“Que canseira”. As quatro contradições de Rosa Grilo que cansaram a juíza /premium

10 Setembro 2019

O ar da juíza foi de desespero total. Rosa Grilo não lhe dava respostas concretas: "Suponho que sim", respondia a algumas, argumentando: “Passou um ano e foi um dia muito complicado”.

O julgamento de Rosa Grilo ainda só contabiliza seis horas e a juíza Ana Clara Baptista já está cansada. A sessão desta terça-feira, a primeira de várias agendadas, não chegou para acabar o interrogatório da arguida. Rosa Grilo falou e respondeu a todas as perguntas dos juízes. E voltou a responder pela segunda vez, pela terceira, pela quarta e pela quinta — mas sem exatamente dar resposta àquilo que a presidente do coletivo queria saber. “Que canseira, senhora dona Rosa. A senhora cansa”, disse pouco antes de dar por terminada a sessão.

A juíza Ana Clara Baptista chegou mesmo a questionar se se estava a fazer entender — ao que Rosa Grilo confirmou e ripostou: “Se calhar sou eu que não me estou a fazer entender”. A presidente do coletivo revirava os olhos, levava os braços ao ar, atava o cabelo e, durante a tarde, chegou mesmo a pedir à oficial de justiça que aumentasse o ar condicionado — quando toda a audiência estava a tremer de frio e a vestir casacos. Por vezes, ria-se. Depois, o tom de Rosa Grilo não ajudou. Os cabelos arranjados, a maquilhagem posta e o vestido cor de rosa sobressaíam mais do que o seu discurso. “A senhora tem de falar mais alto”, pedia a juíza “pela décima terceira vez”.

Rosa Grilo chegou ao Tribunal de Loures às 9h05 (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

O ar era de desespero total. É que a arguida respondia a muitas das perguntas com expressões como “deve ter sido” ou “suponho que sim”, acompanhadas de encolher de ombros. “Passou um ano e foi um dia muito complicado”, argumentou. Ao que a juíza, surpreendida com a falta de detalhe de Rosa Grilo, respondeu: “Por isso, mais lhe deve ter ficado gravado na memória”. Ana Clara Baptista insistiu em escavar detalhes da história dos angolanos, alegando que não foram suficientes aqueles que deu em sede de primeiro interrogatório.

As perguntas não deverão ficar por aqui: na próxima terça-feira — quando estava previsto serem ouvidas testemunhas —, a arguida ainda terá de responder a possíveis perguntas dos jurados e dos advogados. Depois, se houver tempo, será a vez de António Joaquim, o suspeito de ser co-autor do crime, prestar declarações.

A presidente do coletivo revirava os olhos, levava os braços ao ar, atava o cabelo e, durante a tarde, chegou mesmo a pedir à oficial de justiça que aumentasse o ar condicionado — quando toda a audiência estava a tremer de frio e a vestir casacos.

Mas, afinal, o que é que a arguida disse? A mesma versão que apresentou no primeiro interrogatório e nas cartas que enviou, da prisão de Tires, a jornalistas: a de que o marido foi assassinado por três angolanos que lhe invadiram a casa. Mas com algumas diferenças. Desta vez, Rosa Grilo disse que, afinal, chegou a ir com os angolanos ao escritório da empresa que tinha com o marido, para buscar o seu computador — porque os angolanos o “pediram”. No primeiro interrogatório, a suspeita disse que, depois da execução do triatleta, a roupa que vestia ficou suja de sangue e por isso tentou limpá-la. Agora, explica que não a tentou limpar e optou por mudar de roupa. Mas não foram estas as contradições que cansaram o coletivo de juízes.

As encomendas estranhas de seis em seis meses que Rosa Grilo não esqueceu

“Há dois anos, o meu marido começou a receber encomendas no escritório muito pontuais”, começou por relatar Rosa Grilo, sendo interrompida pela juíza — que quis saber tudo: como eram as encomendas, quem as recebia, se a entrega era feita por alguma empresa de distribuição. Eram “caixas pequeninas”, daquelas “castanhas”. Não sabe o que tinham lá dentro. “Não era de nenhuma empresa de entregas”, conta. Sabe que “era um rapaz” que as vinha trazer e que Luís Grilo as recebia — o que não era habitual acontecer.

As encomendas chegavam, na tese da arguida, de seis em seis meses e o marido ter-lhe á dito a certo ponto que era material para treinar. O que levou a juíza a questionar: o que é que as encomendas tinham de tão relevante que faziam com que Rosa Grilo se lembrasse delas, passado meio ano? A resposta foi sempre a mesma: “A pressa de ir à porta e de ser ele a querer recebê-las”. “Na altura até me questionei se seriam esteroides”, admitiu. Mas, ainda assim, a juíza não via a sua pergunta esclarecida e voltou a questionar outra e outra e outra vez. Estava, aliás, tão empenhada em obter uma resposta concreta que teve de ser avisada pela juíza adjunta que o relógio já marcava 13h16 e estava na hora de almoçar. Rosa Grilo não conseguiu explicar por que é que desconfiou das encomendas.

A primeira sessão do julgamento decorreu no Tribunal de Loures (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

A última encomenda terá sido recebida, na tese da arguida, seis meses antes de Luís Grilo ter feito a prova Ironman, na Alemanha. “Foi então em fevereiro de 2018?”, tentou confirmar a juíza. Mas não era: afinal, foi em dezembro de 2017. “Mas isso não são seis meses antes”, começou a inquietar-se Ana Clara Baptista. “Foi, no final do ano de 2017, mas sem certeza”, acabou por responder.

Nesta altura, confrontou-o: “Ele disse que recebia encomendas de um amigo para entregar a outra pessoa”, disse Rosa. A arguida acrescentou ainda que o marido não lhe disse o que tinham as encomendas e, por isso, acabaram por discutir. “Mais tarde, quando ele começou a andar inquieto acabou por me dizer o que era. Passavam por ele encomendas que recebia e entregava a uma pessoa. Na altura, disse que eram diamantes”, concluiu.

Rosa Grilo não se recorda de ter havido mais encomendas e, na sua versão da história, o marido ter-lhe-á dito, meses mais tarde que andava a ser ameaçado — relacionado assim este facto com a invasão dos angolanos na sua casa e posterior morte de Luís Grilo.

Arma do amante era para defesa pessoal, mas estava na garagem

Na tese de Rosa Grilo, foram estas ameaças que a motivaram a ir buscar a arma de António Joaquim. Sabendo que ele tinha uma pistola em casa — ficou a saber isso por acaso durante uma conversa —, a arguida contou que, nos finais de junho, resolveu deslocar-se a casa do amante sem que este soubesse, para ir buscar a arma. Trouxe-a, deu-a ao marido, revelando-lhe que pertencia a António Joaquim e serviria para ele se defender. Mas a juíza não conseguiu perceber por que é que a arma estava guardada na garagem, se servia para defesa pessoal. “Foi o Luís que decidiu”, disse apenas.

Mas a juíza não conseguiu perceber por que é que a arma estava guardada na garagem, se servia para defesa pessoal. “Foi o Luís que decidiu”, disse apenas.

Mais: a juíza Ana Clara Baptista também não compreendeu como é que Rosa Grilo — que admitiu não saber distinguir um revólver de uma pistola — conseguiu acertar nas munições certas. “Ele tinha várias munições. Agarrei numa caixa” que estava por baixo da mesa de cabeceira, enquanto a arma estava no roupeiro. “Eu vi as munições e levei umas”, repetiu, levando a juíza a questionar o porquê de não ter levado todas, já que não sabiam quais eram as certas.

A descrição do crime: angolanos armados ou desarmados?

Durante toda a manhã, Rosa Grilo contou como é que os três angolanos lhe invadiram a casa ainda antes das 8h00 de dia 16 de julho. Como é que a agrediram logo e lhe taparam a boca. Como é que o marido, que entretanto desceu, foi também ele agredido. Como, depois, começaram a perguntar pelas “coisas”, pela “encomenda e pelas coisas”. E como é que, depois, a levaram a casa dos pais, em Benavila, para tentar ali procurar os diamantes.

Mas, na sessão da tarde — que se iniciou já às 15h00 —, a arguida decidiu introduzir um dado novo: os angolanos estavam armados. “Armados?”, disse a juíza, aumentando o volume face ao espanto. “Então, de manhã, descreveu o ataque três vezes e nunca fez referência à arma?”, questionou. Rosa Grilo pensou que “estava implícito”, uma vez que tinha reiterado as declarações que tinha feito no primeiro interrogatório, em setembro de 2018, no Tribunal de Vila Franca de Xira.

"Armados?", disse a juíza, aumentando o volume face ao espanto. "Então, de manhã, descreveu o ataque três vezes e nunca fez referência a arma?", questionou. Rosa Grilo pensou que "estava implícito".

Para a juíza Ana Clara Baptista, não estava implícito. “Vamos voltar atrás”, disse. E Rosa Grilo repetiu pela quarta vez a alegada invasão dos angolanos na sua casa. “Todos tinham arma”, começou. “Todos não pode ser”, afirmou a juíza. “Não pode ser porquê?”, questionou Rosa Grilo, que depois viu esclarecida a sua questão: “Porque um estava a agredi-la com uma mão e a tapar-lhe a boca com a outra”. A arguida foi descrevendo o ataque novamente sem conseguir explicar com muita clareza quem é que tinha armas e onde. “Passou um ano e foi um dia muito complicado”, justificou. “Por isso, mais lhe deve ter ficado gravado na memória”, argumentou a juíza, ao mesmo tempo que a arguida ia desabafando: “Muitas coisas, muitas coisas”.

Certo é que, na sua tese, o marido foi assassinado com dois tiros. “Mas, na autópsia, só há um”, alega a juíza, embora Rosa Grilo mantenha a sua versão: foram dois tiros, um na nuca e outro na têmpora. Sendo que não sabe se usaram uma das suas armas ou a arma que tinha ido buscar a casa de António Joaquim, que acabaram por descobrir.

Rosa Grilo deixou filho com um dos angolanos — e nunca pediu ajuda quando podia

Nesse dia, o filho de Rosa Grilo não estava em casa: tinha ido passar alguns dias com a tia, na Costa da Caparica. Mas, já Luís teria sido assassinado e o seu corpo levado dali, quando a irmã do triatleta chegou para entregar o sobrinho. Àquela hora, ainda um dos angolanos se encontrava no interior da casa. Apesar disso, Rosa Grilo recebeu o filho. “Naquela altura, não sabia bem o que devia fazer. Foi uma circunstância bastante complicada”, justifica.

A advogada de Rosa Grilo, Tânia Reis, na chegada ao tribunal (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Ainda assim, a juíza Ana Clara Baptista não deixou de insistir no porquê de, estando naquela altura um angolano no interior da casa, como é que a arguida não impediu que o filho entrasse, “arranjando uma desculpa”. “A falar a esta distância é fácil de dizer”, argumentou Rosa Grilo. Mas a juíza sugeriu: “Podia dizer: ‘Leva-o’. Para não colocar perante um indivíduo que já tinha demonstrado um grau de violência extrema”. “Não tive mais reação nenhuma”, responde apenas.

Não só Rosa Grilo deixou, na sua tese, que o filho entrasse, como o deixou sozinho durante quatro horas com o angolano. Alega no entanto que esse indivíduo estava no primeiro andar e o filho estava na sala, no rés-do-chão. “Tendo em conta que tinha deixado o filho em casa não teve preocupação de voltar mais cedo?”, questionou a juíza, reforçando, com ar de espanto: “Deixou o seu filho quase quatro horas em casa sozinho?”.

"Tendo em conta que tinha deixado o filho em casa não teve preocupação de voltar mais cedo?", questionou a juíza, reforçando, com ar de espanto: "Deixou o seu filho quase quatro horas em casa sozinho?".

Rosa Grilo explicou que saiu às 20h00 de casa, para apresentar queixa do desaparecimento e só voltou perto da meia-noite. “Só quando consegui é que vim embora. Quando a GNR me mandou embora”, explica — levando a juíza a questionar porque é que não pediu ajuda naquele momento ou não pediu para ir a casa ver se estava bem com o filho. A arguida justificou a sua falta de reação com o facto de estar a seguir ordens dos angolanos que a mandaram ir ao posto de GNR participar o desaparecimento do marido. “Então não estava em choque?”, questionou a juíza. “Estava. Fiz o que me mandaram”, respondeu.

Foi por estar em choque que a juíza não compreendeu também a razão pela qual foi ao supermercado naquela tarde. “Não fui propriamente passear”, argumentou de imediato, irritando a juíza: “Eu não disse que foi passear. Responda de forma direta e clara. Foi fazer o quê?” Rosa Grilo explicou então que também aqui estava a receber uma ordem dos angolanos. Estes terão parado o carro junto ao Pingo Doce de Alverca e, nesse momento, terão passado duas conhecidas da arguida. Os angolanos sugeriram-lhe que entrasse e falasse com as mulheres, para que estas não suspeitassem.

Rosa Grilo relata que entrou, falou algumas “banalidades” com as duas mulheres e acabou por ir levantar dinheiro, como desculpa para terminar a conversa e se desmarcar delas. “Não estava um agente da polícia no Pingo Doce?”, perguntou a juíza. A arguida disse que não, que só estavam  seguranças. Ainda assim, a presidente do coletivo questionou Rosa Grilo sobre o porquê de, tendo-lhe sido dada a possibilidade de sair do carro, não ter pedido auxílio. “Porque o meu marido estava em casa com outro. Talvez outra pessoa tivesse feito. Eu não tive coragem”, rematou.

A irmã de Luís Grilo também esteve presente na primeira sessão (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

O ambiente do primeiro dia do julgamento foi hostil para Rosa Grilo. Por um lado, a juíza repetia as perguntas, aumentando o tom por cada repetição, revirava os olhos e levava os braços ao ar em desespero. Por outro, um do jurados não se conteve em expressões faciais que lhe denunciavam a falta de crença na arguida. O mesmo jurado chegou mesmo a trocar sorrisos com o procurador do Ministério Público que, também ele, não poupou sorrisos.

Esta sessão não chegou para que Rosa Grilo respondesse a todas as perguntas. Os jurados e os advogados ainda terão a possibilidade de lhe colocar questões na próxima semana.

O julgamento, contudo, começa já com um atraso: esta terça-feira era suposto António Joaquim também ter sido ouvido — “está ansioso por começar a falar”, disse o advogado —, mas tal só deverá acontecer na próxima semana, o que poderá levar ao adiamento da audição de várias testemunhas também calendarizadas para a mesma altura. No final desta sessão, a juíza repreendeu aliás os atrasos dos advogados que fez com que a sessão começasse com uma hora de atraso. O caso não é para menos até porque há 93 testemunhas para ouvir.

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