Título: Tríptico de Salvação
Autor: Mário Cláudio
Editora: Dom Quixote
Ano de edição: 2019
Páginas: 198
Preço: 14,90€

Tríptico da Salvação, de Mário Cláudio, foi publicado pela Dom Quixote em maio

O ambiente prometia. O tempo de Lutero e das grandes reações barrocas, tipógrafos de mãos sujas, questões bizantinas a motivarem cisões, negociantes prósperos em cidades cheias de mendigos e de boémia, misturados com uma boa premissa: um homem que enriqueceu por conta de um assassinato quer encomendar um tríptico religioso a Lucas Cranach, pintor próximo de Lutero.

Esperam-se discussões interessantes entre o assassino que quer expiar pela obra que deixa o seu pecado e o pintor, reformado, descrente do papel das obras na Salvação. Tolera-se a previsível colagem do enredo às partes do retábulo: se o tríptico teria de um lado a Crucificação, de outro a Deposição, e no meio a Ressurreição de Cristo, Mário Cláudio poderia ter de um lado o crime, de outro o arrependimento e, no fim da titânica batalha da alma pela sua regeneração, a glória.

Era fácil, a partir da conhecida queda de Mário Cláudio para um vocabulário engorolado, entrar na parafernália clerical de um lado e na linguagem espiritual do outro; os dois mundos em choque, fossem esses mundos o artístico e o comercial, o católico e o reformado, o do crime e o da beatitude, o da matéria ou o do espírito, tudo no livro prometia.

O leitor podia esperar um fresco imenso do tempo dos incunábulos, a fazer lembrar a Obra ao Negro, de Marguerite Yourcenar, diálogos que misturassem aquela frescura do espírito a descobrir-se com as mais consolidadas e argutas doutrinas, questões de vida, de morte, e até de vida para lá da morte, crime, arrependimento, festa e contenção, num tempo em que duas mundividências fortíssimas coabitam por vezes nos mesmos Homens.

Mário Cláudio, porém, não fez nada disto. Claro que não é inteiramente justo criticar um autor por aquilo que não escreveu; no entanto, parece-nos que também não é completamente injusto pedir a um observador que repare naquilo que tem debaixo dos olhos. Ora, Mário Cláudio tinha um épico à mão e escolheu pegar no brique-à-braque. Parece-nos legítimo pedir a um escritor que conte a melhor história que está a contar, e que hierarquize aquilo que trabalhe. Não é legítimo pedir ao escritor outra História, mas é legítimo pedir-lhe que conte a História que está lá, e que identifique aquilo que nela é mais importante. Este livro de Mário Cláudio peca essencialmente por isso: numa história interessante, Mário Cláudio está sempre a falar-nos do marginal.

E se no enredo esta falta de pontaria é gritante, no estilo também se vai notando. Mário Cláudio é claro e direto no marginal, e deixa para os pontos capitais do enredo os eufemismos e as sugestões mais oblíquas, de tal forma que é quase sempre possível escapar ao que mais relevância tem para o enredo e ficar atascado nas bebedeiras, jantaradas, arrotos e outras alarvidades que são sempre menos úteis mas mais carregadas nas cores.

O crime de Hans Kunsperger, que mata o seu rico patrão, é contado em duas pinceladas displicentes; Kunsperger, numa espécie de remorso, herda com a fortuna dele o sonho do patrão e decide encomendar a Cranach um tríptico com as cenas da Páscoa. Cranach, porém, pouco liga ao tríptico, e entrega-o ao seu filho bastardo, Hans, que depressa se torna a grande obsessão de Kunsperger. Podia, então, tornar-se a história de um fascínio, mas o autor mata Kunsperger e passa a tineta pelo rapaz e o encargo de pagar o tríptico para a mulher, o que empobrece mais uma vez a história: na obsessão interessaria o mecanismo psicológico. Matando Kunsperger, porém, e continuando a obsessão, das duas uma: ou a personagem é interessante a ponto de interessar todos os que o rodeiam — o que não é o caso de Hans Cranach, retratado como um bêbedo aproveitador — ou toda a ideia perde força. Serve para dar um pozinho cómico ao enredo, mas pouco mais.

O estilo de Mário Cláudio não é, além do mais, muito conforme ao romance. É certo que ele encontra nas patuscadas e nas descrições das paisagens do tríptico um campo aberto para os seus vocábulos mais estranhos; no entanto, e mesmo que queiramos afastar este tempo das suas representações mais cruas dadas pela pintura, há qualquer coisa de estranho em ler um pintor alemão dos princípios de quinhentos que soa como se carregasse o sotaque beirão. Além da enrolada prosápia que Jane Austen tão bem parodiou em Mr. Collins, não deixa de ser desajustado ler a descrição do “desastre que nem na minha mais negra imaginação me afoitaria a antever. Entornou-se no lajedo o boião que continha a preciosa substância, isto por entre a entreloiçada da porcelana em cacos”.

A confusão do regionalismo “entreloiçada” com a literária troca da ordem entre adjetivos e substantivos (preciosa substância) — para não falar da cacofonia “entre a entreloiçada”, entre o uso popular reflexivo de “afoitar-se” com o “antever” que usa o prefixo culto “ante” e não o mais vulgar “pre” –, a fala é sintomática de um estilo que é mais marcado por frases sonoras e pela procura de palavras curiosas do que propriamente por uma coerência. Afinal, quem fala é um amanuense alemão ou um pastor minhoto? Um erudito ou um vilão? O estilo de Mário Cláudio é pouco consequente, e isso acaba por minar o próprio cenário do romance. Passa-se numa Alemanha de quem só viu a Sé de Braga, entre artistas, teólogos e mecenas que ora falam à burocrata, ora à Marrano, ora à Elucidário, mas em que todos pensam como acabados morcões.

Temos Lutero a discutir sobre livre-arbítrio, teologia da Cruz, teologia política? Nada disso: “Eu concebia Lutero a perorar sobre os ventos anais. Elaboraria ele na minha ideia toda uma teoria sobre barulhos e cheiretes, aventando em que modalidade se exprimiriam os gases deste ou daquele. Atreito a laboriosas digestões, exemplificaria o nosso anfitrião, Erasmo de Roterdão só a custo alijava o peso abdominal, mediante ligeiríssimos borborigmos, tão infrequentes como inaudíveis”. Cranach e Lutero, o artista e o teólogo, encontram-se e de que falam? Primeiro de umas passageiras reflexões teológicas, para logo se debruçar “com ânimo galhofeiro nas ventosidades do nosso organismo, imitando-lhes os sons, quando sobem à garganta, ou descem ao ânus, o que lançava os compinchas em gargalhadas convulsas”.

Mário Cláudio transforma tudo aquilo que é importante em pormenor, e resolve as questões fundamentais, até para a solidez da história — como o interesse dos Kunsperger pelo tríptico — em manias inexplicáveis, acasos, loucuras e caturreiras que fragilizam o romance. O Tríptico deixa, realmente, água na boca. Pena que o autor tenha gasto toda a substância a alimentar as suas glutonas personagens.