Ana Malhoa completou 40 anos na última terça-feira, dia 6 de agosto. Pisa o palco há mais de 30, primeiro ao lado do pai, José Malhoa. Nos anos 90, é escolhida para ser a apresentadora do programa da SIC “Buéréré”. No arranque do novo milénio, descola-se da imagem de adolescente saltitante e troca o entretenimento infantil pelos ritmos latinos. Nas últimas duas décadas, Ana Malhoa assumiu-se como artista sexualmente provocante, cantou em castelhano e mudou sucessivamente a sua imagem, adaptando-a a cada um dos mais de dez álbuns editados. Musicalmente, foi-se distanciando da tradicional batida popular portuguesa. Seguiu-se o reggaeton e o autoproclamado tropical urbano. O aniversário é redondo (dos que faz pensar na velocidade a que os anos passam) e o pretexto ideal para recordar os momentos altos da carreira da cantora portuguesa.

A estreia no Luísa Todi

O que, de fora, parece uma conquista precoce, para a cantora foi, na realidade, a concretização de um sonho. Era isso ou ser astronauta, segundo contou ao Observador, em dezembro de 2017. “Lembro-me de, com quatro anos, estar a ligar para o diretor da editora discográfica do meu pai e de dizer que queria gravar um disco e ser cantora. Antes disso, com dois ou três anos, ia para cima do palco e pedia ao meu pai o microfone. Lá me dava, em off obviamente, e eu ficava ali”, revelou durante a entrevista. Foi precisamente com o pai que gravou o primeiro tema, música e letra de António Sala. Aos seis anos, Ana Malhoa deu o seu primeiro concerto ao lado do pai, no Cineteatro Luísa Todi, em Setúbal.

Pai Amigo, o primeiro EP

O primeiro disco gravado com o pai chegou em abril de 1986. Era, na verdade, um EP, composto por quatro temas — “Pai Amigo” (título do EP), “Dá-me a Tua Mão”, “Uma Rosa é um Espinho” e “Cara de Cigana”. Com cerca de 33.000 exemplares vendidos, atingiu o disco de ouro. Até 1994, Ana Malhoa gravou mais EP com o pai. Em 1992 e 1995, lançou dois EP a solo — I’m Happy e Calças Rasgadas, respetivamente.

“O Grande Pagode”: a chegada à televisão

Aos nove anos, ainda na década de 80, estreou-se como apresentadora de televisão. Ao lado do comediante brasileiro Badaró, passou a fazer parte dos fins de semana da RTP, no programa “O Grande Pagode”.

O “Buéréré”

Aos 15 anos, Ana Malhoa deu nas vistas do produtor Ediberto Lima. O plano era estrear um novo formato infantil na SIC, inspirado no brasileiro “Xou da Xuxa”. O canal tinha nascido há dois anos e o convite foi certeiro. Durante cerca de cinco anos — praticamente, toda a sua adolescência — cantou, dançou, saltou e marcou uma geração que cresceu de olhos colados à televisão, primeiro com o Buéréré, depois com o Super Buéréré, formato adaptado aos fins de semana. Entre 1995 e 1998, Ana gravou quadro discos com o programa, todos eles ultrapassaram a marca das 40.000 unidades vendidas, dois deles foram dupla platina. O programa foi emitido até 2002, mas Ana Malhoa saiu em 1998. “Tinha de continuar de acordo com a pessoa que era naquele momento e com o que tinha para transmitir […] Tinha 19 anos e tinha de fazer música para a minha idade e para aqueles que me acompanharam e cresceram comigo”, referiu na entrevista ao Observador.

Ana Malhoa, o primeiro álbum a solo

O ano de 2000 ficou marcado pelo primeiro álbum a solo da cantora. Mas Ana Malhoa, o título escolhido, foi muito mais do que isso. Foi o assumir de uma transformação radical. Depois de casar e de ser mãe, Ana voltou com uma imagem diferente, adulta e sensualizada. “Onde Estão? (¿Dónde Están?)” e “Teu Corpo Ardente” foram os dois primeiros singles do disco, que piscou o olho ao mercado espanhol. Para o desempenho do álbum no país vizinho, contribuiu também uma versão do tema “Amor a la Mexicana”, da cantora Thalía.

O sonho latino-americano

Ana Malhoa continuou a aproximar-se dos ritmos da América Latina. Ao Observador, falou do álbum de 2004 — Eu Sou Latina — como uma antecipação do reggaeton enquanto tendência mundial. “Lembro-me perfeitamente de lançar esse álbum e de haver muita gente a ridicularizar aquele género”, admitiu. A língua castelhana continuou a pairar sobre os trabalhos seguintes, mas foi Azucar, disco editado em 2013, aquele em que o idioma predominou. Apenas uma das música tinha título em português.

A capa da Playboy

As atenções viraram-se novamente para Ana Malhoa quando, em junho de 2009, a cantora, a acabar de lançar o seu sétimo disco a solo (Sexy), surgiu na capa da edição portuguesa da revista Playboy. No interior da publicação, a cantora surgiu em poses sensuais e, em algumas fotografias, totalmente nua. Em 2012, repetiu a dose para a Hot Magazine, mas dessa vez optou pelo registo da seminudez.

Será que Ana Malhoa inspirou Rihanna?

O caso não passou de um faits divers. No final de 2009, no seu blogue, Ana Malhoa fez referência a algumas semelhanças entre o seu visual e o que havia sido adotado recentemente pela cantora norte-americana. Será que Rihanna estaria a inspirar-se na artista portuguesa? A especulação teve um prazo de validade muito curto, tal era a improbabilidade. Ana apressou-se a esclarecer a história. Afinal, parece que se tinha limitado a publicar o texto de um fã.

“Tá Turbinada”

Em fevereiro de 2014, o single “Tá Turbinada” antecipou o lançamento do álbum Superlatina. Música e videoclipe tornaram-se virais e permanecem até hoje recordistas no Youtube, com mais de 4 milhões de visualizações. Para quem continua a ter dúvidas, o verbo turbinar existe, Ana Malhoa só foi à procura de vocabulário em desuso.

“Ampulheta” e a era dos singles

Futura é o último álbum de Ana Malhoa, lançado em 2016. Desde então que a cantora opta por apresentar singles, com videoclipes cada vez mais trabalhados do ponto de vista técnico e visual. “O mercado discográfico alterou-se, as coisas hoje em dia são muito mais rápidas e acho que também já estou numa fase da minha carreira em que não há necessidade de lançar álbuns com tanta regularidade. Nesta fase, o meu objetivo é lançar cada single como se fosse um álbum, com mais intensidade e regularidade”, revelou ao Observador. “Ampulheta” chegou em 2017, “Viúva Negra” no ano seguinte. “Ela Mexe” chegou às plataformas digitais em dezembro de 2018 e “Sobe Desce” foi lançado em maio deste ano.