Futebol

A apresentação de “eu show Jesus” no Flamengo: a evolução do futebol, os cinco momentos e a “fuga” de Gabigol

Jorge Jesus vai estrear-se a 10 de julho com o Athletico Paranaense mas já viu treinos e jogos do Flamengo. Pelo meio, teve a apresentação oficial. E falou do currículo, do futebol atual e de Gabigol.

Jorge Jesus viu o Fluminense-Flamengo ao lado de Marcos Braz, diretor de futebol do novo clube

Getty Images

O anúncio a apelar ao sócio-torcedor para se fidelizar ao clube, a chuteira da marca que patrocina a equipa ao centro da mesa, muita expetativa. Jorge Jesus, enquanto ajeitava os ombros para ficar com o blazer à medida, ia olhando para a sala e para todos os jornalistas presentes. Entre eles portugueses, que conhecia. A conferência de apresentação do técnico no Flamengo, depois do empate da equipa com o Fluminense que já teve o português nas bancadas a assistir, foi o primeiro grande momento do antigo treinador do Al Hilal, da Arábia Saudita, no clube e Jesus não deixou os créditos por mãos alheias nesta nova aventura.

Considerado o maior clube do Brasil, são muitos os nomes que passaram pelo comando da equipa que são conhecidos (mais ou menos, depende das gerações) entre os portugueses. Como Gentil Cardoso, que treinou o Sporting em 1963/64 depois da nega de Bella Guttmann e que, não chegando ao final dessa temporada (seria substituído por Anselmo Fernandez), esteve na campanha que valeu aos leões a Taça dos Vencedores das Taças. Ou Sebastião Lazaroni, que orientou o Marítimo em 2007. Ou Abel Braga, antecessor de Jesus que esteve no Rio Ave, no Famalicão, no Belenenses e no V. Setúbal entre os anos 80 e o início da década de 90. Ou Paulo Autuori, que passou por V. Guimarães e Nacional antes de fazer história no Marítimo e chegar ao Benfica. Ou Ricardo Gomes, Silas ou Deivid, todos ex-jogadores que atuaram na Liga portuguesa. Portugueses antes no Flamengo, apenas um: Cândido de Oliveira, uma das figuras mais importantes do futebol nacional no século XX, que além de ter sido selecionador comandou equipas como FC Porto, Sporting, Académica ou Belenenses além do Mengão, em 1950.

“Hoje é um dia muito feliz para o Flamengo, a apresentação do novo técnico Jorge Jesus. O histórico do Jorge fala por si próprio, técnico renomado, experiente, campeão, com experiências nas competições internacionais. Jorge, boa sorte! A nação inteira rubro-negra tem uma expetativa enorme. A responsabilidade é nossa, conjunto, do mesmo tamanho”, referiu Marcos Braz, diretor do futebol do Flamengo, antes de pouco mais de meia hora do português no primeiro contacto com a nova realidade, onde destacou o currículo com que chega ao Brasil e o talento dos jogadores que irá encontrar no clube.

“Tenho muito prazer em estar pela primeira vez a conversar com vocês. Tenho muita honra de ter sido convidado por este grande clube. Vejam que já está a mudar alguma coisa, vejo aqui várias televisões portuguesas na apresentação, o que mostra o interesse que já está a despertar em Portugal. Principalmente o que quero é apresentar o meu trabalho como treinador do Flamengo, o meu currículo está escrito. Tem alguma importância porque antes de começarem a trabalhar os treinadores vivem do seu currículo. Como toda a gente sabe, sou o treinador em Portugal que mais títulos ganhou. Como é que me querem designar? O meu nome é Jorge Jesus e o meu testemunho é apresentado no trabalho”, salientou, prosseguindo: “Vamos esperar o que fiz onde chego: tenho apresentado trabalho. Temos revolucionado, no sentido em que as minhas ideias são diferentes, mas não venho revolucionar nada, venho apresentar o conteúdo do meu trabalho, o que fiz nos últimos dez anos de carreira que treinei as duas maiores equipas de Portugal, que são três. Numa cheguei, há muitos anos que não ganhava títulos, depois começou a ganhar tudo, tem a hegemonia do futebol português e é isso que vou fazer no Flamengo”.

“Temos 20 dias para apresentar um trabalho até começarem os jogos. Vamos apresentar uma proposta aos jogadores, explicar as nossas ideias, os conceitos e a metodologia do treino. Não é novidade nenhuma. Houve um canal brasileiro que fez uma estatística a dizer que tinha trabalhado com 156 jogadores brasileiros, nem sabia… Conheço-os bem, são ótimos profissionais, têm muito talento e quero partilhar com eles a qualidade deles e o nosso trabalho”, destacou ainda, sobre um trabalho que juntou todos os jogadores brasileiros que teve ao longo de quase 30 anos, ao mesmo tempo que deu o primeiro “cheirinho” numa parte mais “técnica”: “O futebol tem duas componentes: quem organiza e quem desorganiza. Aqui é que está a diferença, entre quem depois de se desorganizar saber organizar bem. Aqui é que está a diferença dos técnicos uns com os outros”.

Mais tarde, destacando que já tinha por hábito ver todos os jogos do Campeonato brasileiro antes de surgir esta oportunidade, Jorge Jesus deu algumas achegas sobre a forma como vê o futebol na atualidade e revelou também uma história curiosa com Gabriel Barbosa, ou Gabigol, avançado do Flamengo que esteve no Benfica mas que foi sondado pelo Sporting.

“Essa questão de como vamos jogar leva-me a falar um bocadinho do que é o jogo e o treinador tecnicamente. Para lhe apresentar uma ideia de jogo, tenho de falar de várias vertentes da tática e do sistema. Tenho um conceito, uma ideia de jogo. Mas hoje a evolução do futebol não é teres uma ideia de jogo, é teres muitas ideias de jogo, hoje a evolução do futebol é durante o jogo teres vários sistemas. Isso é que vai ser a evolução no mundo do futebol. Não é fácil mas alguns técnicos já estão a fazer. Vou meter algumas variantes, gostamos de jogar com um primeiro e um segundo avançado, mas há métodos de trabalho defensivo e ofensivo. Sabem que no futebol há cinco momentos de jogo, certo? Acho que sim. Portanto, há cinco momentos de jogo onde os jogadores têm de saber o que fazer em cada um deles”, destacou.

“Uma das minhas opções para escolher o Flamengo foi a língua. Vocês dizem elenco, nós dizemos plantel, há aqui uns adjetivos com os quais ainda me tenho de identificar… Conheço o elenco do Flamengo, todos os jogadores, porque vejo todos os jogos do futebol brasileiro em minha casa. Não sei se é fazer publicidade mas o PFC dá os jogos todos. A partir do convite é óbvio que me debrucei mais no Flamengo. Quando conversámos já havia posições que era preciso reforçar, acrescentei mais uma que podem ser duas e estamos em sintonia. No futebol, a minha inspiração são os jogadores e a minha paixão é o futebol. Zico? Sei que foi um grande ídolo do Flamengo, do ‘Mengão’, tive a oportunidade de estar com ele em Portugal porque foi visitar a Academia do Sporting. Falámos muito do futebol português, brasileiro e formação. O Júlio César veio no meu último ano de Benfica, não quero falar do resultado porque é muito triste para o Brasil, com a Alemanha, tivemos uma conversa sobre isso. Como jogador não é preciso falar, vocês se conhecem. Tenho uma carreira de 29, vai para 30 anos, e fui dos pequeninos ao topo”.

“Tive oportunidade de relançar alguns jogadores brasileiros, como o David Luiz, o Ramires [que identificou como Ramiro], o Luisão, o Talisca que saiu daqui desconhecido e hoje todos os clubes da Europa o querem, e que também veio à seleção… Fomos habituados a ter muitos jogadores brasileiros e muitos treinador brasileiros. O Felipão [Luiz Felipe Scolari] esteve na final de uma Copa, toda a gente o admira. O futebol brasileiro tem muita técnica, os jogadores brasileiros têm muito talento e por norma chegam mais fortes à seleção pela metodologia de treino e pela tática… Mas não são todos os treinadores, também há aqueles que disto percebem pouco. Tudo isso faz com que seja fácil trabalhar com jogadores brasileiros. Antes fui jogador, joguei no Sporting, grandes e pequenos, estive numa equipa onde no onze era eu e o keeper portugueses e o resto brasileiros. Gabriel Barbosa? O Gabigol estava no Inter, que tinha contratado um jogador por 45 milhões ao Sporting… Agora esqueci-me do nome dele… o João Mário, o João Mário! Eles eram amigos, disse que queria vir para Portugal, pediu para entrar em contacto, falei com ele para vir para o Sporting mas acabou por ir para o Benfica”, concluiu, assumindo ainda a necessidade de montar uma equipa que ganhe mas que tenha igualmente nota artística no que faz “porque a cobrança é muita”.

Jesus não trabalhou antes com nenhum jogador do Flamengo mas falou com Gabigol no ano passado (Bruna Prado/Getty Images)

Com a paragem das provas durante a realização da Copa América, que arranca esta sexta-feira com o Brasil-Bolívia, a estreia de Jorge Jesus no comando do Flamengo está marcada para 10 de julho com o Athletico Paranaense, a contar para a primeira mão dos quartos da Taça de Brasil que terá o segundo encontro logo na semana seguinte.

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