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B de Bale, B de besta, B de bestial: o reforço do Real Madrid estava escondido no balneário

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Esteve posto fora da equipa por Zidane, não saiu e agora é titular, assiste e chega a ser o elemento mais importante. Bale, o arquiteto da vitória do Real Madrid sobre o Celta (1-3).

O avançado galês foi titular na primeira jornada da liga espanhola

Getty Images

“Parecia que estava de saída mas continua aqui. As coisas mudam e vou contar com ele. É importante. Espero que me deixe com dificuldades na hora de escolher o onze”. Foi assim que Zidane explicou a utilização de Gareth Bale nos jogos da pré-temporada do Real Madrid, foi assim que Zidane explicou a convocatória de Gareth Bale para a jornada inaugural da liga espanhola e foi assim que Zidane começou a explicar aquilo que ia fazer na hora de escolher o onze inicial para o arranque do Campeonato. Depois de colocar o avançado galês totalmente fora das contas merengues para a próxima temporada, o treinador recuou, refez o rascunho e Bale era titular este sábado na deslocação do Real Madrid ao Celta de Vigo para o primeiro compromisso da liga.

A verdade é que a semana do Real Madrid esteve longe de ser tranquila. Depois do último teste de pré-temporada, um empate com a Roma de Paulo Fonseca, a ideia de uma saída de Zidane do comando técnico dos espanhóis ainda numa fase embrionária da época começou a tornar-se possível e provável. O jornal inglês Independent garantiu que o treinador estava a ponderar apresentar novamente a demissão, depois de ter deixado o clube em maio de 2018, por estar descontente com a postura da direção liderada por Florentino Pérez no mercado de transferências. Zidane estava interessado e apostado na contratação de Paul Pogba, médio do Manchester United que considerava fulcral para as ambições merengues, e considera que o presidente do Real Madrid não fez — e continua sem fazer — o suficiente para garantir a ida do francês para o Santiago Bernabéu. Além disso, o treinador está descontente com o rendimento da equipa (em sete jogos na pré-época só ganhou dois) e não coloca a hipótese de ter de atravessar uma temporada que pode ser vazia em títulos e conquistas.

Como se tudo isto não fosse suficiente, Eden Hazard sofreu uma lesão muscular e deve estar ausente dos jogos do Real Madrid durante três a quatro semanas. O médio belga, a grande contratação dos merengues neste verão — no capítulo final de uma novela que se arrastava há várias janelas de mercado –, falhava então este sábado aquela que seria a sua estreia na liga espanhola e deve estar ainda fora das opções nas próximas duas jornadas, com o Valladolid e o Villarreal, regressando apenas provavelmente depois da pausa dos campeonatos para os compromissos das seleções. Contra o Celta de Vigo, e na tentativa de aproveitar desde já a derrota do Barcelona esta sexta-feira (os catalães perderam em Bilbao com o Athletic graças a um golo de Aduriz aos 89 minutos), Zidane lançava Vinícius e Bale a acompanhar Benzema na frente de ataque e deixava Lucas Vázquez, Jovic e James Rodríguez, outro protagonista de um nó ainda por desatar, no banco de suplentes.

Depois de testar uma defesa a cinco nos últimos dois jogos de preparação, contra o Salzburgo e a Roma, Zidane voltava ao mais tradicional 4x3x3 e apostava na dupla Sergio Ramos e Varane no centro, ficando Éder Militão no banco. Odriozola substituía ainda Carvajal na direita da defesa e o meio-campo ficava composto com o trio formado por Kroos, Casemiro e Modric. Tudo somado, o Real Madrid começava a liga espanhola sem qualquer reforço no onze inicial.

O Celta de Vigo arrancou melhor, com uma boa dinâmica entre o setor intermédio e o mais adiantado e sempre sob o comando de Iago Aspas, capitão e principal elemento da equipa. O Real Madrid ia mostrando algumas dificuldades na saída com bola, principalmente graças à pressão alta do Celta que até se materializou em várias entradas mais duras logo nos primeiros minutos, e não conseguia lateralizar o jogo de forma a fugir da populada faixa central. Ainda assim, os merengues conseguiram inaugurar o marcador na primeira oportunidade do jogo — o Celta ia assustando mas falhava sempre na hora do último passe, ficando à porta do último terço do Real — e ganharam uma almofada de conforto que estava difícil de conquistar. Casemiro ganhou a bola na linha do meio-campo, num lance que deixa muitas dúvidas quanto a uma possível falta do médio brasileiro, e Marcelo lançou Bale no corredor esquerdo: num notável movimento individual, o galês evitou dois defesas adversários e serviu Benzema, que apareceu a encostar ao primeiro poste (12′).

O Real Madrid manteve-se sempre algo equilibrado, sem grande fome de posse de bola e mais preocupado com garantir a solidez defensiva do que propriamente com chegar ao segundo golo. O Celta de Vigo, que nunca se escondeu no próprio meio-campo e procurou sempre o empate, não conseguia superar a organização de Sergio Ramos e Varane, que parecia colocar um fim — pelo menos temporário — no fantasma dos erros defensivos que acompanha os merengues desde o início da temporada passada. A equipa de Zidane esteve perto de aumentar a vantagem através de Bale e Modric, com dois remates para duas boas defesas de Rubén Blanco, e o Celta ameaçou a baliza de Courtois com um lance onde um desvio de Varane foi crucial para afastar a bola de Gabriel Fernández. Já no minuto de descontos da primeira parte, o Celta conseguiu chegar ao golo mas o lance foi anulado por fora de jogo de Aspas e o Real Madrid foi mesmo para o intervalo a ganhar: depois de 45 minutos em que foi equilibrado, ponderado, eficaz e comedido. Tudo adjetivos que há muito não pairavam no Santiago Bernabéu.

A segunda parte arrancou mexida, jogada sempre junto às duas balizas e logo com uma oportunidade para cada lado: primeiro Benzema a rematar ao lado após uma bonita jogada de ataque do Real (46′), depois Aspas a ser lançado nas costas de Varane e a obrigar Courtois a uma saída apertada (48′). O Celta procurava fazer a diferença com transições rápidas que entrassem ou entre os dois centrais merengues ou entre Varane e Odriozola, que abriam autênticas auto-estradas sempre que era necessário recuar e fazer dobras. A dinâmica do jogo prometia mudar aos dez minutos do segundo tempo, quando Modric viu cartão vermelho direto depois de uma entrada muito dura sobre Denis Suárez (numa decisão tomada após intervenção do VAR) e o Celta ficou perto de empatar logo no minuto seguinte, mas a verdade é que o Real Madrid deu uma resposta que há muito não se via: uma resposta de equipa grande.

Ao invés de recuar no terreno, fechar os corredores e assistir a Zidane fazer uma substituição pouco ponderada e de resposta imediata, o Real Madrid não mexeu as linhas, manteve a pressão alta e não deixou de avançar de forma pensada nos minutos imediatamente a seguir à expulsão de Modric. Foi no seguimento dessa atitude, da estratégia de surpreender o Celta ao não colocar o autocarro na grande área e não esconder que mais do que tentar não sofrer continuava à procura do segundo golo, que Kroos se sentiu à vontade para atirar um míssil do meio da rua que só parou no fundo das redes de Blanco (61′).

Até ao final, depois das entradas de Lucas Vázquez e Isco, o Real Madrid soube segurar o Celta — principalmente nas subidas pelos corredores, por onde a equipa de Fran Escribá procurava aparecer para depois servir Iago Aspas e Gabriel Fernández na grande área de Courtois. Num exercício que recupera a equipa do primeiro período de Zidane, concentrada, construída sobre alicerces mais do que cimentados e com poucas fragilidades defensivas ou mentais, os merengues conseguiram ainda chegar ao terceiro golo através de uma jogada absolutamente inacreditável em que Marcelo, Isco, Benzema e Vázquez, que acabou por marcar, fizeram aquilo que quiseram da defesa do Celta (80′). Já no período de descontos, Losada ainda fez o golo de honra do Celta (90+1′).

Com um onze inicial sem qualquer reforço e com apenas uma cara nova entre os 14 jogadores que estiveram em campo (Jovic, que entrou nos últimos 10 minutos), Zidane colocou o Real Madrid num nível em que já não estava há mais de um ano. Os merengues, que cavaram desde já um fosso de três pontos para o Barcelona, parecem ser novamente uma equipa grande, que não vira a cara a nenhuma contrariedade e não se encerra no próprio umbigo. E Bale, que esteve posto fora da equipa pelo próprio treinador, criou o primeiro golo, foi o melhor durante a primeira parte, celebrou o golo de Kroos como nenhum outro colega e saiu sob aplausos e incentivos de todo o banco de suplentes. O galês, que foi de besta a bestial, corre agora o risco de ser o verdadeiro reforço de verão do Real Madrid.

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