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Fogo de Pedrógão Grande

Pedrógão Grande. Maioria da floresta continua ao abandono

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Os proprietários sentem-se esmorecidos e sem vontade de investir, os eucaliptos crescem sem qualquer gestão e as acácias ganham terreno, dois anos após o grande incêndio de Pedrógão Grande.

PAULO NOVAIS/LUSA

Os proprietários sentem-se esmorecidos e sem vontade de investir, os eucaliptos crescem sem qualquer gestão e as acácias ganham terreno, dois anos após o grande incêndio de Pedrógão Grande.

Na estrada nacional 236-1, onde morreram a maioria das vítimas do incêndio de 17 de junho de 2017, vão despontando acácias perto da estrada. Nas vias transversais que ligam a aldeias como Nodeirinho, Vila Facaia ou Moita, assiste-se a uma regeneração desordenada de eucaliptos junto ao alcatrão, para além de montes ainda cheios de árvores queimadas de pé, que fazem perdurar uma tonalidade acinzentada e acastanhada a uma parte considerável da paisagem da região.

Há um ano, o especialista em ciências florestais Joaquim Sande Silva alertava que, caso não houvesse gestão da floresta, o risco de incêndio na zona afetada pelo grande incêndio poderia vir a ser maior, face a um aumento da densidade do combustível gerado, especialmente pela regeneração natural dos eucaliptos.

Dois após o incêndio, o panorama não mudou, apenas o tamanho dos eucaliptos, que já atingem os três ou quatro metros de altura.

“Os proprietários continuam muito esmorecidos e com pouca vontade de desenvolver projetos ou ideias. A floresta, essencialmente, está ao abandono. Uma grande parte dela continua ao abandono”, resume o presidente da Associação de Produtores Florestais de Pedrógão Grande (APFlor), Jorge Fernandes.

As árvores queimadas que se mantêm de pé dificilmente serão removidas, que os proprietários não têm dinheiro para as retirar e, face ao incêndio, muitos estão sem rendimento para gerir a regeneração natural dos eucaliptos, para além de estarem a braços com um “avanço das acácias”, conta.

“A reflorestação com outras espécies só vai ser possível quando vierem apoios a longo prazo para manter o investimento e as propriedades limpas dignamente”, vincou, considerando que, enquanto não houver apoio, “poucas pessoas quererão ir por esse caminho” de investir em espécies de crescimento lento.

Das candidaturas tratadas pela APFlor após o incêndio, 80 hectares foram para a renovação de áreas de eucalipto, quatro hectares para sistemas de agrofloresta e 12 hectares para medronheiro, castanheiro, oliveira, nogueira e marmeleiro.

Estas últimas candidaturas mostram que há vontade dos proprietários em fazer diferente, mas, para o número ser mais expressivo, tem de surgir outro tipo de apoios, defende.

A vice-presidente da Câmara de Pedrógão Grande, Margarida Guedes, também nota essa vontade dos proprietários de alterarem o tipo de floresta, mas vinca no mesmo ponto: faltam apoios para multiplicar os pequenos exemplos de plantações de folhosas.

“Em territórios pobres como o nosso não se pode pensar que o pequeno proprietário, idoso, empobrecido, consegue investir”, salienta, apelando a uma intervenção de fundo da tutela.

Para Gonçalo Brás, da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, o projeto-piloto do cadastro é um primeiro passo para uma reconversão florestal do território. Considera também que “não vale a pena pensar em projetos de reflorestação sem se saber quem são os proprietários”.

Já Domingos Patacho, que coordena a área das florestas na Quercus, esperava uma mudança nestes dois anos que, diz, “não ocorreu”.

“Qualquer pessoa vê que a paisagem está a mudar para pior. O que está a ocorrer? Grande parte da área foi cortada e entrou em regeneração natural e há eucaliptos e pinheiros ardidos ainda de pé”, nota.

Com os ciclos de incêndios a encurtarem na região, Domingos Patacho explica que o proprietário, ao aperceber-se de que a floresta não é rentável, acaba por abandoná-la, sendo que o absentismo na gestão apenas adensa o risco de incêndio futuro.

Numa área que “tinha em média 1.200 árvores por hectare pode agora ficar com 5.000 por hectare e isso torna-se ingerível, porque deixa de poder passar um trator ou mesmo a gestão com motorroçadora torna-se mais cara”, alerta.

Segundo Domingos Patacho, o PDR 2020 não está ajustado à realidade do minifúndio, tornando também menos acessíveis os fundos disponíveis para reconversão ou gestão dos terrenos.

A acrescer a uma maior densidade de eucaliptais, o responsável da Quercus alerta ainda para o avanço das acácias, que classifica como “pavoroso”.

“Onde havia duas, há agora mil”, disse, considerando que “há boas intenções mas isso não chega”.

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