Cem mil turistas, com um impacto económico de 50 milhões de euros. Entradas a serem revendidas a 10.000 euros, salas com colchões insufláveis perto do estádio a mais de 1.000 euros. Cama de casal para passar uma noite (apenas para pessoas “de respeito”) a 700 euros, um lugar de garagem para o dia a 295 euros. Um pack estranhíssimo por um valor total de 9.500 euros que tinha uma casa a 20 minutos de carro do recinto, para dez pessoas no máximo, com jogos eróticos e bar aberto todo o fim de semana. O astronómico número de 1.000.000 litros de cerveja bebidos entre sábado e domingo avançado pelo ABC faz parar e pensar a loucura que é a final da Champions mas já antes uma peça do El Confidencial tinha mostrado como vale tudo quando chegamos a este dia. Tudo e mais alguma coisa: cerca de 50 adeptos sem entrada no Wanda Metropolitano tentaram aceder ao interior do palco de todos os sonhos e emoções através da zona de imprensa, saltando barreiras, como mostrou a Marca. Do início ao fim, este é o reino dos excessos. Mas a culpa, numa versão meramente idílica do fenómeno, é das equipas.

Liverpool vence Tottenham na final e conquista a Liga dos Campeões 14 anos depois (0-2)

A chegada de Tottenham e Liverpool ao encontro mais importante da época foi o último capítulo de duas histórias de encantar. E não, aqui não falamos apenas da forma como cada uma conseguiu o apuramento em duas meias-finais épicas, com reviravoltas que desafiaram a lei da impossibilidade da forma mais pura que uma partida pode ter: jogando futebol. Os ingleses não têm “os” melhores jogadores do mundo, que andam agora entre Espanha (Lionel Messi) e Itália (Cristiano Ronaldo). Também não têm épocas onde ganhassem muitas competições – aliás, até agora nada tinham conseguido. E não têm ainda aquele histórico recente que permitisse colocá-las entre as favoritas a chegar a este patamar. No entanto, com muito mérito dos treinadores à mistura, cumpriram os seus sonhos fiéis a uma identidade de jogo que se tornou case study ao longo desta semana. Com isso, aumentaram os sonhos de milhares e milhares de seguidores. Aumentaram tanto que multiplicaram os excessos.

Em campo, não houve excessos (à exceção de uma invasão de campo ainda na primeira parte, que obrigou a uma curta paragem no encontro). Pelo contrário, em alguns momentos sentiu-se até escassez. O Liverpool chegou à final da Liga dos Campeões com um dos mais memoráveis encontros da sua história em Anfield frente ao Barcelona (4-0) e voltou a sagrar-se campeão europeu 14 anos depois num dos encontros da temporada onde teve menos remates, oportunidades ou situações de perigo. Essa é uma das maiores diferenças entre a final perdida em 2018 e a final ganha em 2019: mesmo nos dias em que o ataque não alcança o heavy metal que Klopp quer, Alisson (contratado no último verão) e Van Dijk (que estava apenas há seis meses no clube na altura do jogo com o Real Madrid) são maestros de uma defesa que parece uma orquestra. A perder desde o arranque da partida, o Tottenham teve 15 minutos onde ameaçou o empate por mais do que uma ocasião. Não conseguiu, por mérito do guarda-redes brasileiro e do defesa holandês. Depois, os astros alinharam-se com o suplente Origi e escreveram no seu “You’ll Never Walk Alone”: depois de uma época onde ficou a dois pontos do título, o Liverpool ganhou a Champions.

Ficha de jogo

Mostrar Esconder

Tottenham-Liverpool, 0-2

Final da Liga dos Campeões

Wanda Metropolitano, em Madrid

Árbitro: Damir Skomina (Eslovénia)

Tottenham: Llloris; Trippier, Alderweireld, Vertonghen, Danny Rose; Winks (Lucas Moura, 66′), Sissoko (Eric Dier, 74′); Dele Alli (Llorente, 81′), Ericksen, Son e Harry Kane

Suplentes não utilizados: Vorm, Gazzaniga, Aurier, Sánchez, Wanyama, Walker-Peters, Foyth, Lamela e Davies

Treinador: Mauricio Pochettino

Liverpool: Allisson; Alexander-Arnold, Van Dijk, Matip, Robertson; Fabinho, Henderson, Wijnaldum (James Milner, 62′); Salah, Mané (Gomez, 90′) e Firmino (Origi, 68′)

Suplentes não utilizados: Mignolet, Kelleher, Lovren, Moreno, Brewster, Sturridge, Lallana, Oxlade-Chamberlain e Shaqiri

Treinador: Jürgen Klopp

Golos: Salah (2′, g.p.) e Origi (87′)

Ação disciplinar: nada a registar

Esta semana, Mauricio Pochettino tinha sugerido à UEFA e ao Liverpool uma pequena correção num “formalismo” de qualquer final: em vez de serem apenas os 11 titulares a tirarem a fotografia antes do apito inicial, deviam ser pelo menos os 23 que figuram na ficha de jogo. Mensagem? Destacar que tudo faz parte de um trabalho coletivo e promover também esse espírito para fora. O desejo foi acatado (esta noite com um momento triste depois disso, quando se celebrou um minuto de silêncio pelo antigo internacional espanhol José Antonio Reyes, falecido este sábado aos 35 anos num acidente de viação) mas o argentino quase que parecia estar a preparar um das decisões mais complicadas que teria de tomar: deixar no banco o herói de Amesterdão, Lucas Moura, aquele que Eriksen disse nessa noite merecer uma estátua, para a entrada do capitão Harry Kane. Também Klopp, que um mês depois voltou a ter Firmino e arriscou o brasileiro de início em vez de Origi, o belga que marcou dois golos ao Barcelona, teve esse mesmo problema, mas a menor escala. O bem do coletivo deve sempre superar o mérito individual, pensaram. Mas o demérito individual prejudica sempre o bem do coletivo, como se viu com apenas 25 segundos de jogo.

O Tottenham mal tinha tocado na bola e já estava a perder: num lance em que Sadio Mané até teve tempo para acelerar até à linha mas preferiu fazer uma pausa ao perceber que estava desacompanhado na iniciativa atacante, o senegalês procurou o cruzamento e acabou por ver o braço do francês Sissoko cortar a bola na área, após um primeiro desvio no peito. Damir Skomina não teve dúvidas, o VAR confirmou a decisão e Mohamed Salah deixou a primeira página de justiça divina nesta final, “vingando” a angústia pela saída precoce e em lágrimas do último encontro decisivo da Champions com um golo logo ao segundo minuto de jogo. Foi o penálti mais rápido de sempre numa final e o terceiro golo mais madrugador (contando com a Taça dos Campeões Europeus), apenas superado pelos de Mateos (Real Madrid, 1959) e de Maldini (AC Milan, 2005).

Nunca saberemos se seria mesmo assim mas é muito provável que as características do jogo tenham mudado de forma quase inconsciente nas duas equipas. Com o passar do tempo, mantendo Jürgen Klopp no comando da equipa, o Liverpool deixou de ser “apenas” uma das melhores equipas europeias nas transições ofensivas e aprendeu a jogar também como os maiores em ataque organizado. Os reds já funcionavam como o alemão gostava de dizer nas conferências ou palestras em que participava: “o melhor ponta-de-lança do mundo é a pressão quando se perde a bola”; depois, evoluíram nessa subida vertical com bola, assente em movimentos mais interiores dos três avançados que propiciam a subida dos laterais pelos dois corredores.

Nos 15 minutos após sofrer o golo, o Tottenham teve mais bola para recuperar o fôlego após o murro no estômago que sofreu logo a abrir e manteve aquela forma camaleónica de jogar que tão depressa procura as transições rápidas como quer jogar de forma organizada colocando a bola em Erikson para o dinamarquês decidir onde, quando e como atacar a baliza. Son, como já é habitual, tentou ser o elemento a desequilibrar no 1×1 pela esquerda do ataque mas nunca conseguiu encontrar as soluções que eram necessárias para criar oportunidades, o que resumiu o jogo dos londrinos a mais bola mas longe da baliza. Mérito, ainda assim, pela forma como conseguiu condicionar o Liverpool – que nunca tinha acertado tão poucos passes numa primeira parte esta temporada e que teve uma eficácia de apenas 65%, bem atrás do adversário. Alexander-Arnold (17′, ao lado) e Robertson (38′, defesa de Lloris para canto), ambos laterais, tiveram os remates de maior perigo.

Cada final tem a sua vida própria mas esta em Madrid estava sobretudo sem muita vida, pelo menos perto das balizas de Lloris e Alisson. Mais do que marcar o segundo golo, o Liverpool quis sempre guardar da melhor forma o primeiro. Mais do que marcar o seu primeiro golo, o Tottenham quis sempre encontrar a melhor forma de evitar sofrer o segundo. Se na preparação para a final havia um empate técnico apenas desempatado pela grande penalidade madrugadora de Salah, era do banco que poderia surgir algum crédito para “enganar” um caminho onde os minutos passavam e o 1-0 mantinha-se quase de forma natural.

Mesmo em vantagem, Klopp foi o primeiro a mexer. E logo em dose dupla: primeiro tirou Firmino, o mais apagado do trio de avançados da equipa e que nunca pareceu ter recuperado a 100% o andamento que levava antes da lesão, e lançou Origi, um dos heróis da reviravolta em Anfield frente ao Barcelona (58′); depois, abdicou do jogo entre linhas de Wijnaldum, um operário do meio-campo dos reds que tem muito mais virtuosismo do que parece, e lançou o experiente James Milner para fazer companhia a Henderson e Fabinho (62′). Na resposta, Pochettino mexeu e arriscou, abdicando de um médio (Wings) e lançando um avançado (Lucas Moura) para mudar também o posicionamento de um Dele Alli quase tão apagado como o “fantasma” Kane.

O último quarto de hora chegou com o Liverpool na frente pela margem mínima mas o facto de haver um jogo mais partido foi bom para o espetáculo e para a criação de situações de maior perigo junto das balizas, com James Milner a aproveitar uma jogada fantástica de Mané a ziguezaguear entre adversários até ao remate do médio a rasar o poste de Lloris (69′) e Dele Alli, num lance que passou por Son e Lucas Moura, a tentar o chapéu em jeito que ficou curto e saiu fácil para Alisson (72′). O Tottenham estava mais rápido e incisivo nas saídas rápidas e Klopp percebia esse crescimento mesmo que posicional, fazendo sinal com Mané com os quatro dedos para que o senegalês caísse mais na esquerda como Milner na direita e desenhasse um 4x4x2. Alli, depois de um cruzamento de Trippier da direita, voltou a ameaçar mas o cabeceamento saiu por cima (78′).

Van Dijk, o melhor jogador da Premier League na presente temporada, mantinha-se calmo com as incidências mas começou a engrossar a voz na liderança do Liverpool quando percebeu que a intensidade e agressividade da equipa sobre o portador de bola tinha diminuído, o que deixava os defesas mais expostos a um desenho que chegava a colocar sete unidades no último terço: os dois laterais, Eriksen, Dele Alli e os avançados Lucas Moura, Son e Kane (pouco depois, Llorente entrou para o lugar de Alli, aumentando o potencial no jogo aéreo). Só dava Tottenham, com Alisson a evitar o golo do empate a Son (remate de fora da área, 80′), a Lucas Moura (remate rasteiro na área, 80′) e a Eriksen (livre direto, 85′), antes de Origi, aproveitando uma bola morta após canto, a rematar cruzado para o 2-0 que fechou por completo as contas do encontro (87′).