A 8ª edição do festival dedicado ao cinema de arquivo, à memoria e à etnografia, organizado pelo Balleteatro, dá um destaque maior à produção nacional com obras de Catarina Moura, David Doutel e Vasco Sá, Dídio Pestana, Ivo M. Ferreira, João Salaviza, João Vladimiro, Leonor Noivo e Regina Pessoa. “Este ano houve mais propostas portuguesas, o que nos permitiu fazer uma seleção com mais filmes portugueses. Provavelmente será uma tendência que gostaríamos de manter em edições futuras”, refere Né Barros, uma das responsáveis pelo Family Film Project.

A coreógrafa e diretora do Balleteatro, refere que em causa não está a qualidade do cinema português, algo que tem vindo a ser provado nas presenças em festivais internacionais, mas o desafio de “encontrar filmes que casem com a zona temática com que estamos a trabalhar”. “Este ano houve esta feliz coincidência, mas provavelmente será esta a nossa tendência de criarmos sempre um enfoque especial sobre o cinema português em competição”, sublinhou, revelando que dos 26 filmes que vão estar em competição, sete são portugueses. O festival coloca, no total, em competição mais de duas dezenas de filmes, entre curtas e longas-metragens, oriundos de 12 países diferentes, como Estados Unidos da América, Holanda, Israel, Suécia, Croácia, Brasil, Chile ou Rússia.

Cláudia Varejão é a artista convidada desta edição, depois de nomes como João Canijo ou Regina Pessoa, estando reservada para a sessão de abertura a exibição da sua mais recente longa-metragem, “Ama-San”. Na programação do festival consta ainda a apresentação do documentário “No Escuro do Cinema Descalço os Sapatos”, rodado em 2016 para a assinalar os 40 anos da Companhia Nacional de Bailado, na cerimónia da entrega de prémios, bem como uma sessão com uma trilogia de curtas-metragens da realizadora e de uma conversa sobre a sua obra, moderada pelo crítico de cinema Luís Miguel Oliveira.

O Family FilmProjetct estabeleceu pela primeira vez um intercâmbio cinematográfico com o (In)appropriation – Festival de Cinema Experimental de Found-footage, resultando numa seleção de dez curtas-metragens inteiramente dedicadas ao cinema de arquivo. Mas nem só de sessões de cinema vive este festival, o calendário inclui ainda um espaço dedicado às artes performativas e à vídeo-instalação. À semelhança das edições anteriores, o evento apresenta o ciclo “Private Collection”, com propostas que abordam o arquivo, a memória, o corpo e as imagens. “É feito um desafio aos criadores para criarem e trabalharem sobre os seus registos pessoais e memórias”, explica Né Barros, destacando o jantar-performance LandMarks – The delay or vicious cycle, de Rebecca Moradalizadeh.

Nesta 8ª edição, o Cinema Trindade junta-se pela primeira vez à lista de palcos que acolhem o Family Film Project, juntamente o Coliseu do Porto, Maus Hábitos e o Cinema Passos Manuel. Além das sessões do primeiro dia de festival, o Cinema Trindade recebe um conjunto de vídeo-instalações concebidas pelo artista convidado Hugo Mesquita a partir de filmes selecionados e que estarão em exibição permanente.

Tal como o nome indica, o festival é para toda a família e os mais novos não ficam mesmo de fora. “Imagens lá de Casa” é a oficina de animação pensada para os mais pequenos que pretende sensibilizá-los para as questões em torno da memória e da história da família. Aqui os participantes são convidados a criar e a refletir sobre as suas fotografias de família e, através de exercícios que permitem a ilusão do movimento na imagem, será explicado como funciona a criação de uma animação.

“(Re)exposing Intimate Traces: Archive, Ethics and the Multilayered Gaze” é o nome da masterclass onde a norte-americana Jaimie Baron irá abordar a delicada relação entre a estética e a ética na apropriação de materiais de arquivo com caráter privado ou íntimo para fins cinematográficos.

Né Barros realça a importância de juntar num mesmo evento “realizadores completamente desconhecidos com profissionais”. “A ideia é criar uma confluência entre produções que são mais profissionais e outras mais experimentais, mais caseiras, com um orçamento quase inexistente. Esta convivência entre formatos e budgets completamente diferentes interessa-nos continuar a explorar no festival.”