António Joaquim negou qualquer envolvimento na morte do triatleta. O suspeito de ser o coautor do homicídio de Luís Grilo foi ouvido na tarde desta terça-feira, depois de terminado o interrogatório a Rosa Grilo. “Não tenho nada a ver com o que infelizmente aconteceu ao Luís Grilo”, afirmou.

A arguida foi também confrontada com as armas apreendidas na casa do amante e, em especial, com aquela que a investigação acredita ser a arma do crime. Porém, ao ver a arma de perto, Rosa Grilo garantiu que não foi aquela que foi buscar a casa do amante. “A outra era mais cinza”, descreveu.

A próxima sessão está marcada para a próxima terça-feira, em que deverão ser ouvidas 20 testemunhas.

“Sei que era dos teus piores receios”. MP confronta Rosa Grilo com carta enviada da prisão para António Joaquim

O procurador do Ministério Público (MP) confrontou Rosa Grilo com uma carta que a arguida escreveu ao amante, António Joaquim, em abril deste ano — quando ambos já se encontravam em prisão preventiva por suspeitas de serem os co-autores da morte de Luís Grilo e estavam proibidos de contactar um com o outro. Na carta, Rosa Grilo pedia desculpa ao amante e adiantava-lhe que tinha “muitas merdas para o julgamento”. 

Sei que não é fácil para ti tudo isto. Sei que era dos teus piores receios. Só te posso pedir desculpa. Tenho muitas merdas para o julgamento”, lia-se na carta.

Segundo explicou a presidente do coletivo de juízes, Ana Clara Baptista, Rosa Grilo terá introduzido a carta dentro de um envelope que outra detida da prisão de Tires estava a utilizar para mandar uma carta para o namorado — também ele detido na mesma prisão em que António Joaquim se encontra. Assim, a carta chegaria ao amante escondida dentro da correspondência de outra detida.

A arguida disse que não sabia que estava proibida, à data, de contactar com António Joaquim e que apenas o quis “tranquilizar” porque sabia que “ele não tinha feito nada”. Questionada sobre o significado da última frase, Rosa Grilo explicou que se referia àquilo “que consta no processo” e que, na sua tese, não é “de todo realidade”. “Eu tenho a minha convicção do significado destas merdas”, apontou o procurador do MP.

Procurador quis saber todos os detalhes sobre o “sequestro dos três estaloras”

Depois de ter cansado a juíza Ana Clara Baptista na sessão da semana passada, esta terça-feira, Rosa Grilo continuou a ser ouvida esta terça-feira, no Tribunal de Loures, onde decorre o julgamento do homicídio do triatleta Luís Grilo. Os jurados não quiseram fazer perguntas, mas o procurador resolveu insistir nos detalhes sobre aquele considera ser o “sequestro dos três estarolas” — referindo-se aos três angolanos que Rosa Grilo aponta como autores do homicídio.

A sessão começou precisamente com as perguntas que pareciam irrelevantes — quantos gatos tinham, onde costumava ficar a cadela ou onde estacionavam os carros —, mas que, depois, foram fulcrais para perceber alguns detalhes (em falta) da versão que Rosa Grilo apresentou. A arguida chegou mesmo a emocionar-se quando a juíza — que ia colocando perguntas na sequência das feitas pelo procurador — voltou a insistir no porquê de a arguida ter deixado o filho com um dos sequestradores.

Estou arrependida de tudo, tudo, tudo. Ainda hoje. A primeira vez que me queixei ao Luís devia ter saído dali para fora. Não há nada mais importante que o meu filho”, disse referindo-se à primeira vez que o marido lhe terá dito que estava a ser perseguido por angolanos.

Rosa Grilo acrescentou ainda que, quando deixou o filho com um dos sequestradores para ir formalizar o desaparecimento do marido à GNR, fez “um caminho maior” para tentar perceber se os angolanos teriam depositado o corpo do marido ali perto — o que indignou a juíza. “O quê? A senhora quando saiu de casa, andou a procura do corpo?“, disse.

O procurador viu ainda ser-lhe negada uma pergunta, logo no início da sessão, pela juíza Ana Clara Baptista. “Depois de 17 anos casada, o que a levou a envolver-se com o António?”. A presidente do coletivo dos juízes não considerou a pergunta relevante e pediu que avançasse com as seguintes.

Interrogatórios já foram finalizados. Faltam 93 testemunhas

Para esta sessão estava inicialmente previsto que começassem a ser ouvidas as primeiras dez testemunhas — entre elas o pai e o filho de Rosa Grilo e, ainda, a irmã e amigos de Luís Grilo. Mas a primeira sessão do julgamento não chegou para completar o interrogatório da arguida. Por isso, o seu amante, António Joaquim, só foi ouvido esta terça-feira — tendo ficado concluído o interrogatório.

Durante a hora de almoço, Ricardo Serrano Vieira adiantou que os procedimentos desta terça-feira estão a decorrer “dentro da normalidade” e que espera ouvir o seu cliente, António Joaquim, ainda hoje. Já Tânia Reis explicou que o sorriso de Rosa Grilo durante os depoimentos se poderá dever a um “tique nervoso” e que “ainda há muito para decorrer”.

Ainda durante a manhã, e à chegada ao tribunal, Tânia Reis, advogada de Rosa Grilo, afirmou que não concorda que tenha havido “contradições“, como foi tornado público na semana passada, na primeira sessão. “É um processo bastante complexo. Existe ainda muita coisa para falar”, disse ainda, em curtas declarações aos jornalistas no local.

No final da sessão da passada terça-feira, a juíza repreendeu, aliás, os atrasos dos advogado, que fizeram com que a sessão começasse com uma hora de atraso. O caso não é para menos: há 93 testemunhas para ouvir — que começam a ser ouvidas na próxima terça-feira se o interrogatório a António Joaquim ficar completo.

Rosa Grilo e o amante António Joaquim estão acusados pelo Ministério Público dos crimes de homicídio qualificado agravado, profanação de cadáver e detenção de arma proibida. O MP entendeu que o homicídio terá sido praticado entre o fim do dia 15 de julho de 2018 e o início do dia seguinte, no interior da habitação do casal. “Por forma a ocultar o sucedido, ambos os arguidos transportaram o cadáver da vítima, para um caminho de terra batida, distante da residência, onde o abandonaram”, lê-se na acusação a que o Observador teve acesso.

Os dois arguidos foram detidos há mais de um ano, no dia 26 de setembro do ano passado, por suspeitas de serem os autores do homicídio de Luís Grilo, tendo-lhes sido aplicada a medida de coação de prisão preventiva três dias depois. Mas o caso veio a público muito tempo antes, quando, a 16 de julho, Rosa Grilo deu conta do desaparecimento do marido às autoridades, alegando que o triatleta tinha saído para fazer um treino de bicicleta e não tinha regressado a casa.

Seguiram-se semanas de buscas e de entrevistas dadas por Rosa Grilo a vários meios de comunicação  — nas quais negava qualquer envolvimento no desaparecimento do marido, engenheiro informático de 50 anos. O caso viria a sofrer uma reviravolta quando, já no final de agosto, o corpo de Luís Grilo foi encontrado, com sinais de grande violência, em Álcorrego, a mais de 100 quilómetros da localidade onde o casal vivia — em Cachoeiras, no concelho de Vila Franca de Xira. Agora, as buscas davam lugar a uma investigação de homicídio e, novamente, Rosa Grilo foi dando entrevistas em que negava qualquer envolvimento no, agora, assassinato do marido.

A prova recolhida pela PJ levou esta força policial a concluir que Luís Grilo foi morto a tiro, no quarto do casal, por Rosa Grilo e António Joaquim, e deixado depois no local onde foi encontrado. O triatleta terá sido morto a 15 de julho, por motivações de natureza financeira e sentimental. A tese de Rosa Grilo é, no entanto, diferente: segundo as declarações que prestou no primeiro interrogatório — e que veio a reforçar em várias cartas que enviou a partir da prisão para meios de comunicação — Luís Grilo terá morrido às mãos de três homens (dois angolanos e um “branco”) que lhe invadiram a casa em busca de diamantes.