Se calça o 42, já sabe. É incrível como uns patins de gelo de 1970 da Adidas continuam a deslizar por este século, impecáveis, reclinados num canto à espera de novo dono. “Tem a ver com a qualidade. Seria impossível certas coisas existirem hoje se não tivessem qualidade”, nota Mercedes Cerón, enquanto passamos em revista boa parte do recheio nos metros quadrados outrora ocupados por uma antiga gráfica, recém convertida num novo conceito.

É difícil não reparar no raro candeeiro com assinatura do arquiteto dinamarquês Arne Jacobsen, saído da sua fábrica, com a luz em camadas — “assemelha-se a um edifício com vários pisos” — ou na austeridade do desenho, robustez, e rigor funcional de um candeeiro de rua da República Checa. “Recuperei todo e mandei fazer um pé. Chamo-lhe o Gulliver ou ervilha porque parece um bebé grande”, descreve a arquiteta. Cabe tudo nesta NAVE, que acaba de aterrar numa travessa do Príncipe Real, em Lisboa, e que acolhe criações tão versáteis como a montra com rodinhas, a cortina que abre e fecha, a estante feita por Mercedes com o ferro que se usa para fazer betão armado ou a espaçosa mesa de reuniões com um tampo em pedra originalmente usada na remodelação de uma obra no hotel Vintage — já agora, tome nota que este recanto está disponível para alugar.

Aceder a este espaço é garantir uma viagem por diferentes fusos da História. Por um lado, o presente e o futuro desfilam na galeria de exposições, logo à entrada, por outro, passeamos pelo século XX, numa cápsula recheada de objetos de design que podem ir morar lá para casa; peças que fascinam, como muitas das que forram as casas dos avós e bisavós. “Será que convivemos hoje com demasiada informação gráfica e estética que nos puxaram o tapete? Existe uma falta de referência que procuramos em objetos de conforto. Tenho objetos em casa que me acompanham há 25 anos”, nota a também curadora, que a partir daqui irá orientar investidores experimentados e novos compradores, outro dos serviços desta nova casa que divide com o marido, Diogo Conceição, responsável pela produção gráfica, e com Ana Maria Sobreiro, ao leme da Alight, que representa várias marcas de iluminação, um ponto-chave para controlar ambiências e a função de cada espaço.

As origens e o conceito deste “ovni”

A viagem começou na rua Rodrigues Sampaio, onde a equipa funcionou até há bem pouco tempo num sexto piso com uma varanda “fantástica”, mas ainda assim sem exposição de rua – e sem nome, nessa fase em que a NAVE parecia andar ainda em trânsito. “O nome surgiu com uma amiga nossa, que sugeriu um espaço para nos juntarmos. Além de nos transportar, a NAVE é a nave de arquitetura, que abraça as outras atividades como um todo, no sentido de coabitação”. A designação permite ainda fazer a ponte com a língua castelhana, segundo a qual “nave” equivale a uma armazém ou pavilhão industrial (bilingue e com dupla nacionalidade, Mercedes descende de um português e de uma espanhola, daí a referência oportuna).

“Tenho um histórico de galeria e fazia todo o sentido retornar. Sou arquiteta de profissão e sempre estive muito ligada às artes”, define Cerón, recordando o processo de transição. “O prédio onde estávamos foi mais um vendido, tínhamos algum tempo para fazer a mudança, mas deixou-me inquieta. Procurei espaço e surgiram estas duas lojas, que viemos ver em fevereiro. Precisavam de muitas obras, fora uma gráfica durante 40 anos. Tinha uma luz fantástica. Ia muito ao encontro do que tínhamos idealizado. Espaço de galeria, espaço para trabalhar; este é um acervo que tenho vindo a adquirir ao longo dos anos e que queria mostrar”.

O proprietário gostou do projeto, as obras avançaram, e em dois meses o resultado final nasceu. A 1 de maio instalaram-se por fim, com o conforto que aliás deve assistir a experiência com cada um dos objetos que por aqui se encontram. Aviso à navegação: não tenha medo de se sentar numa das cadeiras exposta. “Acredito que o design funcional, como em todos os objetos aqui, foi concebido para ter uso. Era essa também a minha vontade, sobretudo tornando acessíveis alguns objetos difíceis de encontrar. Ainda há um certo bloqueio, e então se dissermos que aquela cadeira foi desenhada em 1948 a pessoa pensa logo que se tocar vai estragar. Damos um valor comercial mas quem o compra é que vai valorizar o objeto, porque vai perpetuar no tempo”, defende Mercedes.

Flamenco, esculturas e luz

Sendo a zona reservada a galeria “uma total paixão”, rapidamente a que a agenda foi preenchida com os primeiros nomes. Até 29 de junho é possível conferir o trabalho de Fátima Moreno, espanhola com ligações a Granada, cujas ilustrações recuperam as origens do flamenco entre uma série de outras referências do quotidiano. “Não é a versão clássica das galerias de arte mas também não é aquele espaço que cedemos sem critério. Gosto de fazer as coisas com seriedade e tenho que conhecer e identificar-me com o artista”, justifica Mercedes.

Trabalho de Fátima Moreno © Instagram

A portuguesa Branca Cuvier será o próximo nome em destaque. A partir de 19 de setembro a artista fará uma pausa no desenho para retomar a tridimensionalidade, com uma série de esculturas de parede, reforçadas por uma componente mais visual e sensorial. Em dezembro, novo salto ao país vizinho, com o enfoque nas esculturas de luz de Arturo Alvarez, naquele que é mais um ensaio a provar a total compatibilidade entre mundos, um dos eixos da NAVE. “Nos anos 60 e 70 fizeram-se belíssimos edifícios onde o arquiteto chamava artistas plásticos, pintores, escultores. Isso perdeu-se. Tornámo-nos mais egoístas e vaidosos na nossa profissão. Mas o meu trabalho pode brilhar mais se for partilhado com outros. Todos saímos mais realizados. Para mim não faz sentido desenhar arquitetura se ela não tiver espaço para outras artes.”

Uma cápsula do tempo das centenas aos milhares

Se as propostas artísticas são contemporâneas, a loja vive de facto de um outro tempo, fértil nas vanguardas e durabilidade. “Aqui é tudo do século XX, falamos de autores que já faleceram. Evidente que há grande marcas como a Artemide que continuam a produzir peças, mas estamos a falar do objeto da época, não de reedições. Se o designer o desenhou em 1950 esta é a primeira edição do objeto. Isso tem um encantamento”.

Do norte da Europa ao leste, sem esquecer “uns candeeiros de Siza Vieira que virão para aqui depois de alguns reajustes”, passando ainda por peças de cerâmica da Secla ou uma chaleira Rosenthal de 1959, não faltam soluções, que contagiam um tipo de cliente maioritariamente estrangeiro, a contra ritmo da comercialização massiva e do design efémero. “Continua a haver mais vontade e sensibilidade no mercado estrangeiro. Evidente que também existe disponibilidade económica, mas mais uma vez persiste o tabu de que a arte significa grandes investimentos. A arte é um grande investimento no futuro para quem o vê assim. Há belíssimos investimentos que não são um balúrdio.”

A cada trimestre uma nova mostra. No lado contíguo à galeria, encontra as peças de design escolhidas a dedo por Mercedes Cerón © João Porfírio

Certas peças são fáceis de entrar pela vista e de escoar, algumas permanecem um mês na loja, outras até já chegam com dono. “Tenho um investidor português que me pede isto ou aquilo para a sala. Muitas vezes envio-lhe fotos, apresento valores e é extremamente recetivo. Sabe que tudo o que aqui tenho são peças de autor, verdadeiras. Muitos dos modelos vêm até das fábricas dos designers. Há essa confiança que vão depositando. Também há peças anónimas às quais reconheço valor e qualidade de execução.

Quanto a preços, começam nos 200 euros e de momento podem chegar aos 6 mil, se falarmos das telas retroiluminadas com dimensões generosas. Uma das cadeiras-sensação, que raramente escapa à foto para as redes sociais, ronda os 850 euros. Já o candeeiro-pêndulo que roda 360 graus ascende aos 2500 euros, para um regresso aos anos 70 em grande estilo.

NAVE, Travessa do Noronha, 11B, Lisboa. Dias úteis das 12h às 19h e sábados das 15h às 20h.