O futebol de Silas é para Jesés mas as vitórias só aparecem com Bolasies (a crónica do Desp. Aves-Sporting)

Silas entrou, falou, ouviu e tentou explanar uma nova ideia de jogo na estreia. A exibição do Sporting com o Desp. Aves não foi a melhor, a semente ficou lá – e Bolasie e Jesé explicam o resto (1-0).

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Bruno Fernandes apontou o único golo da vitória do Sporting na Vila das Aves, numa grande penalidade "ganha" por Bolasie

Gonçalo Delgado/Global Imagens

Bruno Fernandes apontou o único golo da vitória do Sporting na Vila das Aves, numa grande penalidade "ganha" por Bolasie

Gonçalo Delgado/Global Imagens

Pode resultar, pode não resultar, pode resultar mesmo que os resultados mostrem o contrário, pode não resultar mesmo que as exibições indiquem o oposto. Aos 43 anos, Silas, que seis meses depois de ter deixado de jogar já treinava o Belenenses SAD e que 20 dias depois da saída dos azuis estava a assinar contrato com o Sporting precisou de três dias e duas apresentações perante a imprensa para mostrar algo novo no Sporting: um outro discurso. Tudo porque, como disse quando foi oficialmente anunciado como treinador na passada sexta-feira, não tem medo, gosta de ser atrevido, pretende mostrar-se arrojado, norteia-se pela ambição. E tudo porque transmite essas ideias de forma aberta, sem tabus, quase que aproximando através das palavras que tem para o exterior tudo o que se passa no plano mais interno. Mais do que fazer milagres, o técnico quer passar a palavra.

“Todos os jogadores têm uma história e noutros tempos já estiveram a um nível muito forte. Não vamos sacar nada do que têm mas sim tirar o melhor que têm. É preciso tempo, ouvir o que eles têm para dizer, o que eles sentem. Para quem andou lá 30 anos, o balneário para mim não tem segredos. O que queremos? Qualidade de vida. E isso é também sair à rua e ouvir elogios. É isso que mais queremos”, referiu na apresentação. De Alvalade para Alcochete, foi assim que ministrou os dois primeiros treinos dos leões, mostrando-se muito próximo dos jogadores para ir percebendo quando, como e quem mexer para dar outra sustentabilidade à equipa após uma série de cinco jogos sem ganhar entre Campeonato, Liga Europa e Taça da Liga. A linha de meta, pelo menos nesta corrida inicial, estava traçada; a forma como lá chegou é que viria a constituir uma surpresa que não se esperava.

O futebol é um universo muito maior do que os números mas são os números que ajudam a entender um universo como o futebol. E os números mostravam que o Sporting, nas últimas 50 partidas disputados como visitante, tinha sofrido pelo menos um golo em 46 (contra “apenas” 33 do Benfica e 25 do FC Porto) – e juntando os jogos particulares, que fizeram a transição entre a Taça de Portugal em maio e a Supertaça em agosto, eram 19 encontros sempre a consentir pelo menos um golo. No entanto, foi de outro setor que Silas falou no lançamento da partida. “Não nos agarramos a um sistema, agarramo-nos a uma ideia: atacar melhor, atacar muito, criar situações de golo. E todos os sistemas e dinâmicas que vamos procurar irão nesse sentido, de tentar atacar melhor”, assumiu.

Ficha de jogo

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Desp. Aves-Sporting, 0-1

7.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Clube Desportivo das Aves, na Vila das Aves

Árbitro: Carlos Xistra (AF Castelo Branco)

Desp. Aves: Beunardeau; Jailson (Bruno Xavier, 83′), Mato Milos, Dzwigala, Afonso Figueiredo; Falcão, Luiz Fernando; Rúben Oliveira, Enzo Zidane, Mohammadi (Rúben Macedo, 80′) e Welinton (Peu, 88′)

Suplentes não utilizados: Aflalo, Hélder Baldé, Bruninho e Estrela

Treinador: Augusto Inácio

Sporting: Renan; Rosier, Coates, Mathieu, Borja (Acuña, 77′); Eduardo (Wendel, 70′), Doumbia, Bruno Fernandes, Vietto; Jesé Rodríguez (Luiz Phellype, 61′) e Bolasie

Suplentes não utilizados: Luís Maximiano, Neto, Miguel Luís e Gonzalo Plata

Treinador: Jorge Silas

Golo: Bruno Fernandes (83′, g.p.)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Luiz Fernando (18′), Rúben Oliveira (85′), Wendel (86′), Dzwigala (87′) e Rosier (90+4′)

Conhecidos os onzes, a promessa de haver mudanças cumpriu-se. E, também aqui, sem medo: além do regresso de Coates depois de três jogos onde cometeu três grandes penalidades e fez dois autogolos, apostou em Borja para dar outra consistência no lado esquerdo da defesa, colocou Eduardo no corredor central e arriscou Vietto, Bolasie e Jesé Rodríguez de início, deixando os habituais titulares Acuña e Wendel no banco. Entre sexta e segunda-feira, Silas falou de algumas questões táticas com os jogadores mas sobretudo quis ouvir. O quê? “O que é que sentiam aqui, o que sentiam ali, o que é que podiam sentir acolá… Não temos muito tempo e o mais importante é estarmos preparados para o jogo e ganharmos”, explicara antes. E foi por colocar como primeiro sentido o ouvir que tentou ver algumas mudanças que podiam ser feitas para deixar de cheirar só as vitórias e quebrar o jejum.

Silas, aquele que à pergunta “será que o Sporting é um clube de malucos” respondeu “Se é assim sou o mais maluco de todos”, montou a equipa dentro do contexto em que a equipa está hoje inserida. Com mudanças estruturais, com alterações na maneira de abordar o jogo, a incentivar a posse e a saída pelos centrais com bola pelo chão. Todavia, e por mais nuances táticas que pudesse apresentar, acabou por ver um único lance marcar grande parte do primeiro tempo: no seguimento de um canto, Rosier desviou de forma inadvertida ao primeiro poste para o ferro da baliza de Renan e, na recarga, Rúben Oliveira rematou muito perto da baliza verde e branca (4′). Não que o jogo até aí tivesse uma tendência mas percebeu-se que os jogadores leoninos ficaram em sentido com essa ameaça.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Desp. Aves-Sporting em vídeo]

O Sporting tinha mais bola mas muitas vezes sem saber o que fazer com ela, ou por falta de velocidade na primeira fase de construção, o que tornava o jogo da equipa demasiado previsível, ou por afunilar em demasia as ações ofensivas pelo corredor central onde tentavam coabitar sem grande sucesso Vietto (que quase não tocou na bola) e Bruno Fernandes (que falhou os quatro primeiros passes). Já o Desp. Aves mostrava uma boa organização coletiva, com linhas mais baixas mas com capacidade de explorar a profundidade das costas contrárias. Com tudo isso, foi preciso esperar quase 20 minutos para o primeiro remate dos leões, com Bolasie a receber de costas para a baliza, a rodar bem sobre o marcador direto e a ganhar a frente para o tiro à figura de Beunardeau (19′).

Numa ótica verde e branca, o direito acabou por quase se escrever por linhas tortas: num lance onde avançou no terreno, olhou à volta e percebeu que não tinha grandes soluções, Eduardo arriscou o remate de meia distância e teve aí a melhor oportunidade do Sporting na primeira parte, com a bola a bater na trave da baliza avense (26′). Estava dado o primeiro aviso de fora da área, que teria seguimento quase em cima do intervalo quando Beunardeau desviou para canto mais uma tentativa do médio brasileiro antes de Vietto atirar ao lado. Do lado do Desp. Aves, Mohammadi ainda teve um lance de perigo na área mas Mathieu limpou e evitou males maiores.

Percebia-se, na teoria, a ideia de jogo do conjunto verde e branco: a mandar, em posse, com futebol apoiado, com constantes movimentações na frente (até para “anular” o facto de não ter uma verdadeira referência ofensiva a não ser Luiz Phellype, que estava no banco). Na prática, à exceção da posse, pouco resultou porque a velocidade, ou a falta dela, quebrou qualquer hipótese de fazer essa ligação de setores da melhor forma. Por isso, nos 15 minutos iniciais do segundo tempo, começou a ser visto de forma mais frequente o passe longo e direto a explorar mais a profundidade nas costas da defesa avense, sem grandes resultados, enquanto os visitados mantinham a sua veia mais pragmática nas transições, como aconteceu quando Welinton e Mohammadi ficaram perto do golo (48′).

No bom e no mau, Bruno Fernandes começava a aparecer e tomou conta do meio-campo: o médio era o jogador com mais bolas perdidas do jogo mas era também aquele que mais tinha ganho e que mais passes para finalização tinha conseguido fazer. Mas, como em tantas outras opções, o capitão verde e branco pode jogar muito mas não consegue jogar por todos e os minutos iam passando sem que o Sporting conseguisse encostar o Desp. Aves ao seu meio-campo para um assalto final à baliza de Beunardeau que permitisse quebrar a série de encontros seguidos sem ganhar. Até que a diferença entre dois avançados fez a diferença no jogo – e no resultado.

Jesé Rodríguez, a grande aposta do Sporting no mercado de inverno por acreditar que poderia inverter a curva negativa da carreira no PSG depois do apogeu no Real Madrid, saiu aos 60′ visivelmente chateado com a opção de Silas. E sem razão, entenda-se: o espanhol tem na ideia de jogo que o novo treinador tenta implementar uma espécie de habitat natural para recuperar tudo aquilo que o distinguiu mas hoje não funcionou e, pior, muitas vezes andou alheado do encontro. Em contraponto, Bolasie, avançado cedido pelo Everton que fez há semana e meia a estreia europeia aos 30 anos, teve algumas bolas perdidas, remates que poderiam ter outras finalizações mas nunca deixou de lutar em busca do seu momento. Sem inspiração, nunca abdicou da transpiração. Deu tudo, ainda que de quando em vez mais com o coração do que com a cabeça. E foi assim que ganhou a grande penalidade a sete minutos do final que Bruno Fernandes converteu para dar a vitória ao Sporting. Se o futebol de Silas é feito para os Jesés, as vitórias só aparecem com Bolasies. Assim se explica o 1-0 na Vila das Aves.

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