Os playoffs até começaram da pior forma com uma derrota caseira mas a primeira série acabou por ser superada com 4-1 frente aos Orlando Magic. Seguiram-se as meias-finais de Conferência, com a vantagem alternada com Philadelphia 76ers até ao sétimo e último encontro decidido com um lançamento no derradeiro segundo de Kawhi Leonard que bateu quatro vezes no aro antes de entrar. Depois, uma entrada com dois desaires na final de Conferência, o terceiro jogo com os Milwaukee Bucks a ser decidido por seis pontos após dois prolongamentos e um triunfo por 4-2 que valeu o primeiro título e uma inédita presença na final da NBA. Após o segundo lugar na fase regular, os Toronto Raptors andaram sempre num limbo nas eliminatórias. Ganharam. Ganharam. E ganharam mais uma vez. Mas ainda havia mais uma página de história para ser escrita.

Puxemos o filme um ano atrás: naquela que foi a época com mais vitórias na fase regular dos Raptors (59), o que lhe valeu o primeiro lugar na Conferência Este para os playoffs, a equipa ainda conseguiu eliminar os Washington Wizards por 4-2 mas foi afastado de forma precoce nas meias-finais pelos Cleveland Cavaliers de LeBron James por 4-0. Apenas cinco anos antes, a formação canadiana nem sequer conseguia uma vaga entre os oito melhores de Este. Melhorou, saltou para a casa das mais de 40 vitórias na fase regular, fez depois três anos acima das 50. O problema era sempre o mesmo: quando se chegava à altura da verdade, tudo se transformava quase numa “mentira”. Dwane Casey, o treinador que elevou o rendimento da equipa de Toronto, saiu. Mas esta não foi a única mudança. E se recuarmos ao último defeso, ninguém antevia um futuro melhor.

A começar pelo técnico, a opção acabou por recair num adjunto de Casey, Nick Nurse, que passara mais de uma década na Europa entre universidades e equipas da D-League. Não sendo um tiro no escuro, também não era uma escolha que tivesse à partida muita luz para o exterior. A seguir, a grande bomba: DeMar DeRozan, grande figura da equipa nos anos anteriores que chegou quatro vezes a All-Star, foi trocado com Jakob Poetl para San Antonio, com os Spurs a enviarem no sentido inverso Kawhi Leonard e Danny Green, além de uma escolha no próximo draft. No último dia de transferências, mais um negócio com grande impacto chamado Marc Gasol, que chegou por troca de Delon Wright, Jonas Valanciunas, CJ Miles e uma escolha em 2024.

Os Raptors tornaram-se a primeira equipa da história da NBA a chegar à final sem um único jogador escolhido no top 10 do draft do seu ano, sendo Leonard o mais alto nesse particular quando foi eleito pelos Indiana Pacers em 2011 na 15.ª posição. E alguns, como Jeremy Lin ou a grande surpresa deste playoff, Fred VanVleet, nem sequer chegaram a ser escolhidos no draft. Outros, como Kyle Lowry ou Serge Ibaka, reforçaram a equipa em trocas que envolveram jogadores e escolhas futuras no draft. Sem a sua grande referência (e dos adeptos, que tinham em DeRozan um ídolo num patamar onde apenas Vince Carter tinha chegado) e com um conjunto feito de opções às vezes difíceis de entender, Leonard agarrou na batuta e tornou-se a figura principal da grande revelação da temporada, capaz de surpreender em cada jogo, período e jogada com uma cidade ao lado. E com efeitos inimagináveis, que podem ser personalizados num episódio caricato que envolve a cadeia McDonald’s.

Numa ação de promoção, a equipa contratualizou com os Raptors que iria oferecer na cidade um pacote médio de batatas fritas sempre que a equipa marcasse 12 ou mais triplos, número “fechado” tendo em conta a média de 2017/18 que era de 11,8. Entre fase regular e playoff, aconteceu cerca de 50 vezes. Até aqui, tudo dentro do business plan; o que não estava nas contas era o número de pessoas que iriam aproveitar esse brinde, com cerca de 2,1 milhões de pedidos (só no jogo 1 da final foram 80 mil) quando estavam projetados apenas 700 mil, o que valeu um prejuízo superior a cinco milhões de euros. A ideia do “We The North” tornou-se uma identidade e esta equipa tornou-se um verdadeiro fenómeno em Toronto, como se viu não só nas casas cheias na Scotiabank Arena mas também nos milhares de fãs que encheram o Jurassic Park, uma Fan Zone para quem não tinha bilhetes (e que esta madrugada voltou a encher apesar da muita chuva que se fazia sentir).

Numa final de loucos, onde os Raptors se deixaram surpreender em casa no jogo 2, foram à Califórnia ganhar duas vezes seguidas mas falharam a possibilidade de fechar o título em casa, o sonho concretizou-se na Oracle Arena com um triunfo por 114-110. É certo que, depois de ter perdido Kevin Durant por uma grave lesão contraída no encontro anterior, também Klay Thompson voltou a ter problemas físicos e Stephen Curry falhou onde nunca falha. No entanto, a formação de Toronto voltou a dar mais uma prova coletiva de que dificilmente não fecharia esta época com o título: Lowry (primeira parte) e Siakam (segunda metade) marcaram mais pontos do que a estrela Leonard; Fred VanVleet saltou do banco para fazer 22 pontos enquanto Danny Green não conseguiu nem um para a amostra em 18 minutos; entre os postes espanhóis, o suplente Ibaka jogou menos tempo do que o titular Marc Gasol mas foi mais influente nos lançamentos do que nos ressaltos, como costuma acontecer (15-3).

Depois, foi a festa. Em Oakland com a equipa, em Toronto entre adeptos – sobretudo todos aqueles que voltaram a encher o Jurassic Park. Durante largas horas milhares e milhares de pessoas estiveram na rua mas o melhor das celebrações ainda está para vir, quando a equipa chegar ao Canadá e fizer depois o desfile pela cidade. No final de tudo, valeu a pena.