Futebol

Crónica sobre um campeão: um morto, dois coxos, o zarolho e os putos

19.111

Ou de como um tipo normal levou o primeiro Benfica 100% mais jovem do que o cronista à ressurreição mais improvável da história do futebol nacional.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/Getty Images

Autor
  • Alexandre Borges
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Cada campeonato tem a sua história. Assim que começa a época seguinte, tudo vai ficando turvo na nossa recordação, até sobrar somente a estatística e a ideia de que um ganhou porque foi mais forte e os outros perderam porque foram mais fracos. Mas, nas horas e nos dias seguintes, sabemos ainda que não foi bem assim. Temos bem presentes as dificuldades, as falhas e os momentos de superação. Porque o que importa em qualquer história não é ganhar por ser mais forte – isso não tem interesse nenhum – é descobrir onde e como foi buscar essa força. Nos últimos anos, o Benfica ganhou campeonatos com nota artística e outros pelo puro orgulho, arrancado das entranhas. A história da Primeira Liga 2018/2019 é um pouco diferente: é a história de como um tipo tranquilo chamou a ele os que ninguém queria e fez um campeão.

A 2 de Janeiro, o Benfica estava morto. Voltava de Portimão com a terceira derrota da época, a primeira de sempre diante do Portimonense. Um 2-0 sem discussão, consumado por dois – dois – auto-golos dos seus centrais, e acabando reduzido a dez por expulsão do seu melhor jogador, Jonas. Após a 15ª jornada, era quarto classificado, a sete pontos do líder. Luís Filipe Vieira, que tinha “visto uma luz” semanas antes e que, por isso, decidira manter Rui Vitória no comando contra tudo e todos, cedia, por fim, à vontade – diz-se – de Rui Costa e dava uma oportunidade ao treinador da equipa B, um desconhecido rapaz de Setúbal chamado Bruno Lage, cujo feito mais sonante no currículo era ter sido adjunto de Carlos Carvalhal no Swansea. Não sabíamos então – como poderia alguém saber? – que o Benfica não voltaria a perder até final do campeonato, venceria 18 das 19 partidas restantes, incluindo os jogos em casa dos três rivais, e que inclusivamente igualaria o recorde de golos marcados na história clube: 103 num só campeonato (mais 72 do que então, uma média louca de 3,78 golos por jogo).

Podem agora falar de arbitragens. Quem quiser ter um bocadinho de paciência, encontrará sem dificuldade por essa internet vídeos de muitos minutos onde se compendiam os lances em que o Futebol Clube do Porto saiu favorecido jornada após jornada. O Benfica ganhou porque foi melhor, como os confrontos diretos com os rivais para o campeonato demonstraram à saciedade. E foi o melhor não tanto por ter uma equipa de craques, mas um pelotão de miúdos e renegados.

No início desta época, os adeptos ainda se riam de Seferovic (não é forma de expressão; é literal. Jogo com o Bayern de Munique, para a Liga dos Campeões); acabou como melhor marcador da Liga. Pizzi, o “zarolho” como, com tanta originalidade e gratidão, um certo tipo de adepto gosta de o chamar ao primeiro passe errado ou perda de bola, foi o jogador com mais assistências do campeonato. André Almeida, que não contava para treinadores com muito “cérebro” e jeito para os Ferraris, acabou no Top-5 dos laterais com mais assistências para golo em toda a Europa. Samaris, esse então, estava simplesmente morto. Nem ao banco de suplentes ia. Acabou venerado pela multidão, amado como nunca antes, só batido na dimensão da ovação popular na hora de subir ao palanque da Luz pelos semideuses Félix e Jonas. (Taarabt. Até Taarabt voltou a contar.)

E, depois, houve isso. Essa questão dos miúdos.

O futebol é multinacional. A vida, o trabalho, o mundo, é ou deve ser cada vez mais multinacional. Mas sabemos que, tipicamente, qualquer coisa diferente acontece quando uma equipa tem jogadores que cresceram lá. Que sabem o que significa ganhar ou perder com aquela camisola, defrontar um rival, que rival, quanto importa não apenas como se marca, mas também como se sofre.

Insistam nesse mito à vontade: o desporto não é apenas uma questão de profissionalismo. Tem a ver com alma. É isso que explica os “liverpoois”, os Éders, alguns Benficas. Este Benfica. O André Almeida, o Samaris, o Ferro caindo de joelhos no final das últimas partidas.

Os Ferros, os Rúben Dias, os Florentinos, os Gedsons, os Joões Félix, os Jotas. Os miúdos que ganharam um campeonato que já tinha sido perdido. Podem os comentadores todos do futebol na televisão discutir os casos que quiserem. O futebol não são os comentadores nem os diretores de comunicação; o futebol é João Félix. O futebol são os Ferros. O futebol é essa lenta transmissão de testemunho entre os jogadores que através dos anos carregam a camisola com o mesmo símbolo, perante o mesmo amor do adepto. Sem oscilação. Porque crescemos a olhar de baixo para cima para os nossos heróis do desporto. Os anos passam e tornamo-nos homens e mulheres como eles. Os anos continuam a passar e, de repente, somos mais velhos do que os nossos heróis – como é isso sequer possível?

Este Benfica foi o primeiro da história deste cronista 100% mais novo do que ele. Até aqui, havia sempre um Paulo Lopes para nos aconchegar a meninice. Agora, já nem o Jonas se lembra tão bem dos anos 80 como nós. Mas que belo é descobrir que, afinal, o emblema não tem idade.

O Benfica não envelhece [Substitua, à vontade, pelo clube da sua predileção, caro leitor. A ideia é igualmente verdadeira em qualquer caso.] Sob o comando de um rapaz de Setúbal, que se apresentava no seu fato de treino e rosto tranquilo, semana após semana, como se apenas se limitasse a cumprir a função mais rotineira do mundo, não conseguiu somente a #reconquista, mas a #ressurreição.

(E as lágrimas do Jonas.)

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal)

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