É cada vez mais evidente que o processo que levou à prisão de Carlos Ghosn, o homem que era CEO da Renault, da Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi e chairman da Nissan, foi acima de tudo estratégico, numa tentativa do fabricante japonês fugir ao controlo dos franceses, que possuem 43,4% do capital da Nissan, com direito de voto, contra os 15% que os nipónicos detêm na marca francesa, mas sem direito de voto. Sabe-se agora, segundo o Automotive News, que o Governo japonês desempenhou um papel preponderante em todo o processo que visou fazer colapsar as negociações entre a Renault e a Fiat Chrysler Automobiles (FCA), numa estratégia que levasse a Nissan a recuperar alguma da sua independência face ao construtor gaulês.

O Wall Street Jounal afirma que a Nissan secretamente mandou investigar Ghosn e forneceu os resultados à justiça japonesa, segundo fontes associadas ao processo, tudo para afastar a pessoa que a salvou da falência e a recuperou por completo, levando a Nissan, por exemplo, a abraçar os investimentos nos veículos eléctricos, que a coloca numa das melhores posições entre os fabricantes europeus. Por outro lado, o Le Monde defende que a nova administração da Renault, ao contrário de Carlos Ghosn, não compreende a forma de pensar dos japoneses, para quem “é a relação de força que determina a legitimidade e o direito, não necessariamente o facto de se ser o accionista principal”.

Durante semanas, a Nissan bateu-se pela introdução de uma série de alterações ao nível da governance, sempre com o objectivo de retirar a Renault destes lugares-chave. Ao que os franceses responderam com a ameaça de bloquearem a votação, que necessita de o apoio de 2/3 dos votos, uma vez que os franceses detêm 43,4%. Depois de um longo braço de ferro, a Nissan aceitou finalmente nomear o chairman e o CEO da Renault, respectivamente Jean-Dominique Senard e Thierry Bolloré, para os novos comités de auditoria e de nomeações. Uma decisão – que será votada a 25 de Junho – que foi vista como uma capitulação por parte da Nissan, tendo em vista fazer as pazes com o seu accionista maioritário francês.

Não se sabe se esta cedência vai ser suficiente para ultrapassar o clima de tensão que se vive dentro da Aliança, em que os japoneses querem mais poder e independência e os franceses não acreditam na honestidade dos japoneses. Mas o maior obstáculo parece estar associado aos governos de ambos os países, desejosos de garantir as melhores condições possíveis para a sua indústria automóvel. Senard vai recordando que “não será ele “o chairman que vai aceitar uma redução da influência da Renault na Aliança”. Como os resultados da Nissan foram francamente maus no final de 2018, desde que ajudou a prender Ghosn, a ponto de ter anunciado lucros inferiores aos da Renault, apesar de vender mais, o fabricante japonês tem à sua frente algumas soluções, mas nenhuma delas particularmente atraente. Especialmente agora que conseguiu “irritar” os responsáveis da Renault e do Governo francês, que a 28 e 29 de Junho se vão reunir no Japão, durante a cimeira dos G20, para tentar resolver a crise.