Depois do alarme causado pela notícia de que as urgências para as grávidas na região de Lisboa poderiam encerrar de forma rotativa durante o verão devido à falta de especialistas para assegurar os serviços, os responsáveis pelas maternidades da zona Norte também estão preocupados com a possibilidade de não terem capacidade para garantir as urgências durante o verão.

A notícia é avançada este sábado pelo Jornal de Notícias, que diz que 13 diretores de serviço de maternidades da região Norte vão enviar uma carta em conjunto à ministra da Saúde, Marta Temido, denunciando que vivem uma “situação caótica” devido à falta de recursos humanos e que se continuarem sem autorização para contratar novos profissionais de saúde “não será possível garantir as urgências nos meses de julho, agosto e setembro”.

A carta deverá ser assinada pelos diretores dos serviços públicos de ginecologia e obstetrícia de Braga, Bragança, Famalicão, Guimarães, Paredes, Porto, Santa Maria da Feira, Viana do Castelo e Vila Real, detalha o Jornal de Notícias.

Citado por aquele jornal, o diretor do serviço de ginecologia/obstetrícia do hospital de Guimarães, José Manuel Furtado, confirmou que estes 13 diretores de serviço se reuniram na semana passada nas instalações da Ordem dos Médicos no Porto

O responsável sublinhou ao Jornal de Notícias que a carta vai ser enviada à Administração Regional de Saúde do Norte e ao Ministério da Saúde para manifestar a “perturbação” causada pela falta de profissionais de saúde naqueles hospitais, já que “os quadros não estão a ser renovados” — e os profissionais de saúde “vão para o estrangeiro ou para o serviço privado, que oferece melhores condições“.

Presidente da ARS/Norte diz que foram contratados mais seis médicos obstetras

Entretanto, o presidente da Administração Regional de Saúde do Norte (ARS/Norte), Carlos Nunes, anunciou já este sábado que foram contratados mais seis profissionais em ginecologia e obstetrícia para o norte do país, prevendo um verão sem complicações no serviço ou urgências.

Em declarações à agência Lusa, Carlos Nunes revelou que no início de julho vão entrar mais médicos da especialidade de ginecologia e obstetrícia, e que na ARS Norte “serão seis”, resultado de um concurso de início de junho. Disse também que estes profissionais iniciam funções no dia 01 de julho e que “haverá com certeza entrada de outros profissionais ao longo dos próximos meses”.

A informação avançada pelo presidente da ARS surge depois do aviso dos 13 diretores de serviço. Carlos Nunes disse desconhecer a carta e o seu conteúdo e admitiu que “naturalmente” não é possível ter todos os recursos que se gostaria nesta área em específico. “Mas não prevejo que haja nenhuma complicação nem fecho de urgências, nada disso”, afirmou. Por outro lado, sublinhou que os profissionais de obstetrícia e ginecologia têm aumentado nos últimos três anos, passando de 254 em 2015 para 275 contabilizados a 31 de dezembro de 2018. Nesse sentido, disse que não prevê “qualquer dificuldade” seja nas urgências ou no serviço.

Relativamente à carta, Carlos Nunes disse que quando a receber a irá analisar e depois avaliar com as administrações dos hospitais eventuais situações pontuais que poderão acontecer e o que poderá ser feito.

Fecho rotativo como em Lisboa é solução de “recurso”

Já se sabe que no verão, durante o período de férias dos médicos, a falta de recursos se acentua. Os diretores das maternidades do Norte admitem que uma solução como a que foi encontrada em Lisboa (quatro urgências vão encerrar rotativamente) poderá acontecer, mas será “apenas um recurso” e uma “última medida para ultrapassar as dificuldades”.

Na sequência da notícia do Público sobre o fecho rotativo das urgências para grávidas em Lisboa, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, pediu que o assunto fosse “devidamente esclarecido e explicado”. PCP, Bloco de Esquerda e PSD já pediram que a ministra da Saúde, Marta Temido, seja ouvida de urgência no Parlamento.

Ordem dos Médicos convoca reunião para 1 de julho

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, pediu, entretanto, uma reunião com os diretores de serviço de Ginecologia/Obstetrícia e Neonatologia do norte e centro do país para o dia 1 de julho, anunciou a Ordem em comunicado.

“O Ministério da Saúde tem sido sucessivamente alertado para os problemas pelos profissionais e pela própria Ordem dos Médicos. No entanto, parece que só aparecem a falar dos problemas quando eles surgem na comunicação social e, mesmo perante as evidências, preferem negar a realidade. Desta vez a ministra recebe uma carta de 13 diretores de serviço de hospitais do norte do país que avisam que as urgências externas das maternidades estão comprometidas já a partir de julho. Estarão todos errados como faz crer a tutela?”, questiona o bastonário.

“As graves carências de especialistas em Ginecologia/Obstetrícia estão a levar a que, um pouco por todo o país, se multipliquem os casos de dificuldade em completar as escalas, o que está na origem do fecho total ou parcial das urgências externas das maternidades. Hoje foram tornadas públicas as dificuldades nas 13 maternidades do norte do país. A Ordem dos Médicos já tinha alertado que as apenas 5 vagas para especialistas em Ginecologia/Obstetrícia impostas pelo Ministério da Saúde para o norte (em 45 vagas abertas este ano a nível nacional) eram manifestamente insuficientes para uma população de 3,7 milhões de pessoas, mas nada foi feito para corrigir a situação”, acrescenta a Ordem no comunicado.