Quantas cadeiras tem em casa? E quantas horas diárias passa sentado nelas? E na cadeira do escritório? Quantos minutos caminha por dia? Vai a pé, de transportes ou de carro para o trabalho? As perguntas têm razão de ser e estão na origem de “Alteração Primata”, do autor britânico Vybarr Cregan-Reid, que pretende mostrar como o mundo que criámos nos está a mudar, como os nossos ossos são muito mais finos e os músculos mais fracos por comparação com os nossos antepassados ou como temos sistemas imunitários mais debilitados. Em suma, como a atual vida sedentária nos está a enfraquecer e traz consigo riscos sérios (além das mais habituais dores de costas). 

A obra densa de Cregan-Reid pretende a reflexão: porque hoje, em todo o mundo, mil milhões de humanos precisam de se sentar em cadeiras para trabalhar e porque, diz, corremos o risco de morrer assim, sentados. O autor de “Alteração Primata” — investigador académico, Leitor em Inglês e Humanidades Ambientais na Universidade de Kent e colaborador regular em meios britânicos como BBC, The Guardian ou The Telegraph — deu uma entrevista ao Observador para explicar que “apesar das centenas de mil milhões que gastamos em assistência médica nos ajudarem a viver mais, o nosso estilo de vida sedentário é um dos maiores fatores associados à morte precoce”.

Respondendo por e-mail, Vybarr Cregan-Reid salienta ainda:

  • “Doenças cardíacas, diabetes e alguns tipos de cancro estão fortemente associados ao sentar prolongado e são responsáveis por dezenas de milhões de mortes em todo o mundo”;
  • “Os países mais ricos sofrem mais com dores nas costas”;
  • “[As dores lombares] São a condição de saúde mais cara. São a principal causa de incapacidade no mundo”.

“Alteração Primata” foi considerado pelo Financial Times um dos melhores livros de ciências de 2018.

À venda desde o início de outubro por 19 euros

O título do livro é uma provocação? Afinal, é muito parecido com “Alterações Climáticas”…
O título do livro em inglês é realmente um trocadilho. O título original era “O Corpo Antropoceno”, mas, tal como é explicado na introdução do livro, ainda não é um termo amplamente conhecido. O segundo título foi “Alteração Primata” porque, embora tenha havido, e com razão, muitas coisas escritas sobre o impacto que os seres humanos tiveram no ambiente, não houve realmente nada sobre como essas mudanças também alteraram os seres humanos.

Os antepassados do homem enfrentaram duras condições de vida. Atualmente, temos uma existência mais confortável e vivemos até mais tarde. Mas o nosso estilo de vida está a enfraquecer-nos, não é verdade? Parte da culpa é por estarmos muito tempo sentados?
A expectativa de vida é uma coisa engraçada. Vivemos mais tempo no mundo moderno, mas assim que a alta taxa de mortalidade infantil em grupos de caçadores é contabilizada, há menos diferença do que podemos imaginar. Das dez principais causas de morte em todo o mundo, sete delas estão ligadas a níveis de atividade reduzidos. Apesar das centenas de mil milhões que gastamos em assistência médica nos ajudarem a viver mais, o nosso estilo de vida sedentário é um dos maiores fatores associados à morte precoce.

Quando é que o homem se começou a sentar? As cadeiras chegaram a ser símbolo de poder e de riqueza?
Os humanos ter-se-ão sentado a partir do momento em que se levantaram. Sentaram-se no chão, em galhos ou em pedregulhos. Mas, por norma, não tinham um motivo para fazê-lo porque não havia muito trabalho que pudesse ser feito nessa posição. As cadeiras apareceram provavelmente há cerca de 5.000 anos. Mas, mesmo assim, não as usávamos muito porque não havia o que fazer nelas: não havia televisão, livros ou teatro. Em vez disso, as cadeiras foram associadas à liderança e ao poder. E ainda são.

Como é que passámos a viver num mundo onde há mais “milhares de milhões de cadeiras” do que pessoas?
Isso acontece porque os nossos modos de trabalho e de lazer mudaram. No início do século XIX, apenas cerca de 0,02% das pessoas estavam empregadas em “trabalho de escritório”. Era uma pequena proporção da força de trabalho. Hoje, nos EUA, cerca de 85% das pessoas estão empregadas em trabalho sedentário. Hoje, em todo o mundo, mil milhões de humanos precisam de se sentar em cadeiras para trabalharem. Os modos de lazer também mudaram substancialmente, a maioria dos quais podem ser desfrutados em casa (jogos e streaming) ou assistindo a um concerto, peça ou filme, para o qual provavelmente será necessário uma cadeira.

Corremos o risco de morrer sentados?
É alarmante, mas a resposta é sim. Muitos dos fatores de risco associados ao estarmos sentados durante muito tempo também levam às causas de morte mais prováveis para os humanos modernos: doenças cardíacas, diabetes e alguns tipos de cancro estão fortemente associados ao sentar prolongado e são responsáveis por dezenas de milhões de mortes em todo o mundo. Embora estes números sejam muito preocupantes, existe uma solução muito simples, que consiste em interromper períodos de sedentarismo com alguma atividade.

Já não sabemos o que é viver sem dores de costas?
Alguns países sofrem menos com dores nas costas do que outros. Um dos factos surpreendentes, porém, é que as taxas de dores nas costas num determinado país podem estar ligadas aos rendimentos. Os países mais ricos sofrem mais com dores nas costas.

Vybarr Cregan-Reid © DR

Nesse sentido, quais são as profissões de menor e maior risco?
É uma pergunta complexa. Quanto mais rico for o país, pior é a dor de costas. Existem muitas associações, mas muitos países ricos têm uma alta proporção de trabalhadores sedentários. As profissões de maior risco são aquelas que, de repente, exigem que um corpo não treinado faça trabalho físico além da sua capacidade. Motoristas de camiões correm maior risco: eles tendem a trabalhar durante longos períodos de trabalho sedentário (sentados ao volante), os quais são apenas e ocasionalmente interrompidos por trabalho pesado, o que aumenta o risco de lesões. Outros grupos de alto risco são os enfermeiros estagiários e os funcionários de limpeza. As costas podem demorar quatro a cinco anos a adaptarem-se a novas formas de trabalho (e é por isso que os enfermeiros mais afetados são os estagiários).

Quanto custam às sociedades ocidentais as dores lombares?
É a condição de saúde mais cara. É a principal causa de incapacidade no mundo.

Além de sentados, passamos mais tempo no interior do que no exterior. Isso também é um problema. Consegue explicar porquê?
Outro problema complexo. Ficar dentro de casa por longos períodos é mau para nós enquanto adultos, mas pode ser ainda pior para as crianças. Uma pesquisa publicada na revista científica Nature concluiu que as pessoas nos EUA passavam 93% do tempo dentro de casa. O mais chocante dessa estatística é que o estudo foi publicado em 2001: antes de smartphones, antes de tablets e de iPads, antes da Netflix e da Amazon Prime. O número de hoje provavelmente seria entre 96% e 98%. Estar em ambientes fechados, exposto a luz de baixa qualidade, pode afetar a visão das crianças. Estar longe de ambientes naturais/espaços verdes pode afetar a probabilidade de desenvolvimento de alergias. Estar no interior [ao invés do exterior] faz com que seja muito mais difícil para todos obterem a nutrição básica dos movimentos. Em casos extremos, a sub-exposição à luz natural também pode levar à deficiência de vitamina D, que está relacionada com exaustão, com um sistema imunitário reduzido e até com doenças ósseas, como raquitismo. Também estamos expostos a poluentes no interior, tais como formaldeído, xileno ou tricloroetileno, portanto, o melhor é sair para passear.

Também estamos a educar os nossos filhos para uma vida sedentária? Eles correm, por isso, mais riscos do que nós?
Se pensarmos em como a vida moderna está a dificultar os nossos movimentos, é possível que os nossos filhos herdem um ambiente mais desafiante. Eles são sobretudo sedentários na escola, pelo que as crianças precisam de ser incentivadas a mexerem-se o máximo possível.

Além das dores lombares, como é que o sedentarismo afeta o nosso corpo (considerando os dentes, os pés, as mãos e os olhos)?
Níveis reduzidos de atividade física afetaram-nos de várias maneiras. O principal problema é que os nossos ossos são muito mais finos e os nossos músculos são muito mais fracos. Temos aproximadamente menos de metade da força e densidade óssea dos nossos antepassados caçadores-coletores. Podemos ver esses problemas (de densidade óssea enfraquecida) no formato dos nossos rostos (porque grande parte dos nossos alimentos é processada fora da boca). Ou nas crescentes taxas de osteoporose e osteoartrite que estão igualmente ligadas à inatividade física. A maneira de contornar isso é introduzir um pouco mais de atrito no nosso dia a dia: caminhar para algum lugar em vez de conduzir ou usar menos máquinas em casa (como varrer em vez de aspirar, pelo menos de vez em quando).

Andar é mesmo uma cura milagrosa?
Os corpos humanos são feitos para andar. Não tenho conhecimento de nenhum estudo que discuta os riscos associados a caminhadas. Isso acontece porque os nossos corpos, ao longo de milhões de anos, adaptaram-se de maneira a recompensar-nos pelo movimento. Andar afeta tudo, desde a densidade óssea à força muscular, mas também afeta positivamente a saúde mental. Temos metade da probabilidade de desenvolver diabetes tipo 2 se caminharmos 30 minutos por dia, uma redução de 20% no risco de desenvolver cancro de mama e temos até 40% menos probabilidade de desenvolver doenças cardíacas, sendo que andar também pode reduzir em 50% o risco de desenvolver cancro de cólon. E há muito mais. [Andar] é milagroso.

Além de andar, que outros hábitos saudáveis deveríamos estar a adotar enquanto sociedade?
Um dos melhores investimentos que podemos fazer a pensar no futuro é mandar fora a confortável cadeira de escritório e substituí-la pela mais desagradável que encontrarmos. A razão pela qual devemos fazer isto é porque com uma cadeira desconfortável há menos probabilidade de a usarmos para descansar. Isso facilitará a adição de meses e de anos de boa vida. Esse é um dos fatores unificadores por detrás dos pequenos grupos de pessoas em todo o mundo que vivem muito mais do que o ser humano médio moderno. As pessoas que vivem nessas regiões de longevidade não têm acesso a coisas como ginásios e casas de repouso, a maioria nunca se exercitou. Em vez disso, a quantidade de tempo que passaram em pé todos os dias das suas vidas protegeu-as de muitas das doenças metabólicas que afetam centenas de milhões de seres humanos modernos. A introdução de atividades mais leves na vida diária é uma das maneiras mais fáceis de resolver muitos desses problemas. Os nossos corpos não gostam de ser sedentários, não entendem isso. Os carros são um desastre para a saúde humana, não apenas pelo facto de poluírem as nossas cidades, mas também por nos desencorajarem ao movimento diário. Se for uma opção, livre-se do carro.

Pode comentar este contrassenso que surge, a certa altura, no livro: “As populações das nações desenvolvidas são persistentemente pressionadas a manterem-se ativas, apesar de as formas de trabalho, de lazer e de consumo incentivarem exatamente o oposto”?
Somos seres tecnológicos. Quando olhamos para um problema, pensamos em soluções tecnológicas: aquelas que resolvem e simplificam os nossos problemas. Mas o que é mais fácil nem sempre é o melhor para nós. Nos próximos anos, será um desafio para os seres humanos manter níveis de atividade apropriados enquanto são bombardeados por soluções tecnológicas para simplificar as suas vidas. Enquanto estivermos dispostos a aceitar que precisamos de mais atrito nas nossas vidas, há muita esperança. Penso que estamos no ponto em que começamos a reconhecer a nossa situação e a fazer mudanças.