Sete pontos, cinco encontros, quatro jornadas, uma final perdida. Chegado em novembro, Marcel Keizer conquistou a Taça da Liga e a Taça de Portugal, naquela que foi uma temporada descrita por muitos, incluindo o próprio presidente do Sporting, como a época de maior sucesso em termos de títulos dos últimos 17 anos, apenas atrás de 2002 quando os leões ganharam Campeonato, Taça de Portugal e Supertaça, uns meses depois. Agora, o holandês fez cinco partidas oficiais, incluindo a goleada sofrida frente ao Benfica na final da Supertaça, e entrou também ele no habitual carrossel de extremos: no fim de semana passado, após ganhar ao Portimonense, a equipa verde e branca tornou-se líder da Primeira Liga dois anos depois; no último sábado, perdeu em casa com o Rio Ave por 3-2 e acabou por ver a porta de saída que já estava entreaberta ficar escancarada até à rescisão.

“Entendemos que hoje se fecha um ciclo. Marcel Keizer entrou no Sporting em novembro de 2018. Lembramo-nos muito bem de como estava o clube naquele momento, lembramo-nos que quase nenhum treinador queria vir para o Sporting no momento em que o clube se encontrava. Marcel Keizer teve a coragem de o fazer. Cumpriu a missão com distinção, esteve cerca de um ano no Sporting, venceu dois títulos. O Sporting está agradecido pelo que Marcel Keizer fez. Fecha-se um ciclo. Foi sempre um grande senhor, até na saída foi um senhor”, comentou Frederico Varandas esta terça-feira, após o acordo amigável para a revogação do vínculo com o holandês, deixando para mais tarde outros esclarecimentos sobre a opção tomada no comando técnico, algo que aconteceu ao final da tarde desta quarta-feira em declarações ao canal oficial do clube.

“O ciclo de Marcel Keizer fechou-se, entendemos fechar mas é justo relembrar como o clube estava em novembro de 2018. Ainda hoje quando me dizem ‘Presidente, olhe o treinador A, B, C’ recordo a importância da estabilidade. Mesmo sem isso, Marcel Keizer aceitou vir para o Sporting. Depois de dois títulos, o último simbólico, a derrota na final da Supertaça marcou muito e a confiança até a falar com o grupo desceu. Não sentíamos a confiança necessária, tão depressa podíamos fazer um jogo bom como um jogo mau. Não teve a ver só com o resultado do Rio Ave, foi ponderada e sentindo a confiança no grupo. Quando questionam o timing, pergunto: alguém dispensava o treinador depois de ganhar a Taça?”, começou por explicar o líder leonino.

“Esta Direção não abdica da sua estratégia, do seu rumo. O treinador é uma peça importante? Sim, mas não é ele que estabelece a estratégia e o rumo. Vai continuar a linha que aposta muito na formação. A estrutura está montada, altamente profissional, com um rumo, um objetivo e uma estratégia. Leonel Pontes não tem um prazo, tem uma tarefa e estaremos aqui para acompanhar a evolução e tomar as decisões que tivermos de tomar. Não foi escolhido para os Sub-23 por acaso, tem muitos anos de formação, conhece o futebol português, sabe a estrutura e a evolução nos últimos anos, conhece bem os plantéis e as unidades de treino de ambos. Em novembro ser português também era importante mas muitas vezes não se consegue o que se quer e a falta de estabilidade também afeta. Perfil? Que aposte na formação, competente e que tenha resultados”, acrescentou.

Em paralelo, Frederico Varandas explicou também algumas das opções tomadas durante o mercado, falando não só nas saídas e entradas mas também na resolução de vários casos de excedentários que tinham grande peso nas folhas salariais dos leões.

“O Sporting já tinha feito cinco contratações cirúrgicas para equilibrar o plantel. Depois, deixámos para o final estes três nomes com a venda do Raphinha também. Bolasie é um jogador preparado, maduro, habituado a campeonatos de alta intensidade. O Jesé já estava identificado há muito e finalmente está comprometido com a sua profissão. Se fosse há três anos, não queríamos. Sei como está hoje a sua vida, dentro e fora de campo. O Fernando, em 2016/17 e 2017/18, foi considerado um dos melhores extremos no Campeonato do Brasil. Para os cientistas do futebol, Jesé é avançado centro mas isso não quer dizer que tenha de ser igual a Bas Dost ou Luiz Phellype. Aliás, dá outras valias e formas de jogar. E a melhor época de Vietto foi no Villarreal a jogar como avançado centro. Foi tudo escolhido com critério. Opções de compra? Em alguns existe, noutros existe campo de negociação para ficarmos com o passe”, esclareceu o presidente do Sporting, admitindo que o espanhol tem um vencimento incomportável para os leões mas que veio para Alvalade com o clube a pagar apenas um terço desse valor. “Para o ano, três ou quatro jogadores que estão na equipa Sub-23 vão subir ao plantel principal”, acrescentou.

“Bruno Fernandes, para mim, é o melhor médio na Europa. Vai ter o seu contrato revisto, não porque está previsto contratualmente mas porque merece. Merece que sejam revistas as suas condições, até para exemplo dos outros jogadores. É assim que funciono. Se me derem a mim, também dou a eles. Neste momento, estamos todos alinhados”, destacou sobre o capitão verde e branco, antes de precisar a proposta que recebeu do Tottenham: 45 milhões mais 20 por objetivos, entre os quais o triunfo na Liga dos Campeões e na Premier League. “Recusei. A primeira coisa que fiz foi chamar Bruno Fernandes, explicar a proposta que tive e o porquê de recusar. O Bruno compreendeu perfeitamente. Isto não implica que desista dos seus sonhos, porque quero jogadores com sonhos e ambição, que tenham o sonho de vencer a Champions, de ir para a Premier League, de ir para o Real Madrid. Percebeu, como capitão do Sporting, que o valor não era justo”, salientou a esse propósito.

Entre as vendas, Frederico Varandas aproveitou para falar também aquilo que considerou ser um negócio bom no caso de Thierry Correia, que saiu para o Valencia por 12 milhões de euros, e o acordo possível em relação a Bas Dost, que rendeu sete milhões na saída para o Eintracht Frankfurt (mais 500 mil euros que poderão ainda ser encaixados mediante objetivos). Ao mesmo tempo, o líder verde e branco acrescentou ainda que avançou para a venda de Raphinha quando percebeu, no sorteio da fase de grupos da Champions e da Liga Europa, que Bruno Fernandes iria permanecer mais uma temporada em Alvalade.

“A proposta foi muito boa pelo Thierry. É um jovem formado no Sporting e, considerando o nosso momento, o valor do jogador e a proposta, considero que foi um bom negócio. Bas Dost? Muito honestamente, foi o negócio possível. No final de maio, o jogador demonstrou desejo de sair. A partir desse momento, começámos a preparar o plantel grupo sem Bas Dost e sem o seu peso no nosso orçamento. Além de gostar dele como homem e profissional, assumo que gostava de ter Bas Dost no plantel mas quando ouço um jogador a dizer em maio que não quer ficar e quando esse jogador, paralelamente a esse desejo, significa um custo de 5,9 milhões de euros por ano… Não é um custo suportável para o Sporting e até para a realidade do futebol português. Não podemos ter um jogador que custa seis milhões por ano no nosso plantel. É quase 10% do nosso orçamento. Não gostei da maneira como saiu mas não foi o Sporting. Lamentavelmente, fomos obrigados a fazer aquela troca de comunicados, porque, por muito que goste do jogador, da pessoa e do homem, não posso ficar refém de um agente. Sei que ser líder e tomar decisões faz com que muita gente não fique feliz. Um verdadeiro líder não pode fazer toda a gente feliz. Se quer fazer toda a gente feliz, que vá vender gelados”, analisou em relação às vendas do lateral direito e do goleador holandês, em agosto.

Por fim, o número 1 do clube de Alvalade aproveitou ainda para fazer uma análise do primeiro ano de mandato no comando dos leões, que se cumpre este domingo (embora tenha tomado posse apenas no dia 9 de setembro). “Faço um balanço positivo. Entrámos em setembro de 2018 com o clube estilhaçado, com cinco principais jogadores que tinham rescindido sem compensações financeiras e desportivas. Tínhamos a necessidade de resolver um problema de tesouraria de 100 milhões de euros. Tivemos de fazer duas operações em tempo recorde. Ainda resolvemos mais três processos de rescisão, ficámos em terceiro lugar e conseguimos dois títulos. Chegámos depois de uma época terrível, sem condições e ainda assim, a nível de títulos, fizemos a melhor época dos últimos 17 anos. Isto não é positivo? Já me disseram que estou no cargo mais difícil que existe em Portugal. Pior do que ser primeiro-ministro. O Sporting agora está muito mais governável”, destacou.

“Contestação? Depois daquilo que se fez, daquilo que fizemos? Necessidades de tesouraria? 100 milhões, feito. Empréstimos obrigacionistas? Feito. Operação de securatização do contrato com a NOS? Feito. Dois títulos no futebol? Feito. Aposta na Academia? Feiro, equipa de Sub-23. Ao primeiro desaire, contestação? Os sportinguistas não são estúpidos. Ao primeiro desaire lá saem os esqueletos do costume. Mas mais interessante: só saem nos desaires. Lá vêm esses esqueletos. Mas de nenhum deles vi uma palavra quando ganhámos a Taça da Liga ou a Taça de Portugal. Tenho muitos defeitos mas estúpido não sou. Estas pessoas sem humildade democrática nenhuma intitulam-se porta-vozes do Sporting da desgraça. Quem contesta o trabalho desta Direção ou não percebe nada de futebol ou é intelectualmente desonesto”, comentou no final, rematando: “Fui eu que criei este fosso para os rivais? Nasci no Sporting, amo o Sporting, fui adepto, sócio e médico e durante 20 anos sempre vi estes senhores a gravitar à volta do clube. Este fosso parece que interessa a alguns. Mas, nesta altura, estamos a trepar para sair do fosso, apesar de haver muita gente a tentar puxar-nos para baixo. Nos últimos dez anos, o Benfica fez cerca de 900 milhões de euros em vendas, nós fizemos 400 milhões. Temos de trabalhar muito. O nosso futuro está na formação”.

Em atualização