Numa pré-temporada em que se esperava com entusiasmo a estreia de Hazard, os golos de Jovic, a certeza de Militão e o regresso de Zidane aos sorrisos, o Real Madrid acabou por somar três derrotas (Bayern Munique, Atl. Madrid e Tottenham), incluindo uma goleada por números expressivos frente aos colchoneros. No penúltimo teste de preparação para uma época que terá de ser, quase obrigatoriamente, superior em toda a linha à anterior, o técnico francês experimentou um novo sistema tático que deu frutos e a equipa espanhola venceu o Salzburgo com um golo de Hazard. Este domingo, frente à Roma de Paulo Fonseca, o Real Madrid apresentava o mesmo sistema: afinal, em equipa que ganha não se mexe.

Zidane implementou então um híbrido entre uma defesa a cinco com um meio-campo a três e uma defesa a três com um meio-campo a cinco — Nacho, Varane e Éder Militão são os elementos fixos no setor mais recuado, Valverde, Casemiro e Modric são as peças da linha intermédia e Marcelo, na esquerda, e Carvajal, na direita, ficam com a responsabilidade de serem uma espécie de laterais mais adiantados ou médios mais recuados que apoiam os corredores na transição ofensiva e fazem as dobras na hora de defender. Lá à frente, claro, Hazard joga nas costas de Benzema.

Este domingo, o Real Madrid encontrava então a Roma naquela que era o último teste de pré-temporada dos espanhóis, numa altura em que falta uma semana para o início da liga espanhola, e que valia também a Mabel Green Cup, mais uma competição de pré-época. No Estádio Olímpico da capital italiana, Paulo Fonseca lançava Pellegrini e Cristante numa fase mais recuada do meio-campo e Zaniolo enquanto elemento criativo, apoiado por Cengiz Ünder e Perotti mais perto dos corredores e com Dzeko enquanto referência ofensiva destacada.

Os italianos entraram melhor na partida, a beneficiarem desde logo de uma oportunidade de golo que Ünder desperdiçou, e mostraram que a Roma pretende na próxima temporada ter uma palavra a dizer nas competições europeias e nos compromissos internos, mesmo tendo em conta a supremacia da Juventus nesse capítulo. O ataque da Roma, que assenta principalmente em transições ofensivas rápidas e imprevisíveis, obedece a uma lógica de poucos passes e pouco tempo, com Zaniolo muito móvel a cobrir praticamente todo o espaço a meio dos últimos 30 metros da equipa adversária e Perotti e Ünder, com uma capacidade física superior à do jovem italiano, a surgirem na área junto de Dzeko para abrir possibilidades de linhas de passe.

Ainda assim, e face a um festival de ataque da Roma que teve várias ocasiões de golo incluindo uma bola na trave (7′) e uma boa defesa de Courtois (13′), foi o Real Madrid que chegou à vantagem, graças a um grande passe de Modric a desmarcar Marcelo e a qualidade do lateral brasileiro a vir ao de cima, já que puxou para dentro com o pé esquerdo a atirou na diagonal de pé direito (16′). A Roma voltou a beneficiar de várias oportunidades, pecando sempre na concretização mas garantindo que os merengues não chegavam sequer perto da baliza de Pau López, e chegou ao empate através de uma arrancada de Zaniolo pela direita — para a qual Casemiro não teve pernas — que culminou com um passe rasteiro para o segundo poste, onde Perotti surgiu a encostar (34′). Cinco minutos depois, Marcelo cruzou de primeira para Casemiro aparecer de cabeça e o Real Madrid voltou a ficar em vantagem (39′) mas Dzeko não precisou de um minuto para repor o empate, num lance onde Militão foi totalmente abafado pelo avançado bósnio (40′). Nesta altura, e na ida para o intervalo, as contas ao que se jogou e à eficácia daquilo que se jogou eram fáceis de fazer: a Roma tinha sete remates enquadrados e dois golos; o Real Madrid tinha dois remates enquadrados e dois golos.

Na segunda parte, e porque estamos a falar de um jogo de preparação em que Zidane aproveitou para explorar possibilidades para uma temporada que se antevê longa, o treinador francês lançou Vinícius e Jovic para tirar Nacho e Valverde. Assim, com o brasileiro encostado à direita, Hazard na esquerda e o avançado sérvio a fazer dupla com Benzema mais à frente, Carvajal e Marcelo recuaram no terreno e passaram a assumir os papéis mais ortodoxos de laterais, ainda que sempre mais adiantados nas faixas do que seria normal.

A partida perdeu ritmo na segunda parte, muito graças à chuva de substituições que acontece por volta da hora de jogo nestes particulares, mas ficaram sempre visíveis as fragilidades defensivas do Real Madrid — algo que foi um calvário dos merengues na temporada passada — que faziam parecer que tudo o que os jogadores da Roma empreendiam para lá da linha do meio-campo era simples. Já com menos velocidade e menos entendimento, fruto dos jogadores que iam entrando e saindo com o passar dos minutos, a verdade é que o conjunto orientado por Paulo Fonseca ia fazendo o que queria nas costas da defesa espanhola e entre as linhas mais recuadas do Real, que somavam erros de posicionamento e saída de bola.

Até ao final, nenhuma das equipas conseguiu voltar a marcar e o jogo terminou mesmo empatado, com os italianos a vencerem nas grandes penalidades (7-6) — Marcelo, de forma algo ingrata, foi o único a falhar — e a conquistarem então a Mabel Green Cup. Boas indicações da Roma de Paulo Fonseca, que tem Pastore e N’Zonzi ainda lesionados mas que já deixa água na boca para liga italiana que arranca daqui a duas semanas. Quanto ao Real Madrid, que gastou milhões num Hazard que esteve apagado e num Jovic que falhou duas oportunidades claras, continua a ter em Marcelo não só um capitão como o grande dinamizador da equipa, principalmente quando mais subido no terreno. O lateral brasileiro, que durante as passagens de Lopetegui e Solari perdeu espaço e esteve perto de sair para a Juventus, recuperou preponderância com o regresso de Zidane, fez um golo e uma assistência e foi o melhor de todos os merengues em campo.