Sem medo, usando o sorriso como arma e esperando que o mundo se ponha ao lado da Venezuela para afastar Nicolás Maduro. É esta a estratégia do presidente da Assembleia Nacional venezuelana e autoproclamado Presidente interino do país, reconhecido como chefe de Estado legítimo por vários países estrangeiros (incluindo Portugal), mas que ainda não conseguiu retirar Maduro do Palácio de Miraflores.

Isso mesmo garante Fabiana Rosales, mulher de Juan Guaidó, numa entrevista presencial dada ao jornal El Español, onde para lá dos pormenores pessoais transparece uma mensagem enviada para o exterior, pedindo ao mundo que apoie ainda mais Guaidó na sua tentativa de destruir o regime chavista.

Assumindo-se como primeira-dama venezuelana — “Sou sim, é o que diz a Wikipédia”, comenta, com humor — Fabiana Rosales declara irredutivelmente o sucesso da Operação Liberdade, muito embora a vaga de apoio dos militares que Guaidó tenha prometido nunca tenha chegado e a libertação de Leopoldo López tenha redundado num pedido de asilo na embaixada de Espanha.

Questionada sobre se a Operação não fora uma “deceção”, Fabiana, de 27 anos, recusa admiti-lo: “Tem havido muito apoio, mais apoio do que nós venezuelanos esperávamos de outros países, que é o que importa, porque somos um teste para a região”, responde. Sobre o anunciado apoio em massa dos militares que acabou por não chegar, a primeira-dama também desvaloriza, reforçando que houve apoio “de muitos militares que se passaram para o lado do Presidente Guaidó”. “O que acontece é que há uma cúpula que está com dificuldade em sair, mas os militares também nos apoiaram”, reforça.

O apelo ao apoio internacional leva a que Fabiana não exclua a possibilidade de uma intervenção militar externa, à semelhança do que tem feito o seu marido em várias entrevistas ao longo das últimas semanas. “Todos os cenários, todas as opções, estão em cima da mesa”, afirma, antes de elencar os vários pilares com os quais estão a trabalhar:

A sociedade civil, os militares dentro da Venezuela, os poderes públicos, a luta internacional, o levar uma mensagem à comunidade internacional como temos feito… Continuamos a avançar com todos os cenários.”

Interrogada sobre o que pensa do Presidente norte-americano Donald Trump, Fabiana não concede grandes pormenores pessoais, mas acaba por explicar que já se encontrou pessoalmente com o chefe de Estado norte-americano, bem como com a sua filha Ivanka Trump, a primeira-dama Melania, o conselheiro de Segurança John Bolton e o vice-presidente Mike Pence. A mensagem de todos, garante, é a de “apoio à luta pela liberdade na Venezuela”.

Guaidó admite intervenção militar contra Maduro quando “os aliados estiverem dispostos a dar esse tipo de apoio”

“Estamos com Deus e estamos abençoados por Deus”

“Não tenho medo”, garante Fabiana ao El Español, quando confrontada com a possibilidade de o seu marido ser preso ou até morto. “Não tenho medo, nós estamos com Deus e estamos abençoados por Deus. Todos os dias lhe peço que nos dê força, que nos dê a integridade para seguir em frente. Tenho a certeza que estamos cá por alguma razão, com uma missão muito clara e esta é uma oportunidade para avançar.”

Nem o facto de o casal ter uma filha pequena — que fará dois anos em breve — parece assustar Fabiana. À filha Miranda, assegura, explicam que Maduro “é um ditador e é mau” e que o pai é “o Presidente que está a trabalhar pela Venezuela”. “E ela cada vez que vê o pai no meio de um grupo de pessoas diz ‘Sim, é possível! Sim, é possível!” ou então ‘Li-ber-dade'”, garante. As armas da família, diz Fabiana ao diário espanhol, é o sorriso. “Sorrir à ditadura é um ato de rebeldia e para atacar este regime é preciso sorrir todos os dias. Esta é a nossa mensagem diária e é isso que fazemos até com a Miranda”, assegura.

Com os olhos do futuro, e nunca descolando da mensagem do marido, Fabiana volta a revelar que a aposta é a de focar na comunidade internacional, esperando que o apoio externo engrosse:

Este não é um tema de esquerda ou direita, o tema da Venezuela é um tema da humanidade”, afirma. “Todos aqueles que hoje falam em nome da Venezuela é porque têm humanidade no seu coração e querem que a ditadura acabe, querem trazer a liberdade, querem que a fome acabe, que as crianças deixem de morrer em hospitais.”

O objetivo final, explica, é o de “construir um país de oportunidades” e que a Venezuela volte a ser “o país do petróleo, dos minerais, do turismo, das mulheres que vencem concursos de beleza em todo o mundo, dos jogadores bem-sucedidos, das telenovelas que se vendiam a nível mundial”, resume.