Se o Presidente da República escolheu Portalegre para as celebrações do 10 de junho, (41 anos depois da cidade ter acolhido as cerimónias), fê-lo também tendo em vista o passado recente do país, sobretudo casos como os incêndios de 2017, que mostraram a necessidade “de acordar mais cedo e mais fundo para os Portugais demasiadas vezes esquecidos”. As cerimónias em Portalegre, diz Marcelo, assumem assim “o valor de um compromisso acrescido para com estes portugueses e estas portuguesas que resistem à distância física e política”.

Sendo assim, o Presidente escolheu um cidadão da terra para presidir à comissão organizadora das comemorações, João Miguel Tavares. E depois de um discurso claramente pessimista, onde se pediu aos políticos “de esquerda ou direita que nos dêem qualquer coisa em que acreditar”, e onde até a referência de Marcelo aos portugueses como os melhores do mundo foi questionada, o Presidente quis puxar pelas forças do país, embora não negasse um diagnóstico negativo.

Marcelo Rebelo de Sousa reconheceu que a frase que tem usado repetidas vezes não é consensual e justificou-o com “um complexo muito nacional que é um dos traços do nosso pessimismo, que não aprecia, por considerar primário ou exorbitante, o que tenho repetido: que quando somos muito bons somos dos melhores dos melhores”.

Ainda assim, o Presidente da República ouviu no discurso do homem que escolheu para presidir às celebrações do 10 de junho, uma “voz iconoclasta“, de “diferença, inconformismo, sinal de desejo profundo de mudança e horizontes ambiciosos”. E admitiu que foi por isso mesmo que o escolheu, para sublinhar alguns dos problemas que afetam o país:

Não podemos nem devemos omitir ou apagar os nossos fracassos coletivos, os nossos erros antigos ou novos. Não podemos nem devemos esquecer ou minimizar insatisfações, cansaços, indignações, impaciências, corrupções, falências da justiça, exigências constantes de maior seriedade e ética na vida publica”, disse o Presidente.

Mas Marcelo quer mais do que isso. E pediu que “ao menos no dia de Portugal admitamos também que somos muito mais do que fragilidades ou erros. E é por sermos muito mais que fragilidades ou erros que temos esta historia de mais de 900 anos, que temos das comunidades mais inclusivas e coesas, apesar das desigualdades, que temos o mérito que os outros nos reconhecem mesmo quando nós hesitamos em nele nos reconhecermos”.

Sem surpresas – afinal este é o discurso do dia de Portugal –,  o Presidente da República puxou pelos feitos do país que está a menos de três décadas de fazer 900 anos: “Não há muitas nações do mundo assim. Resistimos à perda de independência. Resistimos às crises. Às crises económicas, financeiras, sociais e políticas. Resistimos aos erros e fragilidades. E não só sobrevivemos como queremos apostar no futuro”.

E esse futuro, que de acordo com Marcelo Rebelo de Sousa é “o nosso propósito cimeiro”, passa por preservar “a nossa identidade nacional, a nossa abertura ecuménica aos outros”, mas também por nos obrigar “a uma maior capacidade para anteciparmos as mudanças, para reforçarmos o orgulho de sermos portugueses”.

Marcelo diz que “não temos complexos quanto ao nosso passado, todo ele, o melhor e o pior, todo ele foi Portugal”, mas quer um futuro “muito mais justo, muito mais solidário, muito mais humano do que o passado que honrámos e o presente que construímos”.

Depois dos desfiles dos vários ramos das Forças Armadas em Portalegre, sob o aplauso de centenas de pessoas que pintavam também as ruas da cidade com as cores das bandeiras nacionais que empunhavam, pouco tempo sobrou a Marcelo para responder a questões dos jornalistas ou para os habituais cumprimentos e selfies à população – mantendo-se fiel ao protocolo nestas comemorações do 10 de junho -, já que o Presidente da República e o primeiro-ministro seguiram para Cabo Verde.

As comemorações do Dia de Portugal continuam ainda esta segunda-feira na Cidade da Praia, na ilha de Santiago, e terminarão na terça-feira, depois de nova viagem, até à ilha de São Vicente, no Mindelo, naquilo que Marcelo Rebelo de Sousa considera ser “uma oportunidade de aproximar os portugueses, os emigrantes e os Portugais”.