O que pode ter em comum a compra de um vestido online para uma gala e um teste de ciências no secundário? Nada. Vá, no limite e com um encadeamento contrário até poderia fazer sentido – fazia o último exame, ia ao baile de finalistas e seguia para uma nova vida. Aqui, não é mesmo o caso. Mas Cori Gauff, aos 15 anos, não mais esquecerá aquela compra do vestido online e muito menos esquecerá aquele teste de ciências. Que mais não seja, por serem os dois episódios que ficarão guardados naquela que foi a semana mais marcante da next big thing no desporto americano que fez história em Wimbledon esta segunda-feira.

Recuemos até à semana passada, onde a jovem nascida na Geórgia e a viver na Flórida estava distraída a escolher o tal vestido. Foi nessa altura que o telefone tocou e recebeu uma notícia que já não estaria propriamente muito à espera,: tinha recebido um wild card para entrar nas qualificações para o quadro principal de Wimbledon. Ainda assim, e como nestas histórias de encantar também há espaço para episódios mais complicados que aumentam o suspense, teria pela frente a espanhola Aliona Bolsova, espanhola que foi uma das boas surpresas em Roland Garros onde chegou à quarta ronda e que encabeçava as jogadores no qualifier. Com uma vitória por 6-3 e 6-4, o primeiro obstáculo, que era um dos mais difíceis, estava superado.

Seguiu-se mais um triunfo, desta feita com a russa Valentina Ivakhnenko (6-2 e 6-3), antes de dois testes de fogo, o primeiro de forma literal: na véspera de defrontar a belga Greet Minnen e vencer por duplo 6-1, Cori teve um exame de ciências online para a escola na Flórida às 23h. Algumas horas depois, a americana tornava-se assim a jogadora mais nova de sempre a alcançar o quadro principal num torneio do Grand Slam na Era Open (desde 1968). E aquele que deveria ser apenas mais um nome nos míticos palcos britânicos tornou-se “o” nome de que todos falavam. E falam. E vão continuar a falar.

As irmãs Williams sempre foram a grande referência da jovem americana que começou a jogar ténis aos sete anos, fugindo às várias influências “desportivas” que tinha em casa entre um antigo jogador de basquetebol universitário (o pai, Corey) e uma ex-atleta com vários títulos universitários (a mãe, Candi, que também foi professora). E desde muito cedo que tem ligações mais ou menos diretas a Serena ou Venus: assinou o primeiro contrato com a Nike com apenas dez anos e gravou um anúncio com Serena; foi escolhida por Patrick Mouratoglou, técnico de Serena, para treinar com ele no ano seguinte. Agora, com 15 anos apenas, teve pela frente e derrotou Venus na primeira ronda de Wimbledon, num histórico triunfo por duplo 6-4. A mesma Venus de 39 anos que, quando Cori nasceu, já tinha ganho quatro Grand Slams, incluindo dois dos cinco torneios em Wimbledon.

Coco, como também é conhecida, não surge propriamente como uma surpresa inesperada. Com 12 anos ganhou a Orange Bowl Júnior; com 13 anos, foi a finalista mais novo de sempre no US Open de Juniores, perdendo o encontro decisivo para outra jovem que se tem destacado nos grandes torneios (Amanda Anisimova, que ainda recentemente foi destaque em Roland Garros); com 14 anos foi a segunda campeã mais nova de sempre no Roland Garros de Juniores. Pelo meio, juntou-se à New Balance e patrocina outras marcas como a Barilla, que está também ligada ao suíço Roger Federer – outro dos jogadores mais experientes do circuito que têm deixado rasgados elogios à jovem prodígio americana que voltou a ter um dia de glória.

“Foi a primeira vez na minha vida em que chorei depois de ganhar um jogo e logo contra a minha ídolo a par da Serena. Não sei explicar o que estou a sentir. Tenho de dizer a mim mesmo para manter a calma, tenho de recordar que são as mesmas linhas, os mesmos courts. Após todos os pontos comentei para mim mesma ‘Mantém-te calma’. A Venus deu-me os parabéns e disse-me para continuar, desejou-me boa sorte e agradeci-lhe por tudo o que fez. Nunca pensei que isto poderia acontecer e não estaria aqui se não fosse ela – disse-lhe que é uma inspiração para mim. Sempre tive vontade de dizer mas nunca tive coragem”, começou por comentar a jovem americana depois de uma das principais surpresas da primeira ronda de Wimbledon.

“Os meus pais vão ficar muito satisfeitos, o meu pai estava aos saltos sempre que fazia um ponto. Sinto-me muito feliz pelo tempo que eles e os meus irmãos gastaram comigo. A minha avó ligou-me, o meu irmão ligou-me, todos os meus amigos enviaram mensagens e terei de ficar acordada a noite toda para responder. No teste de ciência tive um B, no jogo de hoje daria a mim mesma um A. Era bom que no próximo teste tivesse mesmo um A”, acrescentou Cori Gauff, a mais nova de sempre a ganhar um jogo no All England Club desde 1991, quando a também americana Jennifer Capriati bateu Shane Stafford.