Estamos em Junho de 2004 e Portugal acaba de eliminar a Inglaterra nos quartos-de-final do Euro, um jogo épico que só foi decidido nos penalties. Luís Figo tinha sido substituído por Hélder Postiga aos 75 minutos, quando Portugal perdia 1-0. Melindrado, não se foi sentar com os seus companheiros, recolheu directamente aos balneários, de onde já não assistiu ao golo do empate, marcado justamente por Postiga. Nem ao frenético prolongamento e subsequente desempate por grandes penalidades. Mais tarde, questionado pelos jornalistas sobre o amuo e injustificável ausência do seu capitão, o seleccionador Luís Filipe Scolari revelou que Figo não tinha abandonado a equipa. Pelo contrário! Tinha estado a rezar a Nossa Senhora de Fátima, suplicando-lhe auxílio para Portugal. O país fingiu que acreditou nesta desculpa e Figo – que obviamente estivera a preparar-se para culpar Scolari pela eliminação iminente – voltou para liderar os rapazes na meia-final contra a Holanda e na final contra a Grécia. Mascarou-se a criancice do jogador e ficámos todos a ganhar.
Há aqui um paralelismo evidente com a actual situação de Ronaldo. Figo também é um capitão que coloca o seu ego à frente dos interesses da equipa e faz uma fita ridícula porque sente que o seu estatuto foi beliscado. Só que há igualmente duas diferenças substanciais. A primeira é que, conhecendo a megalomania de Ronaldo, é inverosímil que admita a supremacia de alguém ao ponto de lhe rezar. Mesmo tratando-se da mãe de Cristo. Para nos convencer a aceitar Ronaldo de volta, Pedro Proença teria de dizer que Nossa Senhora é que se tinha vindo ajoelhar à frente de Ronaldo
A segunda é que, nesse época, Figo ainda era um titular indiscutível da selecção, o melhor jogador daquela grande equipa. Ronaldo já não é sequer um convocado incontestável. Na altura, deu jeito fingir que a fuga de Figo não era grave, para podermos continuar a contar com ele. Depois do Euro2004, Figo ainda levou a selecção às meias-finais de um Mundial, Ronaldo nem com Waze conseguia levar esta equipa à porta do Estádio do Dragão.
Cristiano Ronaldo é uma espécie de Aquiles. O herói grego passa os 19 primeiros cantos da Ilíada a fazer beicinho na sua tenda, depois de se sentir humilhado por Agamémnon ter exercido a sua liderança. Só que, quando finalmente desamarra a burra, Aquiles volta a pegar nas armas e aplica a sua fúria olímpica a massacrar troianos. Não se refugia num post do Instagram e em recados enviados por amigos e funcionários do grupo de comunicação social que adquiriu. Aquiles fazia falta aos aqueus. Como Figo à selecção de 2004. Ronaldo não faz falta nenhuma. E ainda bem para si: se fizesse falta, de certeza que tinha de ser ele a marcar e mandava à barreira.
Apesar disso, Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, veio garantir que tudo não passou de um mal-entendido e que Ronaldo continua a fazer parte desta selecção, mesmo depois de caprichosamente se ter recusado a treinar e ter chamado o seu avião para abandonar o estágio na Dinamarca. Se Proença acha que isto é um mal-entendido, parece-me que temos aqui um mal-entendido sobre o que é um mal-entendido. Mais: disse que Ronaldo é “o maior símbolo da portugalidade”. E nisso é capaz de ter acertado, embora inadvertidamente. Este caso todo com Cristiano Ronaldo tem um significado simbólico do que é o nosso país.
Há quem veja aqui um exemplo da famosa inveja dos portugueses, que não conseguem ver ninguém a sobressair sem lhe desejar mal. Ronaldo seria vítima do mau-olhado dos compatriotas que não suportam o seu sucesso. Talvez possa ser isso. Porém, desta vez, creio que há predominância de outra característica nossa, igualmente peculiar: a subserviência em relação a alguém com poder. Quando falou em “símbolo da portugalidade” a quem devemos uma vénia, Proença estava a encarnar esse servilismo sabujo de quem nem sequer se atreve a sugerir que Ronaldo possa não ter estado muito bem quando se foi embora. Impensável ferir o orgulho do senhor, não vá ele aborrecer-se e retirar alguma benesse que tivesse concedido. Além disso, não devia ser numa vénia em que Proença estava a pensar. Uma vénia implica que, depois de dobrar a espinha, volta-se a endireitá-la, não se permanece curvado.
Repare-se que este lambe-botismo todo ocorre quando Ronaldo já não é um jogador decisivo, sem o qual a equipa rende menos. Nada disso. Ocorre apesar de já não precisarmos dele em campo. Agora imagine-se o nível de submissão durante os anos em que Ronaldo era mesmo essencial e em que a selecção não podia correr o risco de prescindir dele. Nessa altura, de certeza que a Federação tinha os soalhos mais limpos do país, tal a quantidade de gente a rastejar.
Na sua mensagem de Natal de 2025, Luís Montenegro exortou-nos a ter a mentalidade de Cristiano Ronaldo. O Primeiro-Ministro considera que faz falta ao país. Se calhar tem razão e é isso que vai fazer avançar a economia portuguesa. Mas não toda. Apenas a indústria do papel. Sobretudo o sector dos lenços de papel. Dez milhões de Cristianos Ronaldos vão precisar de muitas caixas de kleenex para assoarem todo o ranho produzido nas suas birras.