“Vocês pretendem que eu pegue na agulha e pique a bolha?”. Numa reunião do Conselho Consultivo do Banco de Portugal, há cerca de ano e meio, esta terá sido a resposta de Elisa Ferreira — então vice-governadora com o pelouro da supervisão, que agora seguiu para a Comissão Europeia — quando foi confrontada por dois conselheiros com os riscos que o Montepio pode representar para a estabilidade financeira no país, desde logo pela utilização que (ainda) existe das sucursais do banco para vender produtos de aforro da Associação Mutualista Montepio Geral, liderada por Tomás Correia. Produtos que foram comparados com um “esquema Ponzi” por um conselheiro.

A história é contada esta segunda-feira pelo Público. Segundo o jornal, que teve acesso ao conteúdo dessa reunião que chama “tensa”, em finais março de 2018. Dois conselheiros — João Talone (ex-administrador do BCP e, hoje, líder do fundo de private equity Magnum Capital) e, depois, João Costa Pinto (ex-presidente do BNU e do Caixa Agrícola) insurgiram-se contra a influência que a mutualista liderada por Tomás Correia continuava a ter na instituição financeira, a Caixa Económica Montepio Geral, hoje mais conhecida simplesmente por Banco Montepio.

Por aqueles dias, a associação mutualista Montepio aprovava mais umas contas anuais (de 2017) que davam conta de um cenário muito complicado para a instituição, entre os resgates e as novas subscrições — novas subscrições que, para João Talone, serviam apenas para pagar os rendimentos dos instrumentos emitidos anteriormente. Ora, para o especialista em finanças, isso corresponde à definição de um esquema piramidal, um “esquema Ponzi” que, caso rebentasse, significaria um “buraco” de dois mil milhões de euros.

Recorde-se que, tendo esta reunião sido tida a 28 de março, aconteceu cerca de duas semanas depois de, em pleno Parlamento, o primeiro-ministro António Costa ter dito que o seu Governo faria “tudo para proteger os associados do Montepio, as 600 mil famílias que confiaram numa instituição e que têm aí as suas poupanças”.

O tema nem estava na agenda dos trabalhos nessa reunião — aliás, a cúpula do BdP nunca teve a iniciativa de sugerir esse tema como ponto da ordem de trabalhos deste órgão consultivo. Mas estava na agenda mediática e, portanto, o tema surgiu. E a vice-governadora, Elisa Ferreira, reconheceu que havia no BdP uma “consciência do problema” e assegurou que “os serviços do BdP tinham vindo a recolher muita informação sobre a matéria”. Em contraponto, João Costa Pinto considerou a situação “escandalosa”.

A vice-governadora sublinhou que, por pressão do BdP, tinha passado a existir uma maior separação entre o Banco Montepio e a Associação Mutualista Montepio Geral, incluindo uma proibição dos gestores bancários de vender produtos da mutualista ao balcão, como se fossem depósitos ou outro produto financeiro comum. Mas continua a haver, nas sucursais do banco, um “gestor mutualista”. embora num guichet separado.

Para João Talone, essa pretensa separação não seria eficaz e fazia lembrar a separação que também se quis impor ao Banco Espírito Santo e o Grupo Espírito Santo, que não foi eficaz e permitiu que se complicasse a situação do banco nos últimos meses de vida.

“O tema do Montepio tem de ser resolvido na origem”, defendeu João Talone, pedindo que se acabasse totalmente com a venda de produtos mutualistas nas sucursais do banco Montepio, mesmo por esses “gestores mutualistas”. Elisa Ferreira terá dado a entender que isso significaria colocar em causa a sobrevivência do grupo: “Vocês pretendem que eu pegue na agulha e pique a bolha”? João Talone terá respondido que não era “preciso picar, basta encostar a agulha”.

Luís Nazaré e Francisco Louça, que também pertencem a este órgão, não terão participado nesta reunião. Confrontada com o Público com este relato da reunião, Elisa Ferreira disse não saber “onde está a notícia” e insurgiu-se contra o facto de a comunicação social estar a escrever sobre as conversas de um órgão “reservado, onde se deve estar à vontade para falar”.