Rade Bajić, o procurador sérvio que investigou um alegado esquema ilegal das autoridades para permitir a construção de um hotel e de uma torre da família Trump em Belgrado, terá sido alvo de um ataque com spyware avançado (software de espionagem), noticiou o jornal The Guardian, que cita uma análise do Citizen Lab, um laboratório especializado em investigação forense digital.

O procurador, que integrou a unidade especializada de combate ao crime organizado responsável pela acusação contra altos responsáveis do regime sérvio, acredita que o ataque está relacionado com a investigação. “Na minha opinião, o meu envolvimento neste caso foi a única razão para este ataque ilegal com spyware“, afirmou.

Em agosto deste ano, Bajić recebeu uma mensagem da Apple a alertar que tinha sido detetado um ataque “direcionado com spyware mercenário” ao seu iPhone. Os investigadores do Citizen Lab, que analisaram o telemóvel do procurador, consideraram que o alerta constitui “um indicador de elevada confiança” de que o dispositivo terá sido alvo de spyware comercial, como o software Pegasus, desenvolvido pelo grupo israelita NSO e capaz de dar acesso total aos equipamentos eletrónicos (telemóveis ou computadores, por exemplo) do alvo. Até ao momento, não conseguiram identificar o responsável pelo ataque.

Este caso surge num contexto de denúncias sobre a utilização de ferramentas de vigilância digital pelas autoridades sérvias contra opositores e na sequência de uma investigação do The Guardian, que revelou que o Presidente sérvio, Aleksandar Vučić, terá ordenado pessoalmente a retirada da proteção legal de um edifício histórico em Belgrado para permitir a construção de um hotel e de uma torre da família Trump, num projeto avaliado em 500 milhões de dólares (cerca de 430 milhões de euros).

Ataque massivo com spyware atinge sociedade civil e estudantes na Sérvia

O edifício do Estado-Maior sérvio, um monumento associado à história do país, perdeu o estatuto de proteção na sequência de uma decisão que está no centro de um processo judicial. No ano passado, os procuradores (entre eles, Bajić) acusaram vários altos responsáveis do regime de abuso de funções para retirar ilegalmente essa proteção. Em caso de condenação, os arguidos podem enfrentar vários anos de prisão.

Jared Kushner, genro do Presidente norte-americano e responsável pelo projeto imobiliário em Belgrado, abandonou os planos depois de as acusações se tornarem públicas. Vučić reagiu ameaçando retaliar contra os procuradores, incluindo Bajić, e criticando a investigação.

O caso é apontado como a primeira investigação criminal relacionada com a alegada utilização de influência política para favorecer os interesses empresariais da família Trump. Os críticos descrevem este tipo de acordos como um sistema de pay to play, em que a administração norte-americana troca favores políticos por oportunidades de negócio.

Os representantes da família Trump e de Jared Kushner negaram estar envolvidos em acordos desta natureza e afirmaram não ter participado na decisão das autoridades sérvias de retirar a proteção legal ao edifício.

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