“Dou-me bem com o calor mas com o calor do deserto não, tento fugir disso”. Patrícia Mamona é mais uma das dezenas de atletas que não estão propriamente a ter vida fácil em Doha, onde os Mundiais de atletismo têm sido marcados pelas críticas à opção da Federação Internacional em levar para aquele ponto uma prova relevante e em vésperas de Jogos Olímpicos. Ainda assim, nem isso nem um pequeno estalo que sentiu no joelho durante a fase de qualificação para a final do triplo salto poderiam servir de desculpa. Bem pelo contrário.

“Tenho de estar bastante confiante, afinar as corridas no aquecimento para que as chamadas sejam mais perfeitas do que na qualificação e arriscar. Depois, é só esperar que o grande salto que tenho nas pernas saia, que seja válido e que traga muitas alegrias. A mim, ao meu treinador e a todos nós”, garantia antes da final em conversa com A Bola, prosseguindo: “Há aqui muita gente que pode sonhar com uma medalha e eu estou entre essa gente, a medalha está no meu desejo. No desejo, na cabeça ou no coração? Em tudo isso, sim. No meu sonho. Sei que neste momento sou muito melhor atleta do que alguma vez fui, do que era no Rio [Jogos de 2016] Sei que tenho em mim o salto mais largo que alguma vez tive. Por isso, é esperar que as estrelas se alinhem, que esteja tudo certo no momento certo: a adrenalina, a competição e que saia o grande salto que tenho dentro de mim”.

Patrícia Mamona era a última esperança de Portugal numa medalha nestes Mundiais, depois da prata de João Vieira nos 50km marcha (e dos quatro centímetros que separaram Pichardo do bronze no triplo salto). No entanto, quer a marca com que se qualificou para a final, quer o nível das adversárias presentes nesta fase decisiva faziam deste momento um dos maiores desafios da atleta portuguesa em termos internacionais – logo ela que já soma, entre outros destaques, um ouro (2016) e uma prata (2012) em Europeus ao Ar Livre, mais uma prata (2017) em Europeus de Pista Coberta. Até onde conseguiria voar Mamona? Os três primeiros saltos dariam a resposta.

Olhando para o quadro das 12 finalistas, apenas três tinham um melhor resultado do ano abaixo da portuguesa, sendo que esse 14.44 em fevereiro, em Madrid, foi obtido em Pista Coberta, estando o 14.37 alcançado em Itália em julho como melhor marca de 2019 ao Ar Livre. No entanto, a qualificação mostrou também que algumas das potenciais favoritas não estavam com grandes registos, sendo a cubana Yulimar Rojas e a espanhola Ana Peleteiro dois exemplos paradigmáticos disso mesmo. Estava tudo em aberto para uma das finais mais disputadas destes Mundiais, com várias candidatas aos três lugares no pódio de uma prova que comprovou em paralelo a subida do nível no triplo salto com atletas de países que nunca foram propriamente potências.

Patrícia Mamona começou da melhor forma, com um 14.40 que significava a melhor marca pessoal do ano ao Ar Livre, ainda que longe dos 14.65 do recorde nacional feitos nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. No entanto, essa melhoria de quase 20 centímetros serviu apenas para ocupar o sexto lugar no final da primeira série face à subida de nível das principais adversárias, casos de Yulimar Rojas (Estados Unidos, 14.87), Shanieka Ricketts (Jamaica, 14.81), Kim Williams (Jamaica, recorde pessoal com 14.64), Olha Saladukha (Ucrânia, melhor registo pessoal do ano com 14.52) e Ana Peleteiro (Espanha, 14.47).

Nas duas rondas seguintes, Patrícia Mamona não conseguiu melhorar o registo alcançado no primeiro salto (14.34 e 14.30) e foi ainda superada pela americana Keturah Orji (14.46), ficando à frente da colombiana Caterine Ibarguen com a mesma marca no lote de atletas que seguiram para os últimos três saltos, já com Yulimar Rojas bem distanciada na liderança da prova com um 15.37 e Shanieka Ricketts a reforçar a segunda posição com 14.92. De fora ficaram Tori Franklin (Estados Unidos, 14.08), Rouguy Diallo (França, 14.08), Andreea Panturoiu (Roménia, 14.07) e Kristiina Mäkelä (Finlândia, 13.99, depois dos 14.26 da qualificação).

Nas derradeiras tentativas, obrigada a arriscar tudo para tentar ainda um lugar no pódio, fez 14.17 no quarto salto e nulos na quinta e sexta ronda, sendo entretanto ultrapassada por Caterine Ibaurguen que, depois de um 14.46, chegou finalmente ao seu nível habitual com um salto de 14.73 que lhe valeu a terceira posição e respetiva medalha de bronze, atrás da vencedora Yulimar Rojas e da vice-campeã Shanieka Ricketts.