Noventa e cinco anos de vida, quase 40 dos quais à frente do Zimbabué. Robert Mugabe morreu esta sexta-feira, mas deixa um legado amargo na história do país: os massacres e genocídios, o preconceito e as expropriações, a vida de luxo num país onde o pão chegou a custar milhões. Pelo meio, elogiava a Coreia do Norte, comparava-se a Deus, inspirava-se em Hitler e atacava os homossexuais. Estas são seis histórias de crueldade e extravagância de Robert Mugabe.

Massacrou 20 mil apoiantes da oposição

Após uma viagem à Coreia do Norte na qualidade de primeiro-ministro do Zimbabué, em outubro de 1980, Robert Mugabe tinha sorvido os ensinamentos ditatoriais de Kim il-Sung e dizia-se “um homem mudado”. Recentemente eleito, contratou militares norte-coreanos para viajar até ao país e formar um exército de elite. Era a Quinta Brigada, apadrinhada pelo major general Sin Hyon Dok. Havia de ser útil quando a fraca aliança entre Mugabe e Joshua Nkomo, ministro da Administração Interna repescado do partido da oposição para mascarar o autoritarismo do primeiro-ministro, se quebrou.

Em 1982, o ZAPU-PF de Joshua Nkomo era acusado de engendrar um golpe de Estado. Um ano depois, Robert Mugabe deu a palavra de ordem para um massacre que vitimou 20 mil pessoas em Matabeleland, pertencentes à etnia Ndebele e grandes apoiantes do antigo ministro. “Não chorem se durante este processo os vossos familiares forem mortos. Onde houver homens e mulheres a dar comida aos dissidentes, quando chegarmos lá, acabamos com eles”, anunciou.

Foi então que a Quinta Brigada levou a cabo o genocídio ordenado por Mugabe contra a etina Ndebele. “Eu disse-lhes que estava grávida e eles responderam-me que não devia ter crianças”, conta uma sobrevivente. De nada lhe valeu o pedido de misericórdia. Os militares bateram-lhe com a espingarda na barriga e mataram o bebé: “A criança nasceu mais tarde, aos pedaços”, conta a mulher. “Primeiro a cabeça, depois a perna, um braço, o corpo. Bocado a bocado”.

Expropriou e destruiu as quintas de agricultores brancos

Durante a redação do Acordo de Lancaster House, que transformava a Rodésia no Zimbabué e lhe garantia independência ao Reino Unido, ficou decidido que as terras que pertenciam a agricultores brancos — uma minoria de britânicos detinha a maioria da terra fértil —  iriam passar para as mãos da população negra. Isso não estava escrito no documento, mas havia sido combinado que, se os agricultores brancos não fossem obrigados a vender os seus terrenos, o Reino Unido continuava a apoiar financeiramente o país.

Enquanto Margaret Thatcher esteve à frente do Reino Unido, o governo britânico entregou 44 milhões de libras ao Zimbabué para garantir que não havia expropriações. Mas Tony Blair veio mudar tudo, argumentando que os “interesses coloniais” se tinham desvanecido. Foi então que Robert Mugabe avançou com uma reforma agrária que matou 12 agricultores brancos, destruiu hectares de quintas e expropriou terrenos com recurso a violência. Porquê? “Se os colonos brancos puderam tirar-nos as nossas terras sem pagar, nós podemos, de uma forma semelhante, simplesmente tirar-lhas sem pagarmos por elas”, argumentou Robert Mugabe.

Um relatório publicado em 2002 pela Human Rights Watch indica que, nos dois anos anteriores, as milícias do ZANU-PF mataram 26 trabalhadores, violaram 11 pessoas, agrediram cerca de 1.600 e pelo menos 3 mil foram impedidos de voltar às suas casas. Uma enfermeira contou à organização que “estava a voltar da loja” quando viu gente a aproximar-se. “Bateram-me com um pau no braço. Então levaram-nos para um espaço aberto. Estavam a dizer: ‘Para a frente ZANU-PF, abaixo o MDC’. Depois, pegaram noutro rapaz e sovaram-nos. A seguir, foram-se embora”, recorda.

Disse-se nomeado por Deus. E, anos depois comparou-se a Hitler

Estava-se em época de campanha eleitoral e Robert Mugabe acusava a oposição, o Movimento para a Mudança Democrática (MDC), de ter morto 70 dos seus apoiantes. Numa manifestação de campanha na cidade de Bulawayo, o então líder do Zimbabué sublinhava que “nunca permitiria que um evento como uma eleição revertesse a independência e a soberania” do país, noticiou na altura a BBC: “Só mesmo Deus, que me nomeou, me pode retirar daqui. O MDC não pode fazê-lo, os britânicos também não”.

É apenas uma das polémicas frases proferidas por Robert Mugabe. Em 2003, por exemplo, defendeu Adolf Hitler e comparou-se a ele: “Eu sou o Hitler desses tempos. Esse Hitler tem apenas um objetivo: justiça para o seu próprio povo, soberania para seu povo, reconhecimento da independência do seu povo. Se isso é Hitler, deixem-me ser um Hitler dez vezes”, anunciou num discurso.

Sobre Nelson Mandela, no entanto, a opinião era menos positiva: “O Mandela foi longe demais em fazer o bem às comunidades não-negras, em alguns casos realmente às custas dos negros. Isso é ser santo demais, bom demais”, opinou em 2013. Outra opinião polémica de Mugabe dirigia-se à comunidade LGBT: “Pior do que porcos e cães. Quem faz isso, digamos assim, é rebelde. É apenas loucura, insanidade”, acusou em 2010.

Cozinhou elefantes para celebrar o 91º aniversário

A festa de aniversário de Robert Mugabe foi marcada para um estalagem de luxo, a Elephant Hills, com spa e campo de golfe junto às Cataratas de Vitória (Zâmbia). Custou o equivalente a mais de 900 mil euros e reuniu milhares de convidados. Como surpresa de aniversário, Grace Mugabe e o marido lançaram 91 balões com hélio para o céu. Mas não só. Segundo o Independent, o então líder do Zimbabué mandou matar animais selvagens, inclusivamente elefantes, para servir às refeições.

Entre os animais mortos para a festa de aniversário estava um elefante e dois búfalos, dois sabres e cinco impalas. Outros animais foram também dados a Robert Mugabe por um agricultor daquela região, nomeadamente um leão e um crocodilo. Além disso, 40 vacas foram oferecidas ao presidente por dois membros do governo do Zimbabué. E outro elefante terá sido baleado e entregue aos convidados durante as celebrações.

A festa tinha ainda sete bolos de aniversário, um dos quais com o formato do continente africano, quase todos com o tamanho de um colchão de solteiro, descreve o Independent. De resto, dois anos antes, Robert Mugabe já tinha recebido um bolo de aniversário com 89 quilos durante uma festa na cidade de Bindura. Até se mandaram cunhar moedas de ouro para assinalar a ocasião, recorda a BBC. O valor da celebração ascendeu aos quase 544 mil euros.

Leu o discurso errado

Em setembro deste ano, Robert Mugabe proferiu o discurso errado na abertura de uma nova sessão do parlamento, conta a CNN. E repetiu, palavra por palavra, o texto que havia preparado para um mês antes. Nunca hesitou: passou 25 minutos a dizer exatamente a mesma coisa que tinha dito em agosto num discurso sobre o Estado da Nação. Na altura, foi o porta-voz George Charamba que justificou o engano: “Houve uma confusão de discursos, resultando numa situação em que o presidente fez o discurso errado”.

Não era hábito do presidente do Zimbabué cometer este tipo de erros, mas ainda no final do ano anterior havia acontecido algo parecido. Em dezembro, Robert Mugabé foi filmado a gritar: “Abaixo a Zanu PF!”. A oposição não tardou a usar o momento como argumento para a necessidade de retirar Mugabé, à época com 91 anos, do poder. É que o Zanu PF é partido do próprio presidente, não da oposição. “Já viu dias melhores. Acho que agora está claro que ele já não está apto para este lugar”, opinou Obert Gutu, porta-voz do MDC.

Filhos entornam champanhe de 200 dólares em relógio de 45 mil

Antes de se fixarem na África do Sul, Robert Jr. e Chatunga, filhos de Robert Mugabe, viveram juntos num condomínio de luxo no Dubai que custaria cerca de 500 mil dólares por ano. Só deixariam o país porque se viram envolvidos em problemas com a justiça por causa do consumo de substâncias proibidas e participação em rixas. Os dois levavam estilos de vida recheadas de discotecas de luxo, noites com supermodelos, carros topo de gama e jantares caríssimos com diplomatas.

Um dos episódios mais caricatos de Robert e Chatunga envolve também a mãe dos rapazes, Grace, que terá agredido violentamente uma modelo com um cabo elétrico quando a encontrou no quarto de hotel de um dos seus filhos, na África do Sul. Noutra noite, os rapazes foram filmados a despejar uma garrafa de champanhe de 200 dólares em cima de um relógio que custaria 45 mil dólares. A gravação foi parar às redes sociais e ainda circula na internet.

A contrastar com a vida boémia dos filhos rapazes de Mugabe está Bona, de 27 anos, que foi uma aluna exemplar, formada em contabilidade na Universidade de Hong Kong e especialista em gestão bancária e alta finança na Universidade de Singapura. Aos 24 anos, casou com Simba Chikore, presidente executivo da companhia aérea do país, provavelmente por pressão da mãe, para que Robert Mugabe cumprisse o sonho de assistir ao matrimónio da filha predileta.

Vivia numa mansão de luxo enquanto a população morria de fome

Robert Mugabe e a mulher, Grace, foram detidos em novembro de 2017 na sequência de “uma transição de poder sem sangue” com o objetivo de “atingir criminosos à volta do Presidente, que estão a cometer crimes que causam sofrimento social e económico”. Mas o casal não ficou atrás das grades de uma cadeia. Estava preso dentro de uma mansão avaliada em 8,4 milhões de euros com 18 hectares e com 25 quartos. Era nesse luxo que Mugabe vivia antes de ter sido internado num hospital em Singapura, em abril, onde veio a morrer esta sexta-feira.

A casa é conhecida como palacete “Blue Roof” por causa dos azulejos azuis que forram o telhado de estilo chinês do palacete. A mansão está protegida por um sistema de radares topo de gama e multimilionários, tem dois lagos, monitores panorâmicos, cadeiras de veludo, camas em estilo monárquico, salas de jantar gigantescas e lustres pendurados em quase todas as divisões da casa.

A decoração e luxo do palacete combina com os hábitos excêntricos de “Gucci Grace”. Além desta mansão em Harare, Grace arrendou outra mansão em Sandhurst que tem 9,3 mil metros quadrados de área. Em outubro deste ano, soube-se que a mulher de Robert Mugabe tinha processado um libanês por este ter falhado a promessa que lhe arranjar um anel de 1,35 milhões de dólares para o seu aniversário de casamento.