Terá sido a construção desordenada sobre pântanos, a par da drenagem ilegal de aquíferos, que trouxe a capital indonésia à situação em que se encontra hoje: 40% do território de Jakarta está já abaixo do nível do mar e nos bairros piores, diz o Guardian, a terra abate à razão de 10 ou 20 centímetros por ano, o que poderá levar, dizem especialistas, à submersão total de um terço da cidade já em 2050.

Como se não bastasse, a metrópole de 10,6 milhões de habitantes (são 30 milhões na área metropolitana), na ilha de Java, debate-se ainda com problemas graves de poluição, em grande medida graças ao trânsito caótico que em 2015 lhe granjeou o título de cidade mais congestionada do mundo — 70% da poluição atmosférica da cidade provém dos milhões de automóveis e outros veículos motorizados que diariamente fazem com que em Jakarta todas as horas sejam de ponta.

Para o presidente Joko Widodo estes são motivos mais do que suficientes para defender a construção de uma nova capital administrativa a cerca de um milhar de quilómetros de distância, na província de Kalimantan, na parte indonésia da ilha de Bornéu — Malásia e Brunei detém os restantes terços.

A medida, que deverá custar cerca de 30 mil milhões de euros, foi anunciada recentemente pelo presidente indonésio, no discurso do estado da nação, e carece ainda de aprovação no parlamento daquele país, mas já está a provocar polémica. Até porque o local proposto para a deslocação da capital, entre as cidades de Balikpapan e Samarinda, está localizado numa região de floresta tropical conhecida pela biodiversidade — como aliás todo o restante território da ilha de Bornéu, um dos dois únicos locais no mundo onde ainda existem orangotangos. “O governo tem de garantir que a nova capital não é construída numa área protegida ou de conservação”, disse à AFP Jasmine Putri, da Greenpeace local.

Widodo justificou a escolha por a zona apresentar “um baixo risco de desastres naturais”, como enchentes, terramotos, tsunamis ou erupções vulcânicas, e por ter uma “localização estratégica, no centro da Indonésia”. E deixou o aviso: “Este grandioso projeto terá de ser levado a cabo rapidamente para evitar que Jakarta se afunde debaixo do mar”.

Se a mudança for aprovada, os trabalhos de desflorestação e construção deverão arrancar já no próximo ano, numa área de 40 mil hectares, pelo que o governo espera poder começar a deslocar parte do milhão e meio de funcionários do aparelho público em 2024.

60% da população indonésia vive na região de Jakarta, onde se concentra mais de metade da atividade económica do país — e assim deverá continuar, diz o Guardian, garantindo que a maior parte dos 10 milhões de moradores na cidade deverão lá ficar. De acordo com o presidente Widodo, à espera que afunde.