Imagine uma montra de pastelaria com um lindíssimo bolo de camadas, digno de fotografia para o instagram. E imagine que repara que é obra de um reputado pasteleiro e feito com os melhores ingredientes no mercado. Atreve-se a provar o tal bolo de potencial soberbo e este só sabe a doce, sem um sabor único e característico que faça justiça ao seu bom aspeto. É mais ou menos assim a experiência de passar pelos quatro episódios de “Catarina, A Grande” a mini-série que é uma das grandes apostas do ano para a HBO (aqui em parceria com a britânica Sky Atlantic).

A primeiríssima fala da protagonista é perguntar a um preso “do you know who I am?” (“sabe quem é que eu sou?”). E a verdade é que algum contexto histórico ajuda a compreender a trama. Tendo subido ao trono aos 33 anos, em 1762, foi a última mulher a estar à frente dos destinos políticos da Rússia. Governou até à sua inesperada morte, em 1796, num reinado polémico desde o seu início. Sagaz e ambiciosa, a originalmente alemã Catarina (que detestava a Alemanha) chegou ao poder depois de um golpe orquestrado por si que resultou na morte imperador Pedro III – o seu próprio marido. Uma peça essencial neste coup foi um dos seus amantes, o militar Grigory Orlov, assim como o apoio da aristocracia. Ficou para a história pela conquista da Crimeia (curiosamente, um território pelo qual Putin também tem hoje em dia particular predileção), que abriu o Mar Negro aos russos, e pela tentativa frustrada de acabar com a escravatura. Detestada pelo filho (era recíproco, na verdade) e pouco levada a sério por conselheiros que viam nela alguém que privilegiava os seus jovens amantes, é alvo de doses iguais de polémica e fascínio até hoje.

[o trailer de “Catarina, a Grande”:]

A série histórica dificilmente podia estar em melhores mãos. Realizada por Philip Martin (de “The Crown”, da Netflix) e escrita por Nigel Williams (habituado a adaptar para televisão clássicos e biografias, de Moby Dick à vida de Nelson Mandela), tem Hellen Mirren no papel principal, aparecendo a oscarizada atriz na esmagadora das cenas. O amor da sua vida (e parceiro de estratégia governativa) Grigory Potemkin (não confundir com o Grigory Orlov acima citado) fica nas mãos de Jason Clarke, ator australiano de “Zero Dark Thirty” e “The Great Gatsby”. O elenco é, aliás, muito bom na maioria dos casos. Então, o que falta aqui? Intensidade, essencialmente.

O modo como se faz uma série de televisão tem mudado muito na última década e meia – em muito devido à própria HBO. Uma série que tem como pano de fundo a construção de um império, com todas as guerra aí implicadas, já não se pode escudar em palácios em recusar as cenas de batalha, cruas e envolventes. No quarto e último episódio há um confronto armado importantíssimo para a história e é estranho que mal se dê por ele, que o nosso estômago permaneça por embrulhar. Depois de uma década de “Guerra dos Tronos” (no seu bélico mais realista, que os dragões nem são para aqui chamados), é desapontante ver pouco mais que um quadro a mexer-se. Um quadro belíssimo do século XVII — que a direção de fotografia e os cenários de “Catarina, A Grande” não são menos que impressionantes — mas mesmo assim apenas um quadro. E a experiência museológica já não nos chega.

O guião tem algumas boas tiradas de diálogo, geralmente da própria Catarina (“é um erro pedir dinheiro a um rico. Como achas que ele ficou rico?” ou “a maturidade é uma decisão que se toma”). Opta também por uma linguagem ácida, sem descurar sequer palavrões que dificilmente teriam lugar numa série histórica e reputada há uns anos. Mas a narrativa em si opta por uma mudança de velocidades pouco eficaz, pastelando o plot em alguns momentos e saltando meses ou anos apressadamente em outros. E acaba por envolver pouco o espectador no lado emocional, no que raio está em jogo para aquela mulher e aquele império. O tom geral de série, tão britânico que podia ter sido feita pela BBC em 1984, também não ajuda – há pouca Rússia, há pouca ideia de uma Europa em revolução pelo contraste de ideais entre países, há poucas arestas, sobejando apenas a ideia errada de que estamos em Moscovo mas podíamos estar em Windsor.

Outra solução narrativa que não resulta, de tão forçada e óbvia, é o personagem embriagado que surge em todos os episódios para atuar como uma espécie de Grilo Falante que revela as verdadeiras intenções dos intervenientes. Não surge em mais contexto nenhum, pouco ou nada sabemos sobre ele, o que acaba por o tornar não só bidimensional como também numa ferramenta preguiçosa.

Os méritos artísticos de Mirren e Clarke estão sobejamente provados, mas os seus desempenhos têm aqui um enorme entrave: um com o outro, têm a química de um saleiro e um pimenteiro de inox. E isso torna-se especialmente penoso porque a sua história de amor e luxúria é, no fundo, a história principal. Nunca acreditei mesmo que se amassem para a vida toda, como a outra canção que ganha Globos de Ouro, nem sequer acreditei que desejassem a sua carne como se fosse bife kobe no Chimarrão. Acredito que sejam amigos e que bebam muito chá, quanto muito. A grande cena em que se envolvem pela primeira vez, num banho após uma batalha – queria-se lânguida e é apenas banal como se estivéssemos em Queluz de Baixo. “Catarina, A Grande” é, aliás, uma série na qual o sexo é importantíssimo, mas parece mostrado com desinteresse e talvez pudor. O que é uma pena, porque colocar numa série uma mulher para lá da meia idade numa posição de voraz desejo e com a líbido em pleno é de uma frescura e arrojo que faz muita falta. Uma oportunidade desperdiçada, infelizmente. Mas vai render muitos Globos de Ouro (não são os da Cristina) lá para janeiro do próximo ano.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa