são cerca de 80 relógios de marcas como a Patek Philippe, a IWC e a Omega que valem, todos juntos, cerca de 400 mil dólares e fazem parte de uma coleção que o suíço começou quando trabalhava na Longines. Blatter garante que os relógios têm “valor sentimental” e que se trata de um “assunto pessoal” e é por isso que vai incluir a devolução dos 80 relógios no processo judicial que está a preparar contra a FIFA – e que envolve, acima de tudo, o estabelecimento de uma pensão, a clarificação sobre o que auferia na organização e a declaração oficial de que não foi parte ativa do escândalo de corrupção, para provar que não é “um ladrão”, como explicou ao jornal norte-americano.

Blatter explica ainda que decidiu guardar os relógios no escritório da sede da FIFA, em Zurique, porque achou que estariam mais seguros do que no seu apartamento, já que vivia sozinho. No ano passado, o suíço conseguiu reaver cerca de 120 relógios depois de uma reunião com o departamento legal da FIFA e Fatma Samoura, a secretária-geral do organismo, mas não aqueles que fazem parte da “coleção de alta tecnologia”, segundo o que disse ao The New York Times. “É uma questão de respeito e eu cheguei ao fim da minha paciência. Acho que não é demasiado pedir que me devolvam os meus pertences”, disse Joseph Blatter. Em resposta, a FIFA confirma que devolveu vários relógios ao antigo presidente no ano passado e que a organização “fez o que lhe foi pedido” mas não revela se ainda existem, verdadeiramente, 80 relógios de Blatter nas instalações de Zurique.

Contudo, esta não é a primeira vez que a FIFA fica com pertences e objetos de valor que pertenciam a antigos funcionários. Chuck Blazer, norte-americano que fez parte do Comité Executivo da FIFA e foi vice-presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos até admitir ter recebido subornos para beneficiar as candidaturas de Marrocos ao Mundial 1998 e da África do Sul ao Mundial 2010, deixou um Mercedes vintage na garagem da sede de Zurique. Blazer saiu da FIFA em 2013, colaborou com o Departamento de Justiça norte-americano para condenar antigos colegas na organização e morreu em 2017 depois de se declarar culpado de extorsão, fraude e lavagem de dinheiro: o Mercedes, esse, continua nas garagens da FIFA na capital suíça.