O primeiro-ministro do Paquistão afirmou este domingo que a inércia da comunidade internacional face aos acontecimentos em Caxemira, que tem sido palco de confrontos e civis desde que esta semana o governo central da Índia decidiu retirar a autonomia àquela região. Segundo Imran Khan, a falta de reação da comunidade internacional lembra o silêncio sobre a ascensão do nazismo e o aparecimento de Hitler na Alemanha nos anos 1930.

“O recolher obrigatório, a repressão e o genocídio iminente dos habitantes de Caxemira na zona ocupada pela Índia ocorrem exatamente de acordo com a ideologia do RSS, que foi inspirado pela ideologia nazi”, escreveu Imran Khan na rede social Twitter.

O RSS ou Rashtriya Swayamsevak Sangh (Corpo Voluntário Nacional) é um movimento paramilitar ultranacionalista hindu. Os seus críticos designam-no de movimento fascista antimuçulmano.

“Há uma tentativa de mudar a demografia de Caxemira através da limpeza étnica”, acusou o chefe do governo paquistanês.

“A questão que se põe é: o mundo vai ver e mostrar-se conciliatório como foi com Hitler?”, questionou Khan.

Num segundo tweet, Imran Khan tornou a tecer comparações entre a Índia disse temer que a “ideologia da supremacia hindu, tal como a supremacia ariana nazi, não pare nos territórios de Caxemira ocupados pela Índia”. O primeiro-ministro paquistanês referiu que tudo aquilo pode vir a ter o Paquistão como “alvo”, comparando essa possibilidade ao lebensraum, expressão utilizada pelos nazis para designar o “espaço vital” para o desenvolvimento e sobrevivência ariana.

O território de Caxemira, localizado nos Himalaias, é controlado em cerca de dois terços pela Índia (maioritariamente hindu) e em 37% pelo Paquistão (muçulmano, tal como a maioria dos habitantes de Caxemira).

Criado em 1952, o RSS é considerado o mentor ideológico do BJP (Bharatiya Janata Party, Partido do Povo Indiano), formação do atual primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, que na juventude integrou o movimento.

O RSS foi proibido diversas vezes desde a independência da Índia em 1947, nomeadamente após o assassínio em 1948 de Mahatma Gandhi por um dos seus antigos membros, que acusava o ativista de simpatias muçulmanas.

Também foi interdito após ter incitado à destruição em 1992 da mesquita de Babri, que levou a tumultos terríveis.

O governo indiano anunciou na segunda-feira a revogação da autonomia constitucional do Estado de Jammu-Caxemira, medida explosiva que visa colocar a região sob uma tutela mais direta de Nova Deli e que o Paquistão considerou “ilegal”.

As duas potências nucleares do sul da Ásia já travaram duas guerras pelo controlo de Caxemira.

Desde 1948, uma resolução da ONU prevê a organização de um referendo de autodeterminação em Caxemira, que se mantêm letra morta face à oposição de Nova Deli.

Diferentes grupos separatistas combatem, há décadas, a presença de cerca de 500 mil soldados indianos na região de Jammu-Caxemira, para exigir a independência do território ou a integração no Paquistão. Dezenas de milhares de pessoas, na grande maioria civis, já morreram no conflito.

Desde que a revogação do seu estatuto foi anunciada, que a Caxemira indiana vive num “colete de forças”, com a proibição de concentrações, o corte de comunicações e o reforço das forças de segurança indianas.

Segundo a imprensa indiana, pelo menos 500 pessoas foram detidas esta semana em Jammu-Caxemira.